O primeiro dia de julgamento do nĂșcleo 2 da trama golpista no Supremo Tribunal Federal (STF) teve a sustentação oral de seis advogados dos rĂ©us, que defenderam seus clientes, alĂ©m do posicionamento do procurador-geral da RepĂșblica, Paulo Gonet, que pediu a condenação de todos os acusados.
Com retorno previsto para terça-feira (16/12) e expectativa de conclusĂŁo desse nĂșcleo no mesmo dia, os quatro ministros da Primeira Turma ouviram na primeira sessĂŁo os posicionamentos das defesas e da Procuradoria-Geral da RepĂșblica (PGR).
ApĂłs a leitura do relatĂłrio pelo relator, ministro Alexandre de Moraes, Gonet reforçou o que jĂĄ havia pedido nas alegaçÔes finais e defendeu a condenação dos seis rĂ©us acusados de utilizar a mĂĄquina pĂșblica, por meio da PolĂcia RodoviĂĄria Federal (PRF), para dificultar o acesso de eleitores aos locais de votação no segundo turno das eleiçÔes de 2022.
Quem sĂŁo os rĂ©us do nĂșcleo 2
- Filipe Martins â ex-assessor de Bolsonaro que acompanha o julgamento desta terça no STF;
- Fernando de Sousa Oliveira â delegado da PolĂcia Federal e ex-secretĂĄrio-adjunto da Secretaria de Segurança PĂșblica do DF;
- Marcelo CĂąmara â coronel do ExĂ©rcito e ex-assessor de Bolsonaro;
- MĂĄrio Fernandes â general da reserva do ExĂ©rcito;
- MarĂlia Ferreira de Alencar â delegada da PolĂcia Federal e ex-subsecretĂĄria de Segurança PĂșblica do Distrito Federal;
- Silvinei Vasques â ex-diretor-geral da PolĂcia RodoviĂĄria Federal (PRF).
Gonet salientou que os integrantes visavam a instalação de um âcaos socialâ para provocar uma intervenção criminosa. Para ele, os rĂ©us queriam âum cenĂĄrio de aberta violĂȘncia, imposto Ă premissa sobre a materialidade do crimeâ.
âĂ certo que os denunciados neste processo aderiram aos propĂłsitos ilĂcitos da organização criminosa e contribuĂram para os eventos penalmente relevantes em apreçoâ, afirmou o PGR durante o julgamento.
O procurador-geral acrescentou: âAs investigaçÔes identificaram uma atuante rede de comunicaçÔes desenvolvida pelos rĂ©us, com evidĂȘncias de reuniĂ”es e de tomada de decisĂ”es, voltadas para gerar açÔes conjuntas perniciosas, apoiadas no uso da força policial, tendo por objetivo assegurar, a custo de expedientes ladinos, a vitĂłria de Jair Bolsonaroâ.
Defesas
Enquanto a PGR pediu a condenação de todos os réus pelos crimes de tentativa de abolição violenta do Estado Democråtico de Direito, tentativa de golpe de Estado, participação em organização criminosa armada, dano qualificado e deterioração de patrimÎnio tombado, as defesas pediram a absolvição dos acusados.
Os trabalhos dos advogados começaram com Guilherme de Mattos Fontes, defensor de Fernando de Sousa Oliveira. Ele pediu que o cliente não fosse condenado por nenhum dos crimes imputados pela PGR.
âA acusação nĂŁo subsiste. A defesa sustenta, sobretudo, a ausĂȘncia de participação do acusado Fernando nos crimes que lhe foram imputados. Isso porque a prova dos autos demonstra que, em nenhum aspecto, Fernando concorreu ou contribuiu para a empreitada criminosa. Teve conduta diametralmente oposta Ă intentada criminosa e em completo desalinhamento com os demais corrĂ©us, em especial o acusado Anderson Torresâ, destacou.
O segundo a ocupar a tribuna foi Jeffrey Chiquini, advogado de Filipe Martins, ex-assessor internacional de Bolsonaro. Ele afirmou que Martins foi preso, denunciado e serĂĄ julgado por culpa do ex-ajudante de ordens de Jair Bolsonaro, Mauro Cid.
âPreso por uma viagem que nĂŁo fez, por uma minuta que nĂŁo escreveu. Mesmo assim, passou seis meses em uma prisĂŁo, 10 dias em uma masmorra, uma solitĂĄriaâ, argumentou.
Chiquini reiterou que Martins nĂŁo viajou aos Estados Unidos e disse que o delegado responsĂĄvel pelas investigaçÔes foi âlenienteâ ao aceitar informaçÔes de Cid ao mandar prender o ex-assessor.
âPorque esta prisĂŁo de Filipe Martins por uma viagem que nĂŁo fez mostra o comportamento ultrajante do delegado. Um investigador que fechou os olhos aos documentos oficiais que tinha Ă sua disposição para âperquirir ab initioâ (investigar minuciosamente desde o inĂcio) atĂ© o enredo final â mas nĂŁo o fezâ, disse.
Ă tarde, a sessĂŁo foi retomada com a sustentação oral de Eduardo Kuntz, advogado de Marcelo CĂąmara. âO coronel Marcelo CĂąmara nĂŁo sabia o que estava acontecendoâ, alegou.
âĂ muito possĂvel, muito provĂĄvel â principalmente porque isso consta da acareação, quando o coronel Cid diz que o coronel CĂąmara nĂŁo sabia das operaçÔes â, que ele tenha sido, sim, usado para passar informaçÔes. Esta defesa nĂŁo deixa de considerar issoâ, acrescentou o defensor.
Em seguida, falou EugĂȘnio AragĂŁo, advogado de MarĂlia Alencar, delegada da PolĂcia Federal e ex-subsecretĂĄria de Segurança PĂșblica do Distrito Federal.
âTem que se levar em consideração que a doutora MarĂlia foi nomeada e tomou posse no dia 5 de janeiro â portanto, poucos dias antes. Ela nĂŁo tinha estrutura na secretaria, nĂŁo tinha escolhido as pessoas que iam trabalhar com ela; tinha que se valer da estrutura existente para desempenhar sua funçãoâ, declarou.
Marcus VinĂcius, advogado de MĂĄrio Fernandes, tambĂ©m abordou a minuta golpista.
âEle [MĂĄrio Fernandes] vai ser condenado porque era a favor da assinatura. E eu nĂŁo estou aqui para absolver absolutamente ninguĂ©m; sou sĂł um advogado, com muitas dificuldades, inclusive, que tenta constantemente driblĂĄ-las. Mas o papel aqui nĂŁo Ă© discutir se a conduta dele Ă© moral ou nĂŁo Ă© moralâ, disse.
O Ășltimo a falar foi Eduardo Pedro Nostrani SimĂŁo, defensor de Silvinei Vasques.
âNo dia das eleiçÔes, vĂĄrios vĂdeos circularam dando o tom de que o meu cliente estava tentando impedir o voto popular naqueles locais onde o atual presidente teria a preferĂȘncia dos eleitores. SĂŁo dados falsos. Os vĂdeos sĂŁo verdadeiros, mas as notĂcias referentes aos vĂdeos sĂŁo falsasâ, afirmou.
O julgamento, que serĂĄ retomado nesta prĂłxima terça-feira (16/12), terĂĄ reinĂcio com o voto de Moraes.

