Um estudo publicado no British Medical Journal (BMJ) acende um alerta sobre a capacidade do Sistema Único de Saúde (SUS) de responder aos efeitos das mudanças climáticas na Amazônia. Segundo pesquisadores brasileiros, o modelo atual de atenção à saúde não está preparado para lidar com o avanço de eventos extremos, da degradação ambiental e das desigualdades históricas que afetam a região, o que exige uma reorganização profunda das políticas públicas de saúde.

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De acordo com o artigo, o SUS na Amazônia enfrenta um cenário duplo, a persistência de doenças evitáveis e o surgimento de novos problemas associados à crise climática, como o aumento de doenças infecciosas, agravos respiratórios e impactos na saúde mental. Secas severas, cheias extremas, queimadas e isolamento de comunidades expõem fragilidades estruturais do sistema, especialmente em territórios onde o acesso aos serviços depende diretamente da navegabilidade dos rios.
No Acre, esses desafios se tornaram mais evidentes nos últimos anos. Em 2024, o Rio Acre atingiu a menor cota já registrada em Rio Branco, chegando a 1,23 metro, cenário que comprometeu o transporte fluvial e dificultou o deslocamento de equipes de saúde, medicamentos e insumos. Já em 2023, uma seca prolongada afetou todo o estado, isolando comunidades indígenas e rurais e pressionando a rede pública de atendimento.

O Rio Acre tem enfrentado extremos ao longos dos últimos anos | Foto: Agência Brasil
Os efeitos ambientais também têm reflexos diretos na demanda do SUS acreano. O número de focos de calor saltou de cerca de 6.500 em 2023 para mais de 8.600 em 2024, ano marcado por fumaça persistente, suspensão de aulas e decretação de emergência ambiental. Esse contexto contribuiu para o aumento de doenças respiratórias, síndromes gripais e casos graves de SRAG, que cresceram de forma contínua entre 2023 e 2025, culminando em decretos de emergência em saúde pública.

Período da seca preocupa a Sesacre em 2024 | Foto: Juan Diaz
Outro indicador sensível é o avanço das arboviroses. Os casos confirmados de dengue no Acre passaram de aproximadamente 5.059 em 2023 para cerca de 7.500 em 2025, com registro de mortes e maior pressão sobre unidades básicas, UPAs e hospitais.
Para os pesquisadores, a intensificação do desmatamento, a perda de biodiversidade e a alteração dos ciclos climáticos favorecem a proliferação de vetores e ampliam o risco de surtos.
O estudo também destaca que o SUS ainda opera, em grande parte, com políticas pensadas fora da realidade amazônica. Na região, o acesso à saúde é definido mais pelo tempo de deslocamento do que pela distância geográfica, o que exige estratégias específicas para um “território fluido”, onde rios funcionam como estradas e podem desaparecer durante estiagens extremas.
Como caminho, os autores defendem que a adaptação do SUS à Amazônia passe pela integração de saberes científicos e tradicionais, pela vigilância em saúde baseada nas comunidades e pelo fortalecimento da atenção primária em áreas remotas.
Com a realização da COP30 na Amazônia e a elaboração de um plano nacional de saúde e clima, o artigo aponta que este é um momento decisivo para que o SUS incorpore as especificidades amazônicas e responda de forma mais eficaz aos desafios que já impactam estados como o Acre.
