Milhões de brasileiros com dor crônica buscam acupuntura como tratamento

A regulamentação da profissão em janeiro de 2026 reforça a segurança da prática e amplia o acesso pelo SUS em todo o país

Acupunctura
📸 Foto: freepik

Uma professora de Cruzeiro do Sul precisou se afastar da sala de aula por causa de dores persistentes na coluna. Um servidor público de Rio Branco passou anos tomando anti-inflamatórios por conta própria até que as dores no joelho comprometeram até a rotina de caminhar pelo bairro.

Os dois casos são comuns no Acre e refletem um problema que o sistema de saúde brasileiro ainda tem dificuldade de absorver: a dor crônica, aquela que persiste por mais de três meses e que, em muitos pacientes, não responde bem aos tratamentos convencionais.

Estimativas do Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura indicam que cerca de 40 milhões de brasileiros convivem com algum tipo de dor crônica. A OMS calcula que mais de 600 milhões de pessoas no mundo apresentam dor lombar, e a projeção aponta para 800 milhões até a metade deste século.

No Brasil, a Pesquisa Nacional de Saúde de 2019, conduzida pelo IBGE, mostrou que 23,4% dos adultos relataram problema crônico de coluna. Com a pandemia, esse número saltou para 33,9%, segundo levantamentos posteriores.

O Acre sentiu isso na prática. Em 2025, o governo estadual inaugurou os primeiros ambulatórios especializados em dor crônica do estado, em Rio Branco e em Cruzeiro do Sul, com atendimento multiprofissional que inclui acupuntura entre os recursos terapêuticos. A iniciativa revelou a dimensão do problema: as vagas se esgotaram rapidamente e a lista de espera cresceu.

O que a dor crônica faz com o paciente que não busca tratamento adequado

Conforme explicado por acupunturistas do COE Goiânia, clínica especializada em ortopedia e acupuntura, a dor que dura meses não é apenas um incômodo. Ela altera o sono, reduz a capacidade de trabalho e está diretamente associada a quadros de ansiedade e depressão.

O Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos (ELSI-Brasil), financiado pelo Ministério da Saúde, apontou que 36,9% dos brasileiros acima de 50 anos convivem com dores crônicas. Entre esses pacientes, 30% fazem uso de opioides para aliviar o desconforto.

O dado preocupa pesquisadores. A revista científica The Lancet já alertou que o uso prolongado de opioides está associado a riscos de dependência e efeitos adversos graves.

Nos Estados Unidos, a crise dos opioides já provocou mais de 68 mil mortes por overdose em um único ano. No Brasil, embora a escala seja diferente, especialistas acompanham o crescimento do consumo dessas substâncias com atenção.

A dor crônica também tem um recorte social. Mulheres, pessoas de baixa renda e moradores de regiões com menos acesso a serviços especializados são os mais afetados. Segundo a pesquisa ELSI-Brasil, a prevalência é maior entre quem já foi diagnosticado com artrite, tem histórico de quedas e vive com sintomas depressivos.

Para quem mora no interior do Acre, onde o deslocamento até a capital pode levar horas de estrada, o acesso a um acompanhamento especializado é ainda mais difícil. A abertura dos ambulatórios de dor em Cruzeiro do Sul foi, nas palavras de uma paciente atendida no primeiro dia de funcionamento, “um divisor de águas”.

Como a acupuntura age no organismo e o que a ciência já comprovou

A acupuntura consiste na inserção de agulhas finas em pontos específicos do corpo, estimulando terminações nervosas que provocam respostas no sistema nervoso central.

O estímulo percorre vias específicas até o encéfalo, o hipotálamo e o sistema límbico, promovendo a liberação de neurotransmissores e hormônios com efeito analgésico e anti-inflamatório. A endorfina, substância que o próprio organismo produz e que age como analgésico natural, é uma das mais ativadas durante as sessões.

Ensaios clínicos publicados em periódicos como o SciELO e o JAMA Network Open demonstraram que a técnica é eficaz na redução de dores musculoesqueléticas crônicas, incluindo lombalgia, artrose, fibromialgia e dores articulares.

Um estudo conduzido por pesquisadores da USP e da Universidade do Sul de Santa Catarina, publicado no JAMA Network Open, mostrou que 58% dos pacientes com depressão tratados com acupuntura auricular específica tiveram melhora de ao menos 50% nos sintomas ao longo de três meses.

A técnica não se limita às dores físicas. Há indicações reconhecidas pela OMS para quadros de ansiedade, insônia, enxaqueca, síndrome do intestino irritável e até apoio no tratamento de dependências químicas. A lista da Organização Mundial da Saúde inclui mais de 40 condições nas quais a acupuntura é recomendada como tratamento principal ou complementar.

Para quem busca uma clínica de acupuntura de referência, o passo mais seguro é verificar se o profissional possui formação reconhecida e se a prática é integrada a um acompanhamento multidisciplinar, com avaliação prévia do histórico do paciente e acompanhamento por equipe de saúde completa.

O marco regulatório de 2026 e o que muda para pacientes e profissionais

Em janeiro de 2026, o presidente Lula sancionou a Lei nº 15.345, que regulamenta o exercício profissional da acupuntura em todo o território nacional. A norma encerrou um debate que se arrastava por mais de duas décadas no Congresso e trouxe regras claras sobre quem pode atuar na área.

Pela nova legislação, estão habilitados a exercer a acupuntura profissionais com graduação superior na área, profissionais de saúde com título de especialista reconhecido por seus respectivos conselhos, e aqueles que comprovem atuação contínua e ininterrupta por ao menos cinco anos até a data de publicação da lei.

A Presidência da República vetou a possibilidade de exercício por portadores de diploma de curso técnico, atendendo a pareceres dos Ministérios da Saúde e da Educação.

A regulamentação também abriu caminho para que outros profissionais de saúde utilizem técnicas isoladas da acupuntura em suas práticas, desde que realizem curso de extensão específico em instituição reconhecida.

A medida tende a ampliar a oferta de atendimentos no SUS, onde a acupuntura já faz parte da Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC) desde 2006.

Crescimento acelerado no SUS e o que isso significa para o paciente

Os números do Ministério da Saúde mostram que as Práticas Integrativas e Complementares (PICS) cresceram de forma expressiva nos últimos anos. Em 2024, foram realizados 7,1 milhões de procedimentos ligados a essas práticas no SUS, um aumento de 70% em relação a 2022.

Mais de 9 milhões de pessoas acessaram alguma modalidade de PICS naquele ano, incluindo acupuntura, auriculoterapia, aromaterapia e práticas corporais da medicina tradicional chinesa.

Segundo dados do Ministério da Saúde, foram registradas 1,1 milhão de sessões de acupuntura no SUS em 2024. Até outubro de 2025, esse número já havia sido superado. Mais de 80% dos municípios brasileiros já oferecem pelo menos uma modalidade de prática integrativa na rede pública.

O crescimento da oferta acompanha uma mudança no perfil dos pacientes. Cada vez mais pessoas que antes dependiam exclusivamente de medicamentos passaram a buscar abordagens complementares, especialmente quando o tratamento convencional não trazia resultados satisfatórios. A acupuntura, por não utilizar fármacos e apresentar efeitos colaterais mínimos, se tornou uma das opções mais procuradas.

Para os moradores de estados como o Acre, onde a rede de especialistas é mais enxuta, a ampliação da oferta pelo SUS representa uma possibilidade concreta de tratamento.

A abertura dos ambulatórios de dor em Rio Branco e Cruzeiro do Sul é um reflexo direto dessa política nacional de fortalecimento das práticas integrativas.

Quando procurar um acupunturista e o que avaliar antes de iniciar o tratamento

A acupuntura não substitui o tratamento médico convencional, mas funciona como complemento. O ideal é que o paciente procure a técnica quando o tratamento com medicamentos não está sendo suficiente, quando os efeitos colaterais de remédios comprometem a rotina ou quando há interesse em uma abordagem que leve em conta o organismo como um todo.

Antes de iniciar, o paciente deve verificar a formação do profissional. Com a Lei nº 15.345/2026 em vigor, é possível exigir comprovação de habilitação. Profissionais com graduação em acupuntura, especialização reconhecida pelo conselho de sua categoria ou experiência comprovada de ao menos cinco anos estão aptos a atuar.

A avaliação inicial é parte fundamental do processo. Um bom profissional realiza anamnese completa, analisa o histórico clínico, verifica exames anteriores e só então define os pontos de aplicação e a frequência das sessões. Cada paciente responde de forma diferente, e doenças crônicas tendem a exigir acompanhamento mais prolongado.

Para pacientes com dores musculoesqueléticas, artrose, problemas de coluna ou fibromialgia, a recomendação é buscar clínicas que integrem a acupuntura a um plano terapêutico mais amplo, com fisioterapia, fortalecimento muscular e orientação nutricional.

Esse modelo de atendimento multidisciplinar já é praticado em centros de referência e tem mostrado os melhores resultados a longo prazo.

O que o paciente pode esperar das sessões

As sessões de acupuntura duram entre 20 e 40 minutos, com frequência semanal na fase inicial do tratamento. A quantidade de agulhas varia conforme a condição tratada e pode ir de seis a quinze por sessão. A dor na inserção é mínima na maioria dos casos, descrita por pacientes como uma leve pressão ou formigamento.

Os primeiros efeitos costumam aparecer entre a segunda e a quarta sessão, com redução da intensidade da dor e melhora na qualidade do sono. Em quadros crônicos, o tratamento completo pode se estender por dois a três meses, com reavaliações periódicas. Alguns pacientes mantêm sessões de manutenção a cada 15 ou 30 dias, conforme orientação do profissional.

Os efeitos colaterais são raros e geralmente leves. Hematomas no local de inserção, sonolência leve após a sessão e, em casos isolados, tontura são os mais relatados. A técnica é considerada segura para todas as faixas etárias, incluindo crianças e idosos, desde que aplicada por profissional qualificado.

De acordo com os melhores ortopedistas de Goiânia, em um país onde a dor crônica afeta dezenas de milhões de pessoas e o uso de medicamentos de longo prazo impõe seus próprios riscos, a acupuntura se consolida como uma ferramenta com respaldo científico, regulamentação federal e oferta crescente no sistema público de saúde.

Para quem convive com dor e ainda não encontrou alívio nos tratamentos habituais, a consulta com um acupunturista pode ser o passo que faltava.

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