O Acre vive um cenário climático de extremos: ao mesmo tempo em que autoridades alertam para o risco de uma seca severa nos próximos meses, um novo aviso de chuvas intensas coloca todo o estado em atenção imediata nesta segunda-feira (20).
O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) emitiu um alerta de perigo para chuvas intensas em todo o Acre ao longo desta segunda-feira (20). A previsão indica volumes entre 30 e 60 mm por hora ou até 100 mm por dia, acompanhados de ventos que podem chegar a 100 km/h.
O aviso traz riscos concretos: queda de energia elétrica, alagamentos, descargas elétricas e até queda de árvores. A recomendação é evitar abrigo sob estruturas frágeis, não estacionar veículos próximos a placas ou torres e, se possível, desligar aparelhos elétri cos durante as tempestades.
O alerta imediato contrasta com um cenário que vem sendo desenhado para os próximos meses. Segundo projeções climáticas e órgãos de monitoramento, o estado pode enfrentar uma nova seca severa ainda em 2026, influenciada pelo fenômeno El Niño.
De acordo com o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), há mais de 80% de probabilidade de formação de um novo episódio do fenômeno na segunda metade do ano. Embora o pico seja esperado para o segundo semestre, especialistas afirmam que os efeitos já começam a ser sentidos agora, ainda em abril.
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Na prática, isso significa um comportamento climático irregular: chuvas intensas fora de época, seguidas por longos períodos de estiagem. Esse padrão já começou a aparecer. Mesmo com o avanço gradual do El Niño, episódios recentes de enxurradas e volumes elevados de chuva foram registrados, considerados atípicos para o período de transição climática.
De acordo com coordenador municipal da Defesa Civil, tenente-coronel Cláudio Falcão, esse tipo de oscilação tende a se intensificar. “O boletim fala do segundo semestre, mas é quando o fenômeno vai intensificar. O fato é que ainda no primeiro semestre nós vamos sentir esses efeitos. Já estamos preparados para senti-los agora na segunda quinzena de abril”, disse.
Ainda na última semana, Falcão enfatizou a grande enxurrada. “E ainda podem acontecer chuvas nessa situação agora na segunda quinzena. Contudo, dentro dos nossos gráficos, o El Niño já está atuante; digamos que esteja a 5%, mas já está atuante. Por isso, essas chuvas que aconteceram ontem e que podem acontecer ainda em abril são consideradas atípicas, pois não deveriam ocorrer em um volume tão intenso”, explica.
O Rio Acre, principal manancial da capital, é uma das maiores preocupações. Em anos recentes, o estado já enfrentou situações críticas, com níveis historicamente baixos e impactos diretos no fornecimento de água. A possibilidade de repetição, ou até agravamento, desse cenário coloca autoridades em estado de preparação.
Além do abastecimento, a estiagem severa costuma vir acompanhada de outros problemas, como o aumento de queimadas e piora na qualidade do ar. Em resposta, o governo federal já decretou situação de emergência ambiental em áreas do Acre, medida que permite ações mais rápidas no combate a incêndios florestais e na proteção de comunidades vulneráveis.
O que é o El Niño?
O “El Niño” é um fenômeno atmosférico-oceânico complexo, associado ao aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Tropical, especialmente em sua porção central e centro-leste, incluindo a região costeira do Equador e do Peru. Ele faz parte do ciclo El Niño-Oscilação Sul, que também inclui fases neutras e de resfriamento (La Niña), podendo reaparecer em intervalos de 2 a 7 anos.
Esse aquecimento altera a circulação atmosférica global e muda os padrões de chuva e de temperatura em várias partes do mundo. O episódio mais recente se desenvolveu ao longo de 2023 e perdeu força no primeiro semestre de 2024. No Brasil, esteve associado, em geral, à chuvas acima da média na Região Sul e a condições mais quentes e secas em partes das regiões Norte, Centro-Oeste e Nordeste.

