Como a ditadura militar criou um império do ensino privado

Por Sumaia Villela e Eliane Gonçalves - RadioagĂȘncia Nacional 22/04/2026 Ă s 18:05

Em 1976, no auge da ditadura militar brasileira, um prĂ©dio construĂ­do com verba pĂșblica para ser uma escola da rede municipal de ensino – a Escola PolitĂ©cnica de Foz do Iguaçu, no ParanĂĄ – foi entregue Ă  iniciativa privada dias antes da inauguração. O beneficiĂĄrio foi o ColĂ©gio Anglo-Americano, contratado pela Itaipu Binacional para educar os filhos dos funcionĂĄrios da hidrelĂ©trica. O episĂłdio marcou o nascimento de uma rede nacional de ensino particular sustentada, em grande parte, por recursos federais.

O edifício da escola Politécnica tinha sido construído para ajudar a reduzir o déficit escolar em Foz do Iguaçu, que, na época, segundo relato do governo estadual à imprensa local, tinha 3 mil pessoas em idade escolar fora das salas de aula. 

NotĂ­cias relacionadas:Ditadura como negĂłcio: podcast revela quem lucrou com o regime de 64.Executivo da NestlĂ© contratou torturador da ditadura militar.Neutralidade autoritĂĄria: Suíça foi destaque no apoio Ă  ditadura.O professor aposentado da Universidade Estadual do Oeste do ParanĂĄ (Unioeste) JosĂ© Kuiava era o inspetor de ensino do municĂ­pio na ocasiĂŁo e recorda o momento em quem recebeu a ordem de entregar as chaves da recĂ©m-construĂ­da escola para o dono do ColĂ©gio Anglo Americano, Ney Suassuna. “A ordem veio de Curitiba, via telefone, do diretor-geral da SEC [Secretaria de Educação] professor Ernesto Penauer, determinando que eu entregasse as chaves do prĂ©dio ao senhor Ney Suassuna”, lembra Kuiava. 

Segundo ele, a situação gerou constrangimento: “eu jĂĄ tinha dado na rĂĄdio, nas notĂ­cias dos jornais da inauguração do colĂ©gio, para que os alunos da regiĂŁo fossem atendidos lĂĄ. De repente tive que suspender tudo e dizer ‘olha, o colĂ©gio foi entregue nas mĂŁos do Anglo-Americano, Ă  disposição da Itaipu’”.

O contrato foi  assinado entre o Anglo-Americano, Itaipu e a Unicon, o consĂłrcio de empreiteiras responsĂĄveis pela construção da usina, em fevereiro de 1976. No acordo, as empreiteiras – remuneradas com recursos pĂșblicos de Itaipu – asseguravam o pagamento mĂ­nimo de 1.000 vagas. Mas no primeiro ano de funcionamento, o colĂ©gio tinha mais de 10 mil alunos matriculados. No auge das obras, chegou a ter mais de 14 mil estudantes. 

Esta reportagem faz parte do projeto Perdas e Danos, o podcast da RadioagĂȘncia Nacional que investiga a ditadura militar e que estĂĄ na segunda temporada.

Mais detalhes sobre a polĂ­tica da ditadura que beneficiou uma escola privada em detrimento da rede pĂșblica de ensino estĂŁo no episĂłdio 3 da 2ÂȘ Temporada: Pedagogia do PrivilĂ©gio.

ColĂ©gio Anglo-Americano, na zona sul do Rio de Janeiro – Foto: Arquivo Nacional/Divulgação

Galinha dos ovos de ouro

O contrato com o Anglo-Americano fixava os valores das mensalidades que variavam de CR$ 300 a CR$ 500 (cruzeiro, a moeda entĂŁo adotada pelo Brasil) a serem pagas por Itaipu, alĂ©m do reajuste anual das mensalidades. Como referĂȘncia, em 1975, a creche Casa da Criança, para crianças de baixa renda no Rio de Janeiro, cobrava uma mensalidade de CR$ 70. Diferente de outras escolas privadas, o Anglo-Americano nĂŁo corria o risco de inadimplĂȘncia. 

Denise Sbardelotto, professora da Unioeste, estudou o projeto pedagĂłgico de Itaipu e avaliou o contrato com o Anglo-Americano como desvantajoso para a administração pĂșblica.

“Itaipu e a Unicom constroem todos os prĂ©dios, toda a infraestrutura, desde carteiras, mobiliĂĄrios, de coisas mais simples Ă s mais complexas, como o material pedagĂłgico, e entrega para o Anglo-Americano administrar, por muitos e muitos anos. E lucrar. Era uma galinha dos ovos de ouro”, conclui Denise.   

Crescimento de 2.800%

AtĂ© entĂŁo, o ColĂ©gio Anglo-Americano era uma escola tradicional do Rio de Janeiro, com duas unidades na zona sul da capital fluminense. Depois de Itaipu, registrou um crescimento de 2.800%, considerado extraordinĂĄrio pelo prĂłprio dono da instituição, Ney Suassuna: “Eu fiquei pasmo de ver que era um mundo. O meu colĂ©gio no Rio tinha 500 alunos, o de lĂĄ tinha 14  mil”.

O Anglo-Americano foi comprado por Ney Suassuna cerca de um ano antes do contrato com Itaipu. Paraibano, o hoje suplente de senador e ex-ministro do governo Fernando Henrique Cardoso, fincou raízes no Rio de Janeiro ao trabalhar no Ministério do Planejamento, um dos mais poderosos do período ditatorial. Ele era assessor de ministros da pasta, entre eles Roberto Campos, figura central do regime autoritårio. 

Ação entre amigos

Segundo Ney Suassuna, o contrato foi firmado a partir de um encontro que ele solicitou com o então diretor-geral de Itaipu, general José Costa Cavalcanti. Os contatos políticos garantiram a reunião.

“Cheguei dizendo que era do MinistĂ©rio do Planejamento, que tinha trabalhado com o ministro. Eu cheguei com o meu currĂ­culo na frente”, conta.

AlĂ©m da confirmação do prĂłprio Suassuna, nĂŁo encontramos indĂ­cios de que houve um processo pĂșblico para a contratação da empresa. Denise Sbardelotto tambĂ©m nĂŁo achou nada que comprovasse um processo licitatĂłrio:

“Estive muitas vezes nos arquivos de Itaipu, busquei por todos os lugares, todas as fontes em Foz do Iguaçu, Cñmara Municipal, e eu realmente não encontrei nenhum documento que garanta que foi licitação. Nós temos realmente um caso de escolha política arbitrária de um grupo educacional”, disse Sbardelotto.

Ramo lucrativo 

O contrato abriu as portas de outras estatais para Ney Suassuna, como o contrato com a hidrelétrica de Tucuruí, no Parå, e com a Petrobras para atender famílias brasileiras no Iraque. O Anglo-Americano também ficou responsåvel por atender os filhos dos funcionårios que trabalharam na construção de Itaipu no lado paraguaio. Os contratos turbinaram a empresa.

“De repente, eu tinha quase 50 mil alunos. Começou a crescer e eu comecei a fazer faculdades. Fiz nada mais, nada menos, do que faculdades desde o Rio Grande do Sul atĂ© a ParaĂ­ba. De tudo medicina, economia, direito, tudo”, lembra Suassuna.

SĂł seis anos depois do fim das obras de Itaipu, em 1988, o Anglo-Americano passou a receber alunos de fora da usina. Em 1990, repassou a escola mais simples para o Poder Municipal. E trĂȘs anos depois começou a pagar o aluguel do prĂ©dio ocupado por quase 20 anos.

Chuta-barros

Reproduzindo uma lógica que permeou toda a obra de Itaipu, a estrutura educacional era diferente conforme a classe social. O Anglo-Americano era, na verdade, mais de um. Existiam duas unidades do colégio.

Existiam trĂȘs vilas habitacionais para abrigar os funcionĂĄrios de Itaipu e da Unicon, divididas conforme a posição dos trabalhadores na empresa. A vila A e B, onde viviam funcionĂĄrios com melhores salĂĄrios, eram atendidos por uma escola mais bem equipada. A unidade ficava em uma ĂĄrea arborizada da cidade e contava com biblioteca, laboratĂłrios de quĂ­mica e fĂ­sica, hortas, fanfarra, ĂĄrea de exposiçÔes e auditĂłrio.

Jå os filhos dos trabalhadores braçais moravam na Vila C e estudavam numa unidade feita de madeira pré-fabricada, 60 salas de aula, um ginåsio e duas quadras descobertas.

Valdir Sessi estudou em ambas as escolas, pois a unidade melhor eventualmente recebia alunos da vila operĂĄria, e lembra que as desigualdades – e a diferença de tratamento – eram evidentes na sala de aula. 

“A violĂȘncia simbĂłlica jĂĄ definia. A roupa, o cabelo, o tĂȘnis, jĂĄ denunciavam a classe social dentro do colĂ©gio, entĂŁo nĂŁo precisava ser um vidente para dizer quem era rico e quem era pobre. A professora nĂŁo tinha dificuldade na aula para dirigir a palavra dela, entendeu? Tinha colega que usava a botina que o pai dava para ele quando jĂĄ nĂŁo dava mais para usar no canteiro de obra”, disse. 

Em sua pesquisa, Denise Sbardelotto descobriu que havia um nome para os estudantes da escola mais simples, os chuta-barros. “Porque eles vinham com barro nas solas dos calçados”, explica. 

Diferente da Vila A, que foi asfaltada antes, a Vila C, onde moravam os trabalhadores braçais, não tinha asfalto e a lama marcava os estudantes. 

Denise conta que outra diferença mais profunda era o projeto pedagógico. Na ditadura, o ensino médio profissionalizante era obrigatório. No Anglo-Americano da Vila A, os cursos preparavam para o ensino superior. Jå na Vila C, nem existia o segundo grau. 

“Aos filhos dos trabalhadores mais subalternos, era destinada uma educação de primeiro grau e na sequĂȘncia eles eram encaminhados para cursos profissionalizantes, no Senai ou qualquer outro curso ofertado nos centros comunitĂĄrios. Alguns poucos que queriam fazer o segundo grau tinham que ir para Vila A. Aceitava-se [como alunos], mas eram os famosos chuta-barros”, conta Denise.

Déficit educacional

Para os moradores de Foz de Iguaçu, os problemas educacionais aumentaram. Quando Itaipu começou a ser construída, o município tinha apenas duas unidades de ensino de segundo grau, sendo uma de educação agrícola. 

A partir da construção da hidrelétrica, a situação só se agravou. Para se ter uma ideia, em 10 anos, a população de  Foz de Iguaçu quadruplicou. Eram 34 mil habitantes em 1970, antes da construção da hidrelétrica. Saltou para 136 mil em 1980.

Para a construção da usina foram desapropriados 1,8 mil kmÂČ, incluindo territĂłrios indĂ­genas, no Brasil e no Paraguai. Cerca de 40 mil pessoas foram retiradas de suas terras sĂł no lado brasileiro. Nesse processo, Denise calcula que 95 escolas na regiĂŁo tambĂ©m foram por ĂĄgua abaixo.

Com o inchaço populacional, Foz do Iguaçu precisou reduzir a carga horĂĄria de todos os estudantes da rede pĂșblica para implantar um terceiro turno de aula no que seria o intervalo de almoço.

“Foi difícil, porque tinha um turno que era das 11h às 14h. Na hora do almoço”, lembra Kuiava.

Itaipu indenizou parte das escolas inundadas e investiu em projetos especĂ­ficos para construir novas unidades, mas em nĂșmero inferior Ă s instituiçÔes fechadas. Denise Sbardelotto considera o investimento feito Ă  Ă©poca inexpressivo diante do montante direcionado ao Anglo-Americano.

“Algumas iniciativas pontuais de reforma de algumas escolas de periferia, rurais, algumas escolas em outros municĂ­pios nos arredores, mas eram reformas e ampliaçÔes muito Ă­nfimas, muito inexpressivas, comparadas ao montante de recursos canalizados ao Anglo-Americano por muitos anos”.

Outro lado

Procuramos a Itaipu Binacional e perguntamos se o contrato com o Anglo-Americano era um acordo razoĂĄvel, se seguiu boas prĂĄticas do setor pĂșblico e se existiam registros do motivo que levou Itaipu a optar pela educação privada ao invĂ©s de estruturar a rede pĂșblica de ensino.

A empresa nĂŁo respondeu diretamente as dĂșvidas, mas afirmou que a chegada de milhares de trabalhadores a Foz do Iguaçu exigiu a criação de infraestrutura inexistente, como moradias, hospital e o Anglo-Americano. E afirmou que havia qualidade de ensino.

“No Anglo-Americano, os filhos dos chamados barrageiros tinham acesso a uma educação integral, gratuita e inovadora para o perĂ­odo, que incluĂ­a, alĂ©m das disciplinas tradicionais, atividades artĂ­sticas, culturais e de campo, apresentaçÔes de dança e teatro e sessĂ”es de cinema. Relatos de ex-alunos e professores indicam que esse modelo educacional contribuiu significativamente para a formação dos estudantes”, disse Itaipu em nota.

A nota tambĂ©m cita açÔes atuais para afirmar que o “apoio Ă  educação permaneceu ao longo dos anos”.

“Como evidenciado pela atuação da Itaipu na mobilização para a instalação da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila), em 2010″.

A Ă­ntegra da nota estĂĄ na pĂĄgina do podcast.

Hoje, o Anglo-Americano de Foz do Iguaçu não pertence mais a Ney Suassuna. Entramos em contato com a instituição, mas não houve retorno. 

Questionado sobre a escolha de Itaipu em direcionar os recursos pĂșblicos de educação para sua empresa, Ney Suassuna disse que o poder pĂșblico nĂŁo teria condiçÔes de estruturar a rede pĂșblica de ensino. “A cidade de Itaipu tinha muito pouca gente e nĂŁo tinha os prĂ©dios, nĂŁo tinha nada, nĂŁo tinha outra forma a nĂŁo ser essa. NĂŁo tinha a menor chance. Nem no municipal e nem tampouco no estadual. Em nenhum lugar, nĂŁo tinha nada. NĂłs Ă©ramos os desbravadores”.


ConteĂșdo reproduzido originalmente em: Agencia Brasil por Sumaia Villela e Eliane Gonçalves – RadioagĂȘncia Nacional

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