Em 1976, no auge da ditadura militar brasileira, um prĂ©dio construĂdo com verba pĂșblica para ser uma escola da rede municipal de ensino – a Escola PolitĂ©cnica de Foz do Iguaçu, no ParanĂĄ – foi entregue Ă iniciativa privada dias antes da inauguração. O beneficiĂĄrio foi o ColĂ©gio Anglo-Americano, contratado pela Itaipu Binacional para educar os filhos dos funcionĂĄrios da hidrelĂ©trica. O episĂłdio marcou o nascimento de uma rede nacional de ensino particular sustentada, em grande parte, por recursos federais.
O edifĂcio da escola PolitĂ©cnica tinha sido construĂdo para ajudar a reduzir o dĂ©ficit escolar em Foz do Iguaçu, que, na Ă©poca, segundo relato do governo estadual Ă imprensa local, tinha 3 mil pessoas em idade escolar fora das salas de aula.Â
NotĂcias relacionadas:Ditadura como negĂłcio: podcast revela quem lucrou com o regime de 64.Executivo da NestlĂ© contratou torturador da ditadura militar.Neutralidade autoritĂĄria: SuĂça foi destaque no apoio Ă ditadura.O professor aposentado da Universidade Estadual do Oeste do ParanĂĄ (Unioeste) JosĂ© Kuiava era o inspetor de ensino do municĂpio na ocasiĂŁo e recorda o momento em quem recebeu a ordem de entregar as chaves da recĂ©m-construĂda escola para o dono do ColĂ©gio Anglo Americano, Ney Suassuna. âA ordem veio de Curitiba, via telefone, do diretor-geral da SEC [Secretaria de Educação] professor Ernesto Penauer, determinando que eu entregasse as chaves do prĂ©dio ao senhor Ney Suassunaâ, lembra Kuiava.Â
Segundo ele, a situação gerou constrangimento: âeu jĂĄ tinha dado na rĂĄdio, nas notĂcias dos jornais da inauguração do colĂ©gio, para que os alunos da regiĂŁo fossem atendidos lĂĄ. De repente tive que suspender tudo e dizer âolha, o colĂ©gio foi entregue nas mĂŁos do Anglo-Americano, Ă disposição da Itaipuââ.
O contrato foi assinado entre o Anglo-Americano, Itaipu e a Unicon, o consĂłrcio de empreiteiras responsĂĄveis pela construção da usina, em fevereiro de 1976. No acordo, as empreiteiras – remuneradas com recursos pĂșblicos de Itaipu – asseguravam o pagamento mĂnimo de 1.000 vagas. Mas no primeiro ano de funcionamento, o colĂ©gio tinha mais de 10 mil alunos matriculados. No auge das obras, chegou a ter mais de 14 mil estudantes.Â
Esta reportagem faz parte do projeto Perdas e Danos, o podcast da RadioagĂȘncia Nacional que investiga a ditadura militar e que estĂĄ na segunda temporada.
Mais detalhes sobre a polĂtica da ditadura que beneficiou uma escola privada em detrimento da rede pĂșblica de ensino estĂŁo no episĂłdio 3 da 2ÂȘ Temporada: Pedagogia do PrivilĂ©gio.
ColĂ©gio Anglo-Americano, na zona sul do Rio de Janeiro – Foto: Arquivo Nacional/Divulgação
Galinha dos ovos de ouro
O contrato com o Anglo-Americano fixava os valores das mensalidades que variavam de CR$ 300 a CR$ 500 (cruzeiro, a moeda entĂŁo adotada pelo Brasil) a serem pagas por Itaipu, alĂ©m do reajuste anual das mensalidades. Como referĂȘncia, em 1975, a creche Casa da Criança, para crianças de baixa renda no Rio de Janeiro, cobrava uma mensalidade de CR$ 70. Diferente de outras escolas privadas, o Anglo-Americano nĂŁo corria o risco de inadimplĂȘncia.Â
Denise Sbardelotto, professora da Unioeste, estudou o projeto pedagĂłgico de Itaipu e avaliou o contrato com o Anglo-Americano como desvantajoso para a administração pĂșblica.
âItaipu e a Unicom constroem todos os prĂ©dios, toda a infraestrutura, desde carteiras, mobiliĂĄrios, de coisas mais simples Ă s mais complexas, como o material pedagĂłgico, e entrega para o Anglo-Americano administrar, por muitos e muitos anos. E lucrar. Era uma galinha dos ovos de ouroâ, conclui Denise.  Â
Crescimento de 2.800%
AtĂ© entĂŁo, o ColĂ©gio Anglo-Americano era uma escola tradicional do Rio de Janeiro, com duas unidades na zona sul da capital fluminense. Depois de Itaipu, registrou um crescimento de 2.800%, considerado extraordinĂĄrio pelo prĂłprio dono da instituição, Ney Suassuna: âEu fiquei pasmo de ver que era um mundo. O meu colĂ©gio no Rio tinha 500 alunos, o de lĂĄ tinha 14 milâ.
O Anglo-Americano foi comprado por Ney Suassuna cerca de um ano antes do contrato com Itaipu. Paraibano, o hoje suplente de senador e ex-ministro do governo Fernando Henrique Cardoso, fincou raĂzes no Rio de Janeiro ao trabalhar no MinistĂ©rio do Planejamento, um dos mais poderosos do perĂodo ditatorial. Ele era assessor de ministros da pasta, entre eles Roberto Campos, figura central do regime autoritĂĄrio.Â
Ação entre amigos
Segundo Ney Suassuna, o contrato foi firmado a partir de um encontro que ele solicitou com o entĂŁo diretor-geral de Itaipu, general JosĂ© Costa Cavalcanti. Os contatos polĂticos garantiram a reuniĂŁo.
âCheguei dizendo que era do MinistĂ©rio do Planejamento, que tinha trabalhado com o ministro. Eu cheguei com o meu currĂculo na frenteâ, conta.
AlĂ©m da confirmação do prĂłprio Suassuna, nĂŁo encontramos indĂcios de que houve um processo pĂșblico para a contratação da empresa. Denise Sbardelotto tambĂ©m nĂŁo achou nada que comprovasse um processo licitatĂłrio:
âEstive muitas vezes nos arquivos de Itaipu, busquei por todos os lugares, todas as fontes em Foz do Iguaçu, CĂąmara Municipal, e eu realmente nĂŁo encontrei nenhum documento que garanta que foi licitação. NĂłs temos realmente um caso de escolha polĂtica arbitrĂĄria de um grupo educacionalâ, disse Sbardelotto.
Ramo lucrativoÂ
O contrato abriu as portas de outras estatais para Ney Suassuna, como o contrato com a hidrelĂ©trica de TucuruĂ, no ParĂĄ, e com a Petrobras para atender famĂlias brasileiras no Iraque. O Anglo-Americano tambĂ©m ficou responsĂĄvel por atender os filhos dos funcionĂĄrios que trabalharam na construção de Itaipu no lado paraguaio. Os contratos turbinaram a empresa.
âDe repente, eu tinha quase 50 mil alunos. Começou a crescer e eu comecei a fazer faculdades. Fiz nada mais, nada menos, do que faculdades desde o Rio Grande do Sul atĂ© a ParaĂba. De tudo medicina, economia, direito, tudoâ, lembra Suassuna.
SĂł seis anos depois do fim das obras de Itaipu, em 1988, o Anglo-Americano passou a receber alunos de fora da usina. Em 1990, repassou a escola mais simples para o Poder Municipal. E trĂȘs anos depois começou a pagar o aluguel do prĂ©dio ocupado por quase 20 anos.
Chuta-barros
Reproduzindo uma lógica que permeou toda a obra de Itaipu, a estrutura educacional era diferente conforme a classe social. O Anglo-Americano era, na verdade, mais de um. Existiam duas unidades do colégio.
Existiam trĂȘs vilas habitacionais para abrigar os funcionĂĄrios de Itaipu e da Unicon, divididas conforme a posição dos trabalhadores na empresa. A vila A e B, onde viviam funcionĂĄrios com melhores salĂĄrios, eram atendidos por uma escola mais bem equipada. A unidade ficava em uma ĂĄrea arborizada da cidade e contava com biblioteca, laboratĂłrios de quĂmica e fĂsica, hortas, fanfarra, ĂĄrea de exposiçÔes e auditĂłrio.
Jå os filhos dos trabalhadores braçais moravam na Vila C e estudavam numa unidade feita de madeira pré-fabricada, 60 salas de aula, um ginåsio e duas quadras descobertas.
Valdir Sessi estudou em ambas as escolas, pois a unidade melhor eventualmente recebia alunos da vila operĂĄria, e lembra que as desigualdades – e a diferença de tratamento – eram evidentes na sala de aula.Â
âA violĂȘncia simbĂłlica jĂĄ definia. A roupa, o cabelo, o tĂȘnis, jĂĄ denunciavam a classe social dentro do colĂ©gio, entĂŁo nĂŁo precisava ser um vidente para dizer quem era rico e quem era pobre. A professora nĂŁo tinha dificuldade na aula para dirigir a palavra dela, entendeu? Tinha colega que usava a botina que o pai dava para ele quando jĂĄ nĂŁo dava mais para usar no canteiro de obraâ, disse.Â
Em sua pesquisa, Denise Sbardelotto descobriu que havia um nome para os estudantes da escola mais simples, os chuta-barros. âPorque eles vinham com barro nas solas dos calçadosâ, explica.Â
Diferente da Vila A, que foi asfaltada antes, a Vila C, onde moravam os trabalhadores braçais, nĂŁo tinha asfalto e a lama marcava os estudantes.Â
Denise conta que outra diferença mais profunda era o projeto pedagĂłgico. Na ditadura, o ensino mĂ©dio profissionalizante era obrigatĂłrio. No Anglo-Americano da Vila A, os cursos preparavam para o ensino superior. JĂĄ na Vila C, nem existia o segundo grau.Â
âAos filhos dos trabalhadores mais subalternos, era destinada uma educação de primeiro grau e na sequĂȘncia eles eram encaminhados para cursos profissionalizantes, no Senai ou qualquer outro curso ofertado nos centros comunitĂĄrios. Alguns poucos que queriam fazer o segundo grau tinham que ir para Vila A. Aceitava-se [como alunos], mas eram os famosos chuta-barrosâ, conta Denise.
Déficit educacional
Para os moradores de Foz de Iguaçu, os problemas educacionais aumentaram. Quando Itaipu começou a ser construĂda, o municĂpio tinha apenas duas unidades de ensino de segundo grau, sendo uma de educação agrĂcola.Â
A partir da construção da hidrelétrica, a situação só se agravou. Para se ter uma ideia, em 10 anos, a população de Foz de Iguaçu quadruplicou. Eram 34 mil habitantes em 1970, antes da construção da hidrelétrica. Saltou para 136 mil em 1980.
Para a construção da usina foram desapropriados 1,8 mil kmÂČ, incluindo territĂłrios indĂgenas, no Brasil e no Paraguai. Cerca de 40 mil pessoas foram retiradas de suas terras sĂł no lado brasileiro. Nesse processo, Denise calcula que 95 escolas na regiĂŁo tambĂ©m foram por ĂĄgua abaixo.
Com o inchaço populacional, Foz do Iguaçu precisou reduzir a carga horĂĄria de todos os estudantes da rede pĂșblica para implantar um terceiro turno de aula no que seria o intervalo de almoço.
âFoi difĂcil, porque tinha um turno que era das 11h Ă s 14h. Na hora do almoçoâ, lembra Kuiava.
Itaipu indenizou parte das escolas inundadas e investiu em projetos especĂficos para construir novas unidades, mas em nĂșmero inferior Ă s instituiçÔes fechadas. Denise Sbardelotto considera o investimento feito Ă Ă©poca inexpressivo diante do montante direcionado ao Anglo-Americano.
âAlgumas iniciativas pontuais de reforma de algumas escolas de periferia, rurais, algumas escolas em outros municĂpios nos arredores, mas eram reformas e ampliaçÔes muito Ănfimas, muito inexpressivas, comparadas ao montante de recursos canalizados ao Anglo-Americano por muitos anosâ.
Outro lado
Procuramos a Itaipu Binacional e perguntamos se o contrato com o Anglo-Americano era um acordo razoĂĄvel, se seguiu boas prĂĄticas do setor pĂșblico e se existiam registros do motivo que levou Itaipu a optar pela educação privada ao invĂ©s de estruturar a rede pĂșblica de ensino.
A empresa nĂŁo respondeu diretamente as dĂșvidas, mas afirmou que a chegada de milhares de trabalhadores a Foz do Iguaçu exigiu a criação de infraestrutura inexistente, como moradias, hospital e o Anglo-Americano. E afirmou que havia qualidade de ensino.
âNo Anglo-Americano, os filhos dos chamados barrageiros tinham acesso a uma educação integral, gratuita e inovadora para o perĂodo, que incluĂa, alĂ©m das disciplinas tradicionais, atividades artĂsticas, culturais e de campo, apresentaçÔes de dança e teatro e sessĂ”es de cinema. Relatos de ex-alunos e professores indicam que esse modelo educacional contribuiu significativamente para a formação dos estudantesâ, disse Itaipu em nota.
A nota tambĂ©m cita açÔes atuais para afirmar que o âapoio Ă educação permaneceu ao longo dos anosâ.
âComo evidenciado pela atuação da Itaipu na mobilização para a instalação da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila), em 2010″.
A Ăntegra da nota estĂĄ na pĂĄgina do podcast.
Hoje, o Anglo-Americano de Foz do Iguaçu nĂŁo pertence mais a Ney Suassuna. Entramos em contato com a instituição, mas nĂŁo houve retorno.Â
Questionado sobre a escolha de Itaipu em direcionar os recursos pĂșblicos de educação para sua empresa, Ney Suassuna disse que o poder pĂșblico nĂŁo teria condiçÔes de estruturar a rede pĂșblica de ensino. âA cidade de Itaipu tinha muito pouca gente e nĂŁo tinha os prĂ©dios, nĂŁo tinha nada, nĂŁo tinha outra forma a nĂŁo ser essa. NĂŁo tinha a menor chance. Nem no municipal e nem tampouco no estadual. Em nenhum lugar, nĂŁo tinha nada. NĂłs Ă©ramos os desbravadoresâ.
ConteĂșdo reproduzido originalmente em: Agencia Brasil por Sumaia Villela e Eliane Gonçalves – RadioagĂȘncia Nacional

