Marcha das Mulheres: resistĂȘncia, polĂ­tica e humor

Por FILIPA LOWNDES VICENTE (Uol) 29/01/2017 Ă s 22:35

No sĂĄbado 21 de Janeiro de 2017, foram 175 mil as pessoas que se juntaram no mais antigo jardim pĂșblico dos EUA, no centro de Boston. Foi mais uma das 673 “marchas-irmĂŁs”, que se organizaram por todo o mundo para acompanhar a principal, que teve lugar na capital norte-americana, em Washington D.C., um dia depois de Donald J. Trump se ter tornado Presidente.

O movimento Women’s March (Marcha da Mulheres) nasceu de baixo para cima, pouco depois da eleição de 8 de Novembro de 2016 que surpreendeu grande parte da AmĂ©rica com a vitĂłria de Trump. Tal como as raĂ­zes das ervas que nascem da terra, Ă© um movimento de base, politizado mas nĂŁo partidĂĄrio, que partiu da vontade de acção de cidadĂŁos comuns – neste caso, de mulheres comuns – construĂ­rem uma democracia participativa. Um pequeno grupo de desconhecidas lançou o desafio atravĂ©s das redes sociais. A resposta foi avassaladora e a prova disso foi aquilo que aconteceu em Washington, nos Estados Unidos e no mundo inteiro no dia 21 de Janeiro e levou milhĂ”es de pessoas a saĂ­rem de casa para, unidas, se manifestarem. JĂĄ Ă© considerada a maior manifestação que alguma vez aconteceu no paĂ­s. Nenhuma rede social teria substituĂ­do a força da presença humana. Mas nĂŁo chega. E a partir daqui tudo regressarĂĄ Ă s redes sociais onde nasceu – a marcha foi apenas o primeiro passo de muitas acçÔes e iniciativas no sentido de dar continuidade ao espĂ­rito, Ă s ideias e polĂ­ticas da Women’s March.

Por tudo aquilo que a América de Trump pÎs em risco, marchar marchar
O que Ă© que defendem as pessoas de todas as idades e origens Ă©tnicas – mulheres, sobretudo, mas tambĂ©m, homens, crianças – que no sĂĄbado se juntaram no centro de Boston e em tantos outros lugares? As Ășnicas palavras que poderiam reunir a multiplicidade de causas sĂŁo os direitos humanos, a justiça social, a igualdade, a tolerĂąncia, a paz.Todos valores que se sentiram postos em causa pelas palavras e polĂ­ticas anunciadas por Donald Trump durante a intensa campanha eleitoral e que se viram, realmente, ameaçados pela sua eleição. Aquilo que se tornou visĂ­vel nas milhares de frases escritas Ă  mĂŁo em cartazes, folhas de papel, cartĂ”es reciclados, erguidos por entre a multidĂŁo de cabeças (cor-de-rosa) foi precisamente essa diversidade de ideias e causas. Os cartazes diziam coisas diferentes, mas todos dialogavam uns com os outros. “Women’s rights are human rights”, defender os direitos das mulheres Ă© defender os direitos humanos e vice-versa. Os benefĂ­cios para uns sĂŁo os benefĂ­cios de todos.

No dia 21 de Janeiro, defenderam-se os mais frĂĄgeis e marginalizados, os “ilegais”, os imigrantes ameaçados pela deportação devido Ă s novas polĂ­ticas, as mulheres vĂ­timas de violĂȘncia, o planeamento familiar, os direitos LGBT, as pessoas com deficiĂȘncia, tal como os direitos reprodutivos ou a desigualdade salarial entre homens e mulheres, ainda tĂŁo tolerada nos Estados Unidos como noutros lugares do mundo democrĂĄtico. “Trabalho igual/salĂĄrio igual.” Contra o racismo, a desigualdade, a discriminação e a intolerĂąncia. “Em vez de muros construam-se pontes”, lia-se em vĂĄrios cartazes. SĂŁo mĂșltiplos os cruzamentos entre as diferentes esferas, da justiça Ă  igualdade ou Ă  ecologia. E mesmo que algumas pessoas se sintam mais identificadas com umas causas do que com outras, cada vez existe mais consciĂȘncia de como todas se cruzam.

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