Paraense espera mulher morrer ‘hospedado’ no Terminal do Aeroporto de Brasília

Por JAIRO CARIOCA, DA CONTILNET 19/03/2017 Atualizado: hĂĄ 9 anos

Nos Ășltimos 97 dias, William de Souza, sem sair do aeroporto internacional Presidente Juscelino Kubitschek, em BrasĂ­lia, viu vĂĄrios polĂ­ticos citados na Operação Lava Jato passarem pela sua frente, rodeados de muitos jornalistas e holofotes. Mas nenhum deles imaginou que esse rapaz encorpado, com aparĂȘncia de adolescente, vestindo orgulhosamente a camisa do seu clube, o ParĂĄ, Ă© ‘hospede’ do aeroporto.

Paraense espera mulher morrer ‘hospedado’ no Terminal do Aeroporto de Brasília

 

Embora nĂŁo tenha nenhuma intimidade com aviĂŁo e nenhuma atividade profissional ligada ao sistema aeroportuĂĄrio, ele conhece cada palmo do local. É aqui – quando alguĂ©m ajuda – que ele faz suas trĂȘs refeiçÔes diĂĄrias, lava roupa e dorme. De onde passa a maior parte do dia, em frente ao portĂŁo principal de embarque domĂ©stico, William cansou de ver sorrisos, abraços e despedidas. As cenas repetidas, parecem ter mexido com a cabeça do jovem rapaz, suas palavras sĂŁo vazias, curtas, incompletas.

Só mesmo quem se aproxima do jovem é capaz de ouvir o seu lamento. Fora do aeroporto, William sabe que tem uma esposa em fase terminal de um cùncer que ele visita quando ganha algum trocado para ir até o hospital de Înibus. O Instituto do Cùncer de Brasília fica a 25 km do aeroporto.

“Já passei oito dias sem ir ver minha esposa”

De forma confusa, ele diz que os recursos que recebia da Secretaria de SaĂșde do Estado do ParĂĄ para Tratamento Fora de DomicĂ­lio (TFD) foram suspensos. O tratamento da esposa começou em outubro do ano passado. “Ela jĂĄ passou por Barretos, em SĂŁo Paulo, e agora estĂĄ aqui”, completou.

Quase todos os funcionĂĄrios do aeroporto se dedicaram Ă  proteção do paraense. Alguns proprietĂĄrios de lanches lhe doam refeiçÔes diĂĄrias. A maior parte do tempo William fica sentado e bate-papo com passageiros que estĂŁo em trĂąnsito, sem cobrar nada pelo serviço, ele sempre de bom humor, empresta uma extensĂŁo com trĂȘs tomadas para carregamento de celular. Talvez por isso, os acentos prĂłximos do paraense sejam bem disputados. Mas ajuda mesmo, nĂŁo tem com abundĂąncia.

Apenas quando os Ășltimos voos internacionais decolam, jĂĄ no começo da madrugada, o ‘hospede’ parece ficar sozinho e vai dormir. A cama Ă© sempre a mesma, um espaço de cinco assentos em frente ao embarque de voos domĂ©sticos. William, desiludido com a falta de ajuda, nĂŁo aceitou ser fotografado de frente, disse que vĂĄrios ĂłrgĂŁos de comunicação jĂĄ fizeram matĂ©ria sobre ele, mas sem efeito nenhum. “A cada dia Ă© menor as doaçÔes e ajudas, nĂŁo sei mais o que fazer”, narrou.

Ele espera uma melhora da esposa, Maria de Jesus, que tem 36 anos e pretende passar os Ășltimos dias de vida ao lado de trĂȘs filhos que ficaram com parentes prĂłximos no estado do ParĂĄ. “Tudo que eu quero Ă© voltar para o ParĂĄ com minha esposa, para que ela possa ficar os Ășltimos dias ao lado de nossos trĂȘs filhos”, declarou com lĂĄgrimas nos olhos.

 

 

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