A crise sanitĆ”ria no paĆs tem feito com que fabricantes internacionais de suprimentos para vacinas enfrentem dificuldades para enviar remessas de reagentes e insumos para o Brasil. O cenĆ”rio se dĆ” em meio a reduƧƵes de previsƵes de entregas de imunizantes em abril.
Ao UOL, MaurĆcio Zuma, diretor da Bio-Manguinhos āunidade da Fiocruz que produz a vacina Oxford/AstraZenecaā disse que jĆ” āacendeu o alerta amareloā para possĆveis atrasos nas entregas ao PNI (Plano Nacional de Imunização) após negativas de empresas estrangeiras em realizar voos para o paĆs.
Segundo ele, os recordes de mortes e novas cepas da doença são os motivos da resistência de companhias internacionais em enviar voos. Com isso, a produção de imunizantes da Fiocruz contra a covid-19 corre risco, jÔ que os materiais são considerados fundamentais para a linha de produção.
Insumos descartĆ”veis e reagentes quĆmicos estĆ£o entre os itens de difĆcil compra no momento. Zuma diz que a alta demanda por esses suprimentos no mercado internacional Ć© outro entrave enfrentado hoje para a aquisição.
Os setores comercial e de logĆstica da Fiocruz tentam agora viabilizar
Questionado, o diretor da Bio-Manguinhos nĆ£o soube informar quais foram as empresas que se recusaram a pousar no Brasil e os seus paĆses de origem. O UOL encaminhou entĆ£o a demanda Ć assessoria de imprensa da Fiocruz que, por meio de nota, admitiu dificuldades com o transporte internacional e citou outros motivos para o cancelamento de voos.
āAs companhias aĆ©reas estĆ£o com a malha reduzida e se deparando com constantes problemas com falta de tripulação. Tal cenĆ”rio gera o aumento de prazos para recebimento de cargas, com atrasos e reprogramação de voos. ProgramaƧƵes de embarque sĆ£o postergadas, voos sĆ£o cancelados ou passamos pela situação de falta de espaƧo para nossas cargas em aeronavesā, diz o comunicado.
Falha em mÔquina paralisou produção por uma semana
Em fevereiro, um problema em uma mĆ”quina recravadora āque lacra os frascosā da linha de processamento da vacina fez com que a produção fosse interrompida por uma semana e a Fiocruz amargasse atrasos.
Temos produzido imunizantes, apesar dos cancelamentos de voos com suprimentos. AlĆ©m da enorme demanda internacional por esses produtos, existem empresas que atualmente nĆ£o querem viajar para o Brasil. Isso nos faz acender o āalerta amareloā para possĆveis faltas de materiais. MaurĆcio Zuma, diretor da Bio-Manguinhos da Fiocruz.
āHoje, nos esforƧamos para trazer volumes maiores de cargas e evitar a escassez desses produtos. Mas, se tivermos cancelamentos desse tipo Ć frente, quando a produção [de vacinas] for maior, teremos problemasā, completa.
Questionado se a crise sanitĆ”ria no Brasil pode afetar a vacinação, Zuma respondeu que essa āpode ser uma consequĆŖncia do agravamento de toda a criseā.
A produção de vacinas da Fiocruz depende de mais de 500 itens, entre suprimentos quĆmicos e utensĆlios laboratoriais āpara alguns desses insumos, como frascos e embalagens, a Fundação Oswaldo Cruz tem autossuficiĆŖncia. Para outros, depende da importação, pois nĆ£o hĆ” produção nacional para suprir as exigĆŖncias tĆ©cnicas da vacina.
Previsão de entregas jÔ enfrentou reduções
Em janeiro, projeƧƵes da Fiocruz previam a entrega de 15 milhƵes de doses da vacina em marƧo e mais 28 milhƵes em abril.
Nos próximos dias, a instituição promete entregar as últimas doses fabricadas em março, que totalizarão 4,2 milhões de vacinas ao PNI. Para abril, a expectativa também é mais modesta do que a feita no começo do ano: no total, devem ser disponibilizados 18,8 milhões de imunizantes.
Zuma nega que os números sejam menores por causa da quebra do maquinÔrio em fevereiro. De acordo com ele, esse foi mais um dos problemas enfrentados desde o começo da produção.
āO cronograma que previa 15 milhƵes de vacinas em marƧo era uma expectativa em cima do que havia sido conversado com a AstraZeneca Ć quela altura, nĆ£o havia informação tĆ©cnica. Em fevereiro, tivemos problema que nos deixou alguns dias sem produção e precisamos voltar Ć produção em um ritmo mais lento do que o anterior. TambĆ©m tivemos problemas com o recebimento dos IFAs [Ingredientes FarmacĆŖuticos Ativos] da Chinaā, afirma.
Atualmente, a Fiocruz trabalha com duas linhas de produção e fabricação diÔria de 900 mil vacinas. Uma dessas linhas trabalha em dois turnos, enquanto a outra em apenas um. A intenção do instituto é fazer com que a segunda linha também opere em sua plenitude, o que permitiria a produção de 1,2 milhão de vacinas por dia.
āAtĆ© maio, pretendemos trabalhar dessa maneira, mas ainda precisamos preencher alguns requisitos tĆ©cnicosā, justifica. O pesquisador explica que hĆ” diferenƧa entre o volume de imunizantes produzidos e distribuĆdos ao PNI.
āCada dose fabricada nos laboratórios leva atĆ© 21 dias para passar por todas as anĆ”lises de qualidade. Portanto, o volume de doses fabricada em uma semana nĆ£o reflete, imediatamente, o nĆŗmero de vacinas repassadas ao PNIā, conclui.
