
Marina Silva/Foto: Reprodução
Por Giovana Girardi, Anna Beatriz Anjos
Para alcançar a meta de zerar o desmatamento atĂ© 2030, o governo federal vai começar a se valer de âaçÔes afirmativasâ. Ă assim que a ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, define um conjunto de açÔes lançado nesta terça-feira (5) para marcar o Dia da AmazĂŽnia.
Em entrevista exclusiva Ă AgĂȘncia PĂșblica, Marina explicou que o foco Ă© dar um passo alĂ©m das açÔes do governo federal de fiscalização e controle. Elas continuarĂŁo sendo realizadas, mas a proposta agora Ă© incentivar 69 municĂpios considerados prioritĂĄrios para o combate ao desmatamento a tambĂ©m se comprometerem com a medida. Eles estĂŁo no chamado arco do desmatamento â regiĂŁo de fronteira da AmazĂŽnia onde o desmatamento mais avança.
Ontem, em cerimĂŽnia no PalĂĄcio do Planalto com a presença do presidente Luiz InĂĄcio Lula da Silva (PT) e outros seis ministros, foi assinado o decreto que cria o programa âUniĂŁo com MunicĂpios pela Redução do Desmatamento e IncĂȘndios Florestais na AmazĂŽniaâ. O objetivo da ação Ă© apoiar de modo tĂ©cnico e financeiro esses 69 municĂpios.
O programa prevĂȘ investimentos de atĂ© R$ 600 milhĂ”es com recursos do Fundo AmazĂŽnia nos municĂpios que se comprometerem com o programa. O valor que cada um vai receber serĂĄ proporcional ao desempenho obtido na redução de desmatamento e incĂȘndios.
âOs municĂpios poderĂŁo ter acesso a esses recursos para investir, por exemplo, em bioeconomia. O decreto prevĂȘ uma agenda afirmativa na questĂŁo de regularização ambiental e fundiĂĄria, dentro do regramento de quem tem esse direito. Seria uma pauta afirmativa para os prefeitos que fizerem o pacto contra o desmatamento poderem trabalhar, mobilizando recursos para essa agendaâ, afirma Marina.
As medidas, explica, vĂȘm no sentido de fazer com que a queda no desmatamento da AmazĂŽnia observada nos primeiros oito meses de governo (de 48% na comparação com o mesmo perĂodo do ano passado) seja sustentada no longo prazo. De modo que a a floresta nĂŁo atinja o temido ponto de nĂŁo retorno â conceito que estima que se o desmatamento do bioma atingir um patamar entre 20% e 25%, a floresta nĂŁo serĂĄ mais capaz de se recuperar, perdendo irreversivelmente suas principais caracterĂsticas ecolĂłgicas.
Este foi o principal compromisso assumido durante a CĂșpula da AmazĂŽnia. Contudo, Marina sabe que, para alcançå-lo, nĂŁo basta apenas conter o desmatamento. Ă preciso conter tambĂ©m o aquecimento global e, para isso, atacar sua causa central: a queima de combustĂveis fĂłsseis.
Este é um debate que se tornou premente no Brasil diante dos planos da Petrobras de abrir uma nova fonte de exploração de petróleo na bacia sedimentar da Foz do Amazonas, no litoral do Amapå e Parå. O projeto é defendido por alguns setores do governo, em especial o Ministério de Minas e Energia.
Marina admite que âexiste uma contradiçãoâ no governo em relação ao tema. âPrecisamos ter a honestidade de dizer que existe uma contradição. Mas Ă© uma contradição que nĂŁo Ă© sĂł do Brasil, Ă© do mundoâ, comenta.
O assunto virou fonte de especulaçÔes constantes sobre a permanĂȘncia de Marina no governo. Questionada sobre essa situação, ela buscou apaziguar os Ăąnimos. âEu fico tranquila, estou fazendo o meu trabalho. O desmatamento estĂĄ caindoâ, disse.
Ă PĂșblica, Marina detalha tambĂ©m as estratĂ©gias que o governo estĂĄ desenvolvendo para conter o desmatamento no Cerrado (que, ao contrĂĄrio da AmazĂŽnia, cresceu neste perĂodo de oito meses), e os planos para criar uma polĂtica nacional de enfrentamento Ă s consequĂȘncias dos eventos extremos provocados pelas mudanças climĂĄticas.
Confira a seguir a entrevista.
O Dia da AmazĂŽnia foi comemorado na Ășltima terça-feira (5) com dados promissores de queda consistente do desmatamento nos primeiros oito meses de governo. Quais sĂŁo os prĂłximos passos? Como fazer para que essa queda se sustente ao longo do tempo?
Em um paĂs como o Brasil, a forma mais fĂĄcil â porĂ©m tambĂ©m difĂcil â de reduzir emissĂ”es de CO2 [gĂĄs carbĂŽnico] Ă© com a queda do desmatamento, por ser o nosso maior vetor de emissĂ”es. Por outro lado, o desmatamento, para cair de forma estruturante, tem que ir alĂ©m das açÔes de comando e controle. E, atĂ© aqui, o resultado que temos Ă© fruto dessas açÔes.
Mas hå uma agenda estruturante que jå estå sendo implementada. O novo PPCDAm [Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na AmazÎnia Legal] se då em cima dos eixos de combate às pråticas legais, ordenamento territorial e fundiårio e desenvolvimento sustentåvel. Agora, introduzimos um quarto eixo: os marcos regulatórios para criar os incentivos a essa transformação.
O Plano Safra [de incentivo Ă agricultura], por exemplo, jĂĄ foi lançado com a pegada de usar os recursos para fazer a transição para a agricultura de baixo carbono. O que anunciamos ontem dialoga com isso. Por exemplo, a criação da CĂąmara TĂ©cnica de Destinação de terras pĂșblicas nĂŁo destinadas, que envolve o MMA e o MDA [MinistĂ©rio do Desenvolvimento AgrĂĄrio e Agricultura Familiar]. A ideia Ă© destinar essas terras para a criação de unidades de conservação e terras indĂgenas. E nĂŁo mais para a conversĂŁo de floresta em outras atividades.
Uma das medidas anunciadas ontem foi a publicação de um decreto que cria o programa âUniĂŁo com municĂpiosâ, listando as cidades prioritĂĄrias para o combate ao desmatamento. Como vai funcionar isso? Se eles reduzirem o desmatamento, vĂŁo receber benefĂcios?
Temos 69 municĂpios que estĂŁo ranqueando o desmatamento, principalmente nos trĂȘs estados que lideram, Mato Grosso, ParĂĄ e Amazonas. Esses municĂpios podem ser beneficiados com açÔes afirmativas no Ăąmbito de um pacto contra o desmatamento.
A ideia Ă© ter medidas afirmativas para ajudar que [o desmatamento] caia. Por exemplo, propriedades que conseguirem manter sua reserva legal, sua ĂĄrea de preservação permanente ou entrem no Programa de Regularização Ambiental podem participar do programa de regularização fundiĂĄria. De imediato, elas jĂĄ serĂŁo identificadas como possĂveis beneficiĂĄrias da redução de 1% dos juros no Plano Safra. TambĂ©m poderĂŁo ter acesso a recursos para atividades ligadas Ă bioeconomia, a projetos de desenvolvimento sustentĂĄvel do Fundo AmazĂŽnia.
Pensamos inicialmente em algo em torno de R$ 600 milhĂ”es para começar, mas identificando outras fontes, inclusive os R$ 10 bilhĂ”es que o Fundo Clima pretende captar. Os municĂpios poderĂŁo ter acesso a esses recursos para investir, por exemplo, em bioeconomia. O decreto prevĂȘ uma agenda afirmativa na questĂŁo de regularização ambiental e fundiĂĄria, dentro do regramento de quem tem esse direito; a anĂĄlise de requerimento de desembargo junto ao Ibama e ao ICMBio, para os proprietĂĄrios que querem se regularizar e voltar a acessar crĂ©dito; e tambĂ©m fomento Ă recuperação de vegetação nativa e outros incentivos previstos na legislação ambiental federal. Seria uma pauta afirmativa para os prefeitos que fizerem o pacto contra o desmatamento poderem trabalhar, mobilizando recursos para essa agenda.
Como os investimentos em infraestrutura, com o lançamento da nova etapa do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), se relacionam com esses esforços de conter o desmatamento? Rodovias, por exemplo, são um conhecido vetor de desmatamento.
Os projetos mais polĂȘmicos e impactantes foram colocados para estudos: [a pavimentação da] BR-319, a FerrogrĂŁo, [o licenciamento para perfuração de poços] na Margem Equatorial e [a usina nuclear] Angra 3. O interessante dessa postura do governo do presidente Lula Ă© que ela rompe com o ciclo negacionista e com o modelo de concessĂŁo de licenças polĂticas que [o ex-presidente Jair] Bolsonaro vinha adotando: os tĂ©cnicos diziam uma coisa e o presidente do Ibama e o prĂłprio ministro do Meio Ambiente faziam exatamente outra.
Analisar cientificamente as questĂ”es Ă© o que mandam a boa polĂtica e a boa gestĂŁo em tempos de grandes transformaçÔes ambientais de forma acelerada, como Ă© o caso da mudança do clima e da [crise da] biodiversidade. Ă necessĂĄrio encaminhar para estudos e ao mesmo tempo continuar fazendo o debate de forma tĂ©cnica e cientifica, internamente no governo e com a sociedade.
O ministro [da Fazenda] Fernando Haddad jĂĄ estĂĄ em fase de conclusĂŁo do plano de transformação ecolĂłgica. Ele decidiu fazer uma captação de recursos na ordem de R$10 bilhĂ”es [que serĂŁo obtidos via Fundo Clima]. No Fundo AmazĂŽnia, quando se soma o que temos, que sĂŁo R$3 bilhĂ”es, Ă s entradas acordadas com os Estados Unidos, Reino Unido e vĂĄrios paĂses, dĂĄ algo em torno de R$6 bilhĂ”es.
EstĂĄ em discussĂŁo no Senado um projeto de lei [2159/21] que flexibiliza muito o licenciamento ambiental no paĂs. Se aprovado, ele nĂŁo pode pĂŽr a perder o esforço para que essas obras mais polĂȘmicas, como as que a senhora citou, sejam cuidadosamente avaliadas?
No Senado, tem havido abertura para o diĂĄlogo por parte dos relatores do projeto, a ex-ministra Tereza Cristina [PP/MS, relatora na ComissĂŁo de Agricultura e Reforma AgrĂĄria] e o senador ConfĂșcio Moura [MDB-RO, relator na ComissĂŁo de Meio Ambiente]. A nossa expectativa Ă© de que possamos corrigir questĂ”es muito graves do texto aprovado na CĂąmara dos Deputados, que, sim, enfraquecem completamente a polĂtica de licenciamento, tanto para mitigar impactos [das obras], quanto para evitĂĄ-los em relação a empreendimentos sem viabilidade ambiental, econĂŽmica e social. HĂĄ uma discussĂŁo interna no governo para contribuir com o debate com os relatores.
O projeto aprovado pela CĂąmara dos Deputados Ă© altamente prejudicial porque estabelece que deve ser ouvido o ĂłrgĂŁo federal responsĂĄvel apenas em caso de ĂĄreas quilombolas jĂĄ tituladas e de terras indĂgenas homologadas. No caso das unidades de conservação, tambĂ©m sĂł quando hĂĄ incidĂȘncia direta [do empreendimento] em relação Ă ĂĄrea de entorno dos parques. AĂ praticamente se inviabiliza a interface com esses ĂłrgĂŁos nas dinĂąmicas do licenciamento.
Outro aspecto tem a ver com as licenças de operação corretiva [modalidade que permite a regularização dos empreendimentos implantados sem o devido licenciamento ambiental]. Isso também precisa ser reparado.
Na CĂșpula da AmazĂŽnia, os paĂses estabeleceram o objetivo de evitar que a AmazĂŽnia atinja o chamado ponto de nĂŁo retorno, mas para conseguir isso, alĂ©m de frear o desmatamento, Ă© preciso nĂŁo deixar o planeta aquecer mais. A eventual concessĂŁo de licença para exploração da bacia da Foz dos Amazonas, na chamada Margem Equatorial, nĂŁo pode minar os esforços para a redução do desmatamento?
Precisamos ter a honestidade de dizer que existe uma contradição. E uma contradição que nĂŁo Ă© sĂł do Brasil, Ă© do mundo. Ă do modelo de desenvolvimento que nos trouxe atĂ© aqui. O presidente Lula disse no PiauĂ [no fim de agosto] que vamos trabalhar para ter uma matriz energĂ©tica 100% limpa. Mas nem todos os paĂses do mundo conseguem fazer isso que nĂłs podemos fazer. E, infelizmente, ainda nĂŁo dispomos dos meios para prescindir da fonte de geração de energia que nos tirou de uma população de um bilhĂŁo de pessoas durante a Revolução Industrial e nos trouxe a oito bilhĂ”es de pessoas.
Estamos falando do que move e sustenta oito bilhÔes de pessoas. Mas quanto mais nos atentarmos ao fator tempo, mais vamos ter condição de dar resposta [à crise climåtica]. Por isso, é muito preciosa a atitude do governo de encaminhar para estudos a Margem Equatorial e todos os projetos altamente impactantes. Aà se pode, nesse espaço de tempo em que os estudos estão acontecendo, vislumbrar alternativas.
Essa contradição Ă© num Ăąmbito maior. AlguĂ©m me perguntou o que acho do Equador, cuja população decidiu, por meio de plebiscito, que nĂŁo vai mais explorar petrĂłleo no Parque Nacional da YasunĂ, na AmazĂŽnia. Que bom que eles estĂŁo conseguindo fazer isso agora, porque no Brasil, isso [exploração de petrĂłleo] jĂĄ nĂŁo Ă© permitido desde que foi criado o Sistema Nacional de Unidades de Conservação. No Brasil, jĂĄ nĂŁo Ă© permitido fazer isso dentro das unidades de conservação, nem das terras indĂgenas.
Toda vez que sai alguma novidade em relação ao processo de licenciamento da Foz do Amazonas, como ocorreu recentemente em relação ao parecer emitido pela Advocacia-Geral da UniĂŁo (AGU), começam os rumores de que existe um processo de fritura da senhora por outros atores do governo. O que vĂȘ de diferente em relação Ă sua primeira experiĂȘncia no ministĂ©rio?
Tem uma diferença muito grande. A gente recebeu o governo [em 2003] de um democrata, do Fernando Henrique. Demos continuidade a um processo democrĂĄtico. E eu, entĂŁo com 45 anos, era de um partido [o PT] que ajudei a fundar quando tinha 18 anos. Desta vez, recebemos um governo que veio de uma experiĂȘncia terrĂvel em todos os sentidos, contrĂĄrio a tudo que Ă© civilizado â inclusive a prĂłpria democracia. Com tudo desmantelado. E para ganhar [nas eleiçÔes] deste governo desmantelador da ordem, tivemos que aprender rapidamente que era preciso uma frente ampla.
Foi essa frente ampla que, por uma margem pequena, ganhou o governo. à essa frente ampla que, por uma margem pequena, consegue aprovar o que é essencial e estratégico no Congresso Nacional. E é essa frente ampla que eu espero que consiga aumentar sua margem para que, no futuro, a gente não tenha que passar o susto que passamos em 2022.
Aprender a conviver com o diferente e ter essa relação de alteridade polĂtica â de se colocar no lugar do outro â faz diferença para lidar com tudo isso. Pode atĂ© ser que a gente nĂŁo tenha as mesmas concordĂąncias sobre os temas aos quais eu estou, digamos, visceralmente ligada, mas sei a importĂąncia dessa composição para o conjunto da obra do governo. Assim como esses colegas tambĂ©m sabem a importĂąncia da contribuição que determinados temas aportam para o conjunto do governo. Ainda que, no particular, isso crie fricçÔes, contradiçÔes.
Mas uma coisa interessante Ă© que a fila das contradiçÔes anda, e nem tudo Ă© contradição. As pessoas falam: âteve o problema com a Margem Equatorialâ. Parece que eu e o Alexandre [Silveira, ministro de Minas e Energia] nos resumimos apenas a esses assuntos. Mas tem um monte de assuntos nos quais estamos trabalhando juntos.
Mas como lidar com as especulaçÔes de que a senhora estå sofrendo um processo de fritura no governo?
Eu olho para a agenda [que estĂĄ sendo adotada pelo governo]. Ă muito corajoso do presidente Lula, com a pressĂŁo que sofre, dizer: essas obras aqui vĂŁo para estudos [em referĂȘncia aos projetos do PAC]. AlguĂ©m pensa que ele vai dizer, como presidente da RepĂșblica, que o MinistĂ©rio do Meio Ambiente estĂĄ coberto de razĂŁo e fulano Ă© que estĂĄ errado? Ou que o Meio Ambiente estĂĄ errado e fulano estĂĄ coberto de razĂŁo? Ele nĂŁo vai dizer isso. Vai, como um lĂder polĂtico que Ă©, fazer a mediação em prol do interesse pĂșblico. E Ă© com esse espĂrito que estamos trabalhando.
EntĂŁo, eu fico tranquila, estou fazendo o meu trabalho. O desmatamento estĂĄ caindo e a gente estĂĄ retomando a agenda [ambiental e climĂĄtica] em um patamar inimaginĂĄvel. Veja que quem estĂĄ coordenando a transição ecolĂłgica Ă© o ministro da Fazenda, Fernando Haddad. Pense em uma pessoa que compreende a agenda. Ele se apropriou rĂĄpido do tema. E gosto dessas coisas porque assim posso descansar. Ă sĂ©rio. Em vez de ficar: âah, vamos lĂĄ, pelo amor de Deusâ. NĂŁo. As pessoas estĂŁo indo [sozinhas].
O BNDES estå na agenda. O Ministério da Agricultura. Tenho uma excelente relação com o [Carlos] Fåvaro. A gente se liga, conversa. Tem coisas que a gente não vai concordar. Mas, enfim, é da natureza do nosso trabalho. E essas contradiçÔes não mudam pela nossa vontade.
Mudando um pouco de bioma, embora o desmatamento na AmazĂŽnia esteja caindo, no Cerrado, atĂ© julho, a tendĂȘncia era oposta. E os dados mostram que a maior parte do desmate Ă© legal. Como enfrentar essa questĂŁo para que o bioma nĂŁo seja sacrificado em detrimento da redução da destruição na AmazĂŽnia, por exemplo?
O PPCerrado [Plano de Prevenção e Controle do Desmatamento no Cerrado, que estå em elaboração] vai, sobretudo, articular os entes federados. à fundamental uma ação robusta não só do governo federal, mas também dos estados.
Identificamos que no governo anterior foi estimulada a concessĂŁo de licenças para o desmatamento. E hĂĄ licenças que nĂŁo sĂŁo necessariamente usadas no momento em que sĂŁo concedidas, ficando vĂĄlidas por dois, trĂȘs, atĂ© quase quatro anos. Viram licenças especulativas, que valorizam certas ĂĄreas a tĂtulo de comercialização.
A Secretaria Extraordinåria de Controle do Desmatamento estå avaliando junto à Abema [Associação Brasileira de Entidades Estaduais de Meio Ambiente], aos governos estaduais e federal que não se permita esse expediente de concessão de licenças tão longas, que levam a processos de especulação e à contratação do desmatamento de milhÔes de hectares de Cerrado antecipadamente.
Tudo que estĂĄ acontecendo em relação Ă mudança climĂĄtica e suas consequĂȘncias, os avanços tecnolĂłgicos e pesquisas indicam que dois, trĂȘs anos Ă© muita coisa. Nesse perĂodo, a realidade pode mudar. NĂŁo se pode ter uma licença concedida por um perĂodo tĂŁo longo exatamente porque o tempo conta para que se possa reverter determinados processos que se tornam irreversĂveis quando entram em curso. Estamos trabalhando a ideia de um pacto pelo Cerrado.
Conseguimos, agora, uma estabilização no desmatamento [os dados mais recentes do Deter mostram um pequeno aumento, de 2,4%, em relação a agosto do ano passado]. Pelo que estamos observando, Ă© possĂvel que a articulação com os estados e a expectativa da nĂŁo impunidade jĂĄ estejam fazendo a diferença [no Cerrado] como fizeram na AmazĂŽnia em relação ao desmatamento e Ă s queimadas. HĂĄ uma redução em torno de 50% das queimadas tambĂ©m no Cerrado [em agosto, segundo os dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, o Inpe].
Ă possĂvel detalhar o que serĂĄ esse âpacto pelo Cerradoâ?
Ainda nĂŁo, porque vamos colocar o PPCerrado para consulta pĂșblica no dia 11 de setembro, que Ă© o dia do Cerrado, e aĂ teremos as contribuiçÔes da sociedade. Enquanto isso, ocorre o processo de conversa com os estados.
Estive agora no PiauĂ, tambĂ©m conversei com o governador da Bahia, JerĂŽnimo Rodrigues [PT], e ele estĂĄ muito mobilizado para que possamos fazer a reversĂŁo dessa preocupante tendĂȘncia de alta [a Bahia Ă© o estado com os maiores Ăndices de desmatamento no Cerrado, na fronteira do agronegĂłcio na regiĂŁo do Matopiba].
De acordo com o CĂłdigo Florestal, propriedades rurais no Cerrado tĂȘm direito a desmatar atĂ© 80% de sua ĂĄrea. Como evitar que tudo isso seja de fato desmatado?
Buscar alternativas para aumentar a produção por ganho de produtividade [nas åreas jå convertidas] com certeza é um caminho. Menos åreas abertas, mais resultados em função de maior uso da tecnologia.
E hĂĄ o limite do que diz a ciĂȘncia. Estamos numa situação em que a queda na quantidade de chuva e no nĂșmero de dias chuvosos no Cerrado chega a cerca de 50% [na estação seca, entre junho e setembro]. HĂĄ tambĂ©m um estudo do MapBiomas que diz que jĂĄ perdemos algo em torno de 15% da superfĂcie hĂdrica do paĂs. Ă necessĂĄrio buscar alternativas ao modelo atual. NĂŁo Ă© sĂł questĂŁo de mitigar ou adaptar, mas tambĂ©m de transformar.
O bom Ă© que hĂĄ a possibilidade de fazermos isso juntos, porque na regiĂŁo do Matopiba [ĂĄrea que envolve os estados de MaranhĂŁo, Tocantins, PiauĂ e Bahia], a maioria dos governadores Ă© do campo progressista. Tanto Ă© que nos diĂĄlogos que temos feito com os secretĂĄrios estaduais de meio ambiente e com alguns dos governadores tĂȘm sido sempre numa visĂŁo de cooperação.
Quando o presidente Lula fala em desmatamento zero no Brasil, temos a consciĂȘncia de que cada bioma pode fazer a exploração [econĂŽmica] de acordo com o que estĂĄ na lei, entĂŁo Ă© disputar os usos dessas ĂĄreas. Otimizar cada vez mais as ĂĄreas abertas que podem ser usadas e evitar cada vez mais a conversĂŁo de floresta ou mesmo de outras conformaçÔes vegetais.
O Brasil ainda nĂŁo atualizou a sua Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC â a meta climĂĄtica de cada paĂs sob o Acordo de Paris). Isso depende do ComitĂȘ Interministerial de Mudança do Clima (CIM), que ainda nĂŁo se reuniu. Lula vai levar para a Semana ClimĂĄtica de Nova York, neste mĂȘs, a atual NDC, que sofreu uma âpedaladaâ no governo Bolsonaro?
NĂŁo Ă© a NDC de pedalada de Bolsonaro que ele vai levar. Mas o compromisso de fazer essa revisĂŁo, que jĂĄ estĂĄ publicamente assumido. Fazer a revisĂŁo da nossa NDC Ă© um processo tĂ©cnico e cientĂfico complexo que envolve analisar nĂŁo sĂł o desmatamento, mas todos os setores que produzem emissĂŁo de CO2.
Existem coisas que a gente nĂŁo muda da noite para o dia. Eu gostaria de jĂĄ ter uma mudança. Mas nĂłs estamos trabalhando por dois: por tudo que nĂŁo foi feito no passado, durante os Ășltimos quatro anos, e por tudo que precisa ser feito no presente, agravado por esse passado. E isso estĂĄ acontecendo em todas as frentes do governo: Ă© duplo trabalho na agenda social, na agenda ambiental, na agenda econĂŽmica, em tudo.
Ainda sobre a agenda climĂĄtica, a senhora tem dito que tem a intenção de criar uma âpolĂtica nacional de enfrentamento Ă s consequĂȘncias dos eventos extremosâ â uma espĂ©cie de PPCDAm dos eventos extremos. Como estĂŁo os trabalhos? A ideia Ă© lançar essa polĂtica no Ăąmbito do novo Plano Clima?Â
Estamos trabalhando ainda em um nĂșcleo estratĂ©gico, que envolve inicialmente os ministĂ©rios do Meio Ambiente, de CiĂȘncia e Tecnologia e da Integração e Desenvolvimento Regional, para apresentar uma ideia que tenha alguma robustez.
E uma das bases dessa polĂtica Ă© decretar emergĂȘncia climĂĄtica nos municĂpios mais vulnerĂĄveis?
Sim, decretar emergĂȘncia climĂĄtica nos municĂpios avaliados pela sĂ©rie histĂłrica do Cemaden [Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais] que sĂŁo suscetĂveis a eventos extremos. Para esse conjunto de municĂpios vamos ter um olhar que vai desde criar sistemas de alerta rĂĄpidos e eficientes e planos de emergĂȘncia, para quando o evento extremo jĂĄ estĂĄ instalado, atĂ© ter açÔes estruturantes de prevenção a esses eventos diagnosticados.
Tenho um diagnĂłstico do que pode acontecer em cerca de 800 municĂpios, entĂŁo nĂŁo posso pagar para ver. Temos ĂĄreas de risco onde poderĂŁo ser feitas intervençÔes. Mas existem algumas que sĂŁo de risco extremo, aĂ Ă© caso de remoção da população mesmo. Tudo isso requer continuidade. Processos licitatĂłrios mais sĂ©rios. Orçamentos que podem ser alocados para essas obras de adaptação. Criar mecanismos de compliance envolvendo o Tribunal de Contas e o MinistĂ©rio PĂșblico. Porque se ali haverĂĄ obras constantemente, isso tambĂ©m Ă© um chamariz para corrupção.
JĂĄ tive uma conversa com o Tribunal de Contas. Queremos que tanto o Tribunal de Contas da UniĂŁo quanto o MinistĂ©rio PĂșblico nos ajudem a conceber como Ă© que seria essa estrutura. Em algumas situaçÔes, talvez seja tambĂ©m preciso revisitar os planos diretores dos municĂpios.
Pode dar um exemplo?
A cidade de SĂŁo SebastiĂŁo, por exemplo, tem um gabarito de construção que nĂŁo permite obras verticalizadas atĂ© um determinado nĂvel. SĂł que os pobres ficaram todos na encosta. Como a prefeitura vai tirar essas pessoas [dos morros] se nĂŁo puder colocĂĄ-las dentro de um determinado padrĂŁo, em determinadas ĂĄreas, com algum tipo de verticalização? Vai fazer o quĂȘ? Manter tudo como estĂĄ e exportar as pessoas? Pessoas que tĂȘm suas vidas ali, sua histĂłria ali, seu municĂpio, sua identidade.
Em audiĂȘncia no Senado, a senhora disse que a Autoridade ClimĂĄtica poderia ser o ĂłrgĂŁo gestor do mercado de carbono regulado, cuja criação estĂĄ sendo debatida no Congresso a partir de uma proposta do governo. Isso jĂĄ estĂĄ definido? Quais os entraves para a criação da Autoridade ClimĂĄtica?
NĂŁo falo em principais entraves, mas em chances. Pode-se ter uma lei excelente para o mercado regulado de carbono, mas serĂĄ necessĂĄrio um operador para a sua implementação. Temos esse sentido de urgĂȘncia.
HĂĄ certa preocupação do Congresso em criar novas estruturas [no governo]. O presidente Lula tambĂ©m tem essa preocupação. Mas Ă© importante compreender que essa estrutura nĂŁo Ă© para gerar mais custos, e sim para criar os meios de implementar uma polĂtica altamente benĂ©fica em termos econĂŽmicos, ambientais e sociais para o nosso paĂs, como Ă© o caso do mercado regulado de carbono.
O que temos ali [como função do ĂłrgĂŁo gestor do mercado de carbono] sĂŁo processos de regulação e averiguação da integridade dos crĂ©ditos. SĂŁo operaçÔes complexas para fazer com que o Brasil seja o destino de um mercado Ăntegro de carbono, que sirva Ă finalidade de ajudar paĂses a cumprirem suas metas, e nĂŁo uma trapaça climĂĄtica. Estamos no caminho, debatendo dentro do governo e, obviamente, as duas coisas terĂŁo que caminhar juntas, tanto o marco regulatĂłrio quanto o ĂłrgĂŁo operador.


