O Complexo Hospitalar de Barbacena (CHB), unidade integrante da Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (Fhemig), realizou na última terça-feira (23) um procedimento inédito na rede pública de saúde do estado. O motociclista Geovani Campos Canton, de 28 anos, tornou-se o primeiro paciente da instituição a receber uma aplicação de polilaminina, substância experimental voltada ao estímulo da recuperação neurológica em casos de traumas graves na medula espinhal e nos nervos da coluna vertebral.
O tratamento foi conduzido pelo corpo clínico do hospital mineiro em cooperação direta com os pesquisadores do Projeto Polilaminina, iniciativa científica sediada no Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Por se tratar de uma terapia ainda em fase de pesquisa clínica, o emprego da polilaminina seguiu um protocolo experimental rigoroso, enquadrado na modalidade de uso compassivo autorizada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Essa engrenagem regulatória é acionada exclusivamente para pacientes com quadros de saúde graves ou debilitantes que carecem de alternativas terapêuticas satisfatórias ou equivalentes no mercado.
Canton sofreu o acidente de trânsito na noite de sexta-feira (19). Ele deu entrada no CHB e passou por uma intervenção cirúrgica de urgência no domingo (21). Na sequência, equipes multidisciplinares avaliaram os indicadores clínicos do jovem para checar a compatibilidade com o protocolo da pesquisa. A liberação documental célere viabilizou a infusão do composto em curto espaço de tempo.
O transporte dos pesquisadores fluminenses e do insumo biológico até o interior de Minas Gerais exigiu apoio logístico aéreo, coordenado pelo Batalhão de Operações Aéreas (BOA) do Corpo de Bombeiros Militar, em parceria com a Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais (SES-MG).
A polilaminina consiste em uma versão modificada e otimizada da laminina, uma glicoproteína presente naturalmente na matriz extracelular humana, cuja função biológica principal é dar suporte estrutural e orientar o desenvolvimento e a migração das células nervosas.
O ensaio clínico busca avaliar se a substância consegue diminuir o processo inflamatório agudo que se instala no tecido traumatizado e facilitar a reconexão das vias interrompidas, servindo como uma espécie de guia físico para o crescimento dos axônios — prolongamentos dos neurônios encarregados de conduzir os impulsos elétricos.
“Conseguimos propor a um paciente internado em um hospital 100% SUS a participação no protocolo. É uma proteína estudada pela capacidade de estimular a regeneração nervosa e ampliar as possibilidades de recuperação e de qualidade de vida”, destacou o ortopedista e cirurgião de coluna do CHB, Renato Guimarães.
O neurocirurgião Bruno Cortes, do Hospital Municipal Souza Aguiar (RJ) e integrante do projeto de pesquisa, pondera que o tratamento não carrega promessas absolutas de reversão das sequelas motoras ou sensitivas.
“O objetivo é favorecer a regeneração neuronal e criar condições para uma recuperação funcional maior do que a observada naturalmente. Não existe garantia de reversão da lesão, mas buscamos ampliar as perspectivas de ganho neurológico”, explicou Cortes.
A partir de agora, o paciente passará por rotinas intensivas de fisioterapia motora, etapa descrita pelos especialistas como crucial para consolidar os estímulos biológicos e conduzir o processo de reaprendizado funcional do sistema nervoso.


