O Ministério Público do Estado de São Paulo abriu uma investigação para apurar o caso de uma jovem de 21 anos que sofreu lesões cerebrais graves após andar na Montezum, a montanha-russa de madeira do parque Hopi Hari, em Vinhedo, no interior paulista. O órgão solicitou a realização de uma perícia técnica policial no equipamento.
A jovem, Júlia Bossoni, saiu de Londrina (PR) em abril acompanhada do namorado, João Pedro Bossoni, para visitar o parque. Durante a tarde, após entrarem pela segunda vez na atração, o carrinho retornou à plataforma de embarque com a passageira inconsciente e em quadro de convulsão.
Removida por funcionários em uma maca seis minutos após a parada do comboio, Júlia foi levada para a Unidade de Terapia Intensiva (UTI) da Santa Casa de Vinhedo. Exames apontaram hemorragia intracraniana e edema cerebral provocados por traumatismo cranioencefálico.
Para conter a pressão no cérebro, a paciente passou por uma craniectomia descompressiva — procedimento cirúrgico que retira uma parte do osso do crânio para dar espaço ao inchaço dos tecidos.
“Apenas um movimento brusco de aceleração e desaceleração e rotação do crânio pode fazer a ruptura de vasos sanguíneos cerebrais, causando uma hemorragia intracraniana e levando a um edema cerebral, que foi o caso da Júlia em especial”, afirmou o neurocirurgião Victor Batistela, responsável pelo laudo que apontou mecanismo de contragolpe como causa da lesão.
Após 57 dias de internação e sete cirurgias, a jovem teve alta, mas perdeu completamente os movimentos do lado esquerdo do corpo e apresenta sequelas na fala e na memória. A família não relatou doenças pré-existentes e ingressou com ação judicial para apurar as responsabilidades.
O inquérito do Ministério Público junta-se a outros relatos de incidentes no mesmo equipamento ao longo dos últimos anos.
Em 2018, a professora Nathalia Assenjo Motta teve um deslocamento nas vértebras cervicais provocado pelo movimento brusco da trava do brinquedo, conhecido como “efeito chicote”. Ela precisou passar por cirurgia para a fixação de 12 pinos e duas hastes na coluna, perdendo a mobilidade do pescoço.
Já em 2014, o motoboy Márcio sofreu fratura de duas vértebras e desenvolveu tetraplegia após usar o equipamento. Ele morreu em 2023 em decorrência de complicações infecciosas.
Em plataformas de defesa do consumidor, foram mapeados cerca de 40 registros nos últimos dois anos de usuários que alegam ter sofrido dores intensas, fraturas em costelas e lesões nas articulações após a utilização da montanha-russa.
Em nota oficial, o Hopi Hari declarou que a Montezum possui certificação internacional emitida pelo Grupo TÜV Nord e que passa por inspeções periódicas diárias, semanais e anuais, cumprindo integralmente as normas técnicas brasileiras de segurança da ABNT.
Sobre o atendimento prestado a Júlia Bossoni, a administração informou que disponibilizou os primeiros socorros de forma imediata em seu ambulatório e custeou as despesas com a internação e o acompanhamento hospitalar da paciente na Santa Casa de Vinhedo, além de disponibilizar a apólice de seguro à família.
O parque acrescentou que sinaliza as restrições de uso da atração por meio de placas e avisos sonoros no local de embarque, informando que se trata de um equipamento radical contraindicado para gestantes, pessoas com problemas de coluna e portadoras de condições de saúde específicas.
A empresa citou ainda um parecer emitido pelo Ministério Público de São Paulo em agosto de 2026 que concluiu não haver falha estrutural, vício do projeto ou risco coletivo na operação do equipamento, classificando eventuais queixas como ocorrências isoladas diante do volume de mais de 1,2 milhão de passageiros recebidos pela atração nos últimos dois anos.
Por fim, o parque afirmou que as ocorrências anteriores a 2019 pertencem a gestões passadas e adiantou que tem planejada uma reforma estrutural no brinquedo para o final de 2026.
