O ex-presidente da BolĂvia Evo Morales pediu a troca de ministros âcorruptos e traficantesâ em atĂ© 24 horas. Ele participou da marcha que começou na Ășltima semana e chegou nesta segunda-feira (23) Ă capital La Paz. Segundo o ex-mandatĂĄrio, o presidente Luis Arce tem 24 horas para fazer as mudanças âse quiser continuar governandoâ.
Milhares de bolivianos participaram da marcha que partiu da cidade de Caracollo, a 280km da capital, em 17 de setembro. Chamada de âMarcha para salvar a BolĂviaâ, o ato teve 36 feridos depois de confrontos com a polĂcia. Evo Morales disse ao final da manifestação que o objetivo era acabar com a âtraição e acima de tudo a corrupção, a proteção do trĂĄfico de drogas e a mĂĄ gestĂŁoâ.

Manifestantes deixaram a cidade de Caracollo a 280km de La Paz e chagaram a capital nesta segunda-feira – Jorge Bernal / AFP
A marcha tinha como destino a sede do governo boliviano, mas as forças de segurança fecharam os acessos ao centro de La Paz para evitar contato entre os manifestantes e o palĂĄcio presidencial. O protesto terminou em frente ao edifĂcio da CervecerĂa Boliviana Nacional (CBN), com um palco onde Evo discursou.
O MinistĂ©rio das RelaçÔes Exteriores respondeu Ă s declaraçÔes de Evo Morales. Em nota, a chancelaria chamou a postura de Morales de âultimatoâ, disse que o pedido para trocar ministros âameaça interromper a continuidade da ordem democrĂĄticaâ e chamou os envolvidos para um diĂĄlogo. O governo ainda condenou âqualquer tipo de extorsĂŁo ou condicionamento contra a vontade do povo manifestado nas urnasâ.
Depois dos confrontos durante a Ășltima semana, o presidente Luis Arce fez um pronunciamento na TV afirmando que nĂŁo daria âo gosto de uma guerra civil para Evo Moralesâ. Apoiadores do mandatĂĄrio tambĂ©m se reuniram em um movimento nesta terça para prestar apoio a Arce.
A marcha teve como estopim a escassez de combustĂveis no paĂs. A BolĂvia enfrenta desde o ano passado problemas com fornecimento de gasolina e gĂĄs, alĂ©m da falta de dĂłlares. A exportação de gĂĄs para o exterior passou por uma queda, o que levou a um problema na entrada de dĂłlares. A produção de gasolina e diesel tambĂ©m sofreu uma queda, o que fez com que o preço dos combustĂveis subissem. Com isso, a importação de gasolina chegou a 56% e a de diesel a 86%.
Para economistas bolivianos, o subsĂdios aos combustĂveis nessas condiçÔes representa um gasto de US$ 3 bilhĂ”es (R$ 16 bilhĂ”es, aproximadamente) para o governo boliviano. Para custear essas importaçÔes, Arce usou parte das reservas internacionais, o que levou a falta de dĂłlares e, consequentemente, a desvalorização do peso boliviano.
Disputa no MAS
O ex-presidente da BolĂvia Evo Morales enfrenta Luis Arce em uma disputa polĂtica pela candidatura nas eleiçÔes presidenciais de 2025.
Em 2023, Morales foi inabilitado pelo Tribunal Constitucional Plurinacional da BolĂvia (TCP) a concorrer Ă PresidĂȘncia em 2025. A Corte decretou em dezembro daquele ano que presidentes e vice-presidentes sĂł poderiam exercer o cargo por dois mandatos, de forma seguida ou nĂŁo.
Essa era uma lacuna que jå existia na Constituição boliviana. Antes, a Carta Magna afirmava que o presidente não poderia exercer o cargo por mais de dois mandatos, mas não especificava se eram seguidos ou não. Com a sentença judicial 1010, Evo Morales, que foi presidente por quatro mandatos, não poderia voltar ao poder.
Os apoiadores de Evo consideram que, com um novo Tribunal Constitucional, essa norma poderia cair e ele poderia voltar a ser candidato em 2025. Morales tenta reverter o impedimento por meio de manifestaçÔes populares e da eleição de novos juĂzes eleitorais que revisariam essa decisĂŁo.
A disputa interna entre apoiadores de Evo Morales e de Luis Arce começou quando Evo voltou Ă BolĂvia em 2020, apĂłs passar um ano exilado na Argentina por conta do golpe de Estado que levou Ă derrubada de seu governo, em 2019. O ex-presidente começou a criticar algumas decisĂ”es de Arce e seu apoiadores.
O MAS estĂĄ dividido entre a ala que apoia Luis Arce e um grupo favorĂĄvel Ă volta do ex-presidente.


