Master repassou R$ 3,6 bi em dívidas a fundos de gestora investigada

Levantamento baseado em lista de empréstimos entregue à Justiça mostra cessões de crédito para a Reag no mesmo dia da assinatura de contratos

Por Fhagner Soares, ContilNet 21/07/2026 às 05:20
Operações envolviam emissão de CDBs para captação de recursos e repasses no mesmo dia/ Foto: Reprodução

O Banco Master realizou o repasse de ao menos R$ 3,6 bilhões em carteiras de crédito de dívidas para fundos de investimento sob a gestão da Reag. A gestora de recursos é alvo de investigações da Polícia Federal por suspeita de fraudes na instituição financeira e lavagem de dinheiro procedente do setor de combustíveis, com ramificações ligadas a organizações criminosas.

A identificação das transações consta de um levantamento que mapeou 112 operações de crédito cedidas a terceiros. A relação de empréstimos integra a documentação anexada pelo liquidante do Master a um recurso judicial no qual Henrique Vorcaro, pai do empresário Daniel Vorcaro, tenta reverter o bloqueio de seu patrimônio pessoal.

Segundo as apurações conduzidas pela Polícia Federal, a Reag teria atuado na estruturação e na administração de fundos utilizados para movimentar ativos de forma atípica e forjar balanços patrimoniais. As apurações apontam indícios de gestão fraudulenta e ocultação de bens. O fundador da gestora, João Carlos Mansur, figura entre os alvos das diligências policiais.

A hipótese investigativa trabalhada pelos agentes federais aponta que as cessões de crédito serviam como mecanismo contábil para que a instituição financeira abrisse margem operacional e continuasse emitindo Certificados de Depósito Bancário (CDBs) no mercado.

Pelo esquema sob apuração, o banco captava recursos de investidores via CDBs e concedia empréstimos a empresas tomadoras. Na sequência, essas empresas aplicavam os montantes em fundos de investimento que, por sua vez, utilizavam parcela do capital para adquirir as próprias dívidas emitidas pelo banco. Como as dívidas cedidas não eram cobradas posteriormente, o prejuízo financeiro era absorvido diretamente pelos fundos.

A análise do acervo documental revela que os R$ 3,6 bilhões foram destinados a 11 fundos distintos em operações realizadas entre os anos de 2021 e 2025. O cadastro oficial do liquidante demonstra que, em diversos casos, a contratação original do empréstimo e a sua transferência para os fundos geridos pela Reag ocorreram simultaneamente, no mesmo dia.

A dinâmica de transferência imediata de carteiras de crédito ficou registrada, por exemplo, em seis operações direcionadas a companhias ligadas ao grupo Gafisa — empresa que possui entre seus acionistas o investidor Nelson Tanure. Os contratos somaram R$ 130 milhões e, na mesma data de concessão do crédito, os direitos foram cedidos ao Yvrac Fundo de Investimento em Participações Multiestratégia, fundo que conta com participação societária do próprio Banco Master. As transações do gênero tiveram início em 2022 e estenderam-se até setembro do ano passado.

Em informe trimestral recente encaminhado ao mercado, a Reag alegou que “os lastros apresentados estão em conformidade com a característica do fundo (Direitos Creditórios) e correspondem aos ativos refletidos na carteira”.

Além das operações com a Reag, o acervo de créditos do Master registrou a transferência de R$ 357 milhões em dívidas para o fundo Astralo 95. A entidade foi citada na Operação Carbono Oculto, deflagrada para desarticular esquemas de lavagem de dinheiro, fraudes societárias e ocultação de patrimônio no mercado de combustíveis com suposto envolvimento do Primeiro Comando da Capital (PCC).

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