Enquanto as atenções globais se voltam para a celebração esportiva da Copa do Mundo de 2026, sediada de forma conjunta por Estados Unidos, México e Canadá, os bastidores do torneio expõem as fraturas da geopolítica contemporânea. Um levantamento do cenário internacional aponta que pouco mais de 27% dos países que participam da competição organizada pela Fifa estão envolvidos, de maneira direta ou indireta, em conflitos armados ativos, crises humanitárias severas ou impasses bélicos históricos.
Das 48 nações que asseguraram vaga no torneio deste ano, um grupo de 13 países convive com rotinas de guerra ou de violência sistêmica perpetrada por atores não estatais em seus territórios: Estados Unidos, México, Haiti, Irã, Jordânia, Catar, Arábia Saudita, Colômbia, Marrocos, Argélia, República Democrática do Congo (RDC), Iraque e Coreia do Sul.
O contraste mais evidente na tabela da Copa envolve os Estados Unidos e o Irã, ambos integrantes do torneio de 2026. As duas nações travam um conflito militar que registrou uma escalada drástica em fevereiro deste ano, após bombardeios norte-americanos contra o território do país persa. Embora vigorasse uma trégua instável desde abril, novos ataques mútuos foram contabilizados dias antes do início do Mundial.
A postura adotada pela entidade máxima do futebol, presidida pelo suíço Gianni Infantino, foi pautada pelo princípio da neutralidade política. O posicionamento contrasta com decisões anteriores da própria Fifa e da Uefa que, em 2022, suspenderam a federação e os clubes da Rússia de todas as competições internacionais devido à invasão da Ucrânia.
Os desdobramentos operacionais da crise afetaram a logística da delegação iraniana. A administração de Donald Trump chegou a manifestar publicamente que a participação do Irã no torneio “não seria apropriada”, sugerindo informalmente a substituição da vaga pela Itália, proposta descartada pela Fifa. Diante do impasse, o selecionado persa enfrentou entraves burocráticos para a emissão de vistos, teve de transferir seu centro de treinamentos do Arizona para a cidade mexicana de Tijuana e só recebeu autorização migratória para ingressar em solo norte-americano 36 horas antes de cada compromisso da fase de grupos.
O tabuleiro regional do conflito alcança outros quatro participantes do Mundial: Jordânia, Catar, Arábia Saudita e Iraque. Vizinhos geográficos do Irã e alinhados ao bloco ocidental, esses países sofreram bombardeios em seus territórios que tinham como alvos bases e instalações operacionais mantidas pelas Forças Armadas dos Estados Unidos.
Diferente do caráter transfronteiriço das tensões no Golfo Pérsico, o México enfrenta um conflito armado interno de alta intensidade motivado pelo narcotráfico. A espiral de violência militarizada se estende por duas décadas. Em fevereiro deste ano, a morte de Nemesio Oseguera Cervantes, o “El Mencho”, fundador do Cartel Jalisco Nova Geração (CJNG), desencadeou uma onda de retaliações armadas e bloqueios de estradas contra forças de segurança mexicanas que resultou em 73 mortes nas semanas que antecederam a abertura do torneio.
Na Colômbia, o panorama de instabilidade interna associa-se a disputas territoriais de caráter político que envolvem o aparato governamental e grupos guerrilheiros de esquerda, com destaque para as ações do Exército de Libertação Nacional (ELN), além de ramificações do crime organizado ligado à produção de entorpecentes.
O cenário mais agudo nas Américas, contudo, concentra-se no Haiti. O país caribenho atravessa uma das crises humanitárias mais graves do século, com facções criminosas controlando cerca de 80% da área urbana da capital, Porto Príncipe. Conforme balanços divulgados por agências da Organização das Nações Unidas (ONU), os episódios sistemáticos de assassinatos e sequestros forçaram o deslocamento interno de mais de 1,4 milhão de pessoas.
Sorteada no Grupo K da competição, a República Democrática do Congo (RDC) vivencia uma guerra civil crônica cujas origens remontam à década de 1990. O conflito, concentrado na porção leste do território congolês, é impulsionado pelo controle de jazidas minerais estratégicas e por divisões étnicas ligadas ao fluxo migratório decorrente do genocídio de Ruanda em 1994.
A principal força insurgente na região é o movimento M-23 que, segundo relatórios técnicos da ONU, recebe apoio logístico do governo ruandês de Paul Kagame —alegação negada por Kigali. No início de 2025, uma coalizão rebelde denominada Alliance Fleuve Congo (AFC) rompeu acordos anteriores e capturou uma área estimada em 34 mil quilômetros quadrados, invalidando os termos de cessar-fogo que haviam sido mediados pela diplomacia norte-americana.
Por fim, o torneio de 2026 abriga três seleções cujos países mantêm disputas classificadas por analistas de relações internacionais como “conflitos congelados”. A Coreia do Sul permanece juridicamente em estado de guerra contra a Coreia do Norte, uma vez que o embate ideológico iniciado na década de 1950 foi interrompido em 1953 por um armistício, e não por um tratado de paz definitivo.
No norte da África, as seleções de Marrocos e Argélia carregam para o ambiente esportivo uma rivalidade diplomática histórica assentada na disputa pelo Saara Ocidental. O território é controlado majoritariamente pela administração marroquina, mas contestado pela Frente Polisário —movimento de libertação nacional armado que conta com o patrocínio político e militar do governo argelino. O acordo de cessar-fogo chancelado pela ONU em 1991 foi rompido formalmente em 2020, mantendo a região sob um estado de hostilidade intermitente de baixa intensidade.
