Nova tarifa dos EUA contra o Brasil entra em vigor nesta sexta

Encargo adicional sobre 3 mil produtos eleva tributação brasileira ao segundo maior nível nos EUA

Por Fhagner Soares, ContilNet 24/07/2026 às 05:22
Retração nas vendas afeta 20 estados brasileiros, com maior impacto nas regiões Norte e Centro-Oeste/ Foto: Reprodução

As exportações do Brasil para os Estados Unidos passam a enfrentar uma barreira tarifária acumulada de até 37,5% a partir desta sexta-feira (24/7). O governo norte-americano confirmou a entrada em vigor de um imposto adicional de 12,5%, anunciado na quinta-feira (23/7), que incidirá de forma cumulativa sobre a sobretaxa de 25% aplicada em meados deste mês.

Com o novo reajuste, o país passa a figurar entre os parceiros comerciais com maior nível de tributação de acesso ao mercado norte-americano, superado apenas pela China.

A medida recente fundamenta-se em uma investigação instaurada com base na Seção 301 do Trade Act de 1974, na qual Washington acusa o mercado brasileiro de insuficiência no combate ao trabalho forçado em determinadas cadeias produtivas. A ação junta-se a outro processo instaurado sob a mesma legislação sobre suposto desmatamento e práticas comerciais desleais, que deu origem à primeira tarifa de 25% em vigor desde a quarta-feira (22/7).

Segundo levantamento da Câmara Americana de Comércio para o Brasil (Amcham Brasil), o encargo de 12,5% afeta aproximadamente 3 mil produtos, o equivalente a US$ 12,5 bilhões (R$ 63,7 bilhões) em vendas anuais. Deste montante, 85,3% do volume financeiro exportado — cerca de US$ 10,7 bilhões (R$ 54,6 bilhões) — passará a acumular as duas alíquotas punitivas.

Todos os itens fora da lista de exceções do Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) sujeitam-se à tributação conjunta. O etanol brasileiro sobressai-se como um dos principais alvos da contestação norte-americana. Por não integrar os anexos de isenção, o biocombustível importado do Brasil passa a arcar com a alíquota máxima de 37,5%.

Entre os grupos de produtos atingidos pela sobretaxa combinada estão:

  • Etanol: combustível de cana-de-açúcar, álcool etílico industrial, para bebidas e insumo químico;

  • Polpa de madeira: celulose solúvel para fios têxteis (rayon e viscose), celofane e plásticos;

  • Maquinário pesado: tratores agrícolas, colheitadeiras, escavadeiras de mineração e peças de borracha;

  • Equipamentos elétricos: transformadores de potência para subestações e infraestrutura para centros de dados de inteligência artificial;

  • Calçados e vestuário: sapatos de couro, tênis, botas de segurança, calças jeans e casacos;

  • Pisos e rochas ornamentais: placas de granito polido, mármore trabalhado, quartzito e pisos engenheirados;

  • Móveis e eletrônicos: mobília de madeira de lei (exceto assentos para aeronaves) e equipamentos eletrônicos em geral.

Entre as poucas exceções preservadas pelo USTR constam aeronaves civis e peças aeronáuticas, insumos siderúrgicos regidos pela Seção 232, ferro-gusa, pelotas de minério de ferro, café solúvel não aromatizado, carne bovina in natura e materiais informativos.

As restrições comerciais promovidas pela administração de Donald Trump desde o início do ano já repercutem na balança comercial. Relatório da Confederação Nacional da Indústria (CNI) indica que 20 das 27 unidades da federação registraram queda no envio de mercadorias aos Estados Unidos no primeiro semestre de 2026.

No acumulado desde março de 2025, o comércio de bens industriais encolheu 13% no geral. A retração foi mais acentuada nos estados das regiões Norte e Centro-Oeste: o Acre liderou as perdas com queda de 62,8%, seguido por Tocantins (-52,1%), Rondônia (-49,1%) e Amapá (-41,2%).

Em resposta ao novo agravamento tarifário, o Palácio do Planalto anunciou que iniciará os trâmites para a aplicação da Lei de Reciprocidade Comercial, autorizando medidas equivalentes de retaliação contra bens norte-americanos. O governo federal confirmou ainda que acionará o sistema de solução de controvérsias da Organização Mundial do Comércio (OMC).

Em nota, o governo brasileiro classificou a alegação de trabalho forçado como uma manipulação de pautas de direitos humanos para mascarar objetivos protecionistas por parte de Washington.

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