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O dia em que Rio Branco passou Nova York

Por Redação ContilNet Fonte: Ascom 29/07/2026 às 11:12

Reprodução

Em 2006, abrir uma loja de produtos eróticos com vitrine para a rua, em Rio Branco, era quase um ato de coragem. Cliente entrava olhando para os lados. Sacola discreta, conversa em voz baixa, aquele teatro todo. Quem viveu a cidade naquela época lembra bem.

Pois vinte anos depois, a capital do Acre acaba de aparecer, numa régua internacional, acima de Nova York. Isso mesmo: a cidade do Stonewall, dos bares da Christopher Street, do imaginário liberal americano inteiro.

A régua em questão é o Sexually Liberal City Index, um ranking publicado pelo portal Erobella que chegou este ano à quinta edição. A proposta é medir onde se vive a sexualidade com mais liberdade, somando dez indicadores: leis sobre prostituição, direitos LGBT, aborto, contraceptivos, e também a vida prática da cidade, contada em sex shops, bares e eventos por habitante. São 41 cidades no ranking oficial, com Amsterdã na ponta (69,4 pontos em 100) e Moscou na lanterna (11,6). O Brasil aparece representado pelo Rio de Janeiro, em 31º, com 34,0 pontos.

Rio Branco não está na lista. Mas a conta é pública, as fontes são públicas, e nada impede de aplicar a mesma matemática aqui. Foi o que fizemos. Resultado: 33,6 pontos. Colados no Rio de Janeiro, e mais de um ponto acima de Nova York, que fez 32,4.

Antes que alguém pergunte se o levantamento visitou a Gameleira numa sexta à noite: não é disso que se trata. O segredo do resultado está em Brasília, não no Segundo Distrito. A legislação brasileira vale nota máxima no índice em reconhecimento de gênero e em proteção contra discriminação LGBT, e ainda rende pontos porque a prostituição, por aqui, não é crime. Esse pacote legal, sozinho, garante a qualquer cidade brasileira uns 32 pontos de saída. Os Estados Unidos vivem o inverso: trabalho sexual ilegal em praticamente todo o país e direitos reprodutivos em queda livre depois das restrições estaduais dos últimos anos. Nenhuma das nove cidades americanas do ranking pontua em leis de trabalho sexual. Nenhuma.

Traduzindo: os direitos que valem em Ipanema valem, exatamente iguais, na Estrada Dias Martins. É uma das poucas tabelas internacionais em que o CEP não pesa contra a Amazônia.

O resto da pontuação rio-branquense vem do comércio local. As quatro sex shops da cidade, para 413 mil habitantes, rendem proporção melhor que a de muita metrópole. Aquela lojinha de 2006, pioneira, virou estatística a favor.

Nem tudo são flores, claro. Nas categorias de bares LGBT e de eventos, Rio Branco zera. A comunidade existe, a festa existe, mas os radares internacionais usados pelo estudo não registram um único endereço ou festival dedicado na capital. A cena acreana segue invisível para quem mede o mundo de longe. Há algo de injusto nisso, e há também um recado.

Fica registrado o devido asterisco: o cálculo para Rio Branco é um exercício desta reportagem, feito com a metodologia e as fontes que o próprio índice publica, e não uma posição oficial no ranking, que pode ser conferido na íntegra em erobella.com/creative/liberal-cities-2026/.

Mas o asterisco não muda a moral da história. Numa medição internacional de liberdade sexual, a capital mais ocidental do Brasil bate a cidade mais famosa do mundo. Se em 2006 alguém dissesse isso na porta da lojinha recém-inaugurada, ia parecer piada. Hoje é conta feita.

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