23/09/2026

Pesquisadora brasileira é treinada nos EUA para lidar com vírus letais

Formação faz parte dos preparativos do projeto Orion, primeiro laboratório de máxima contenção biológica (NB4) da América Latina

Por Marina, ContilNet
Jaqueline vestindo a roupa necessária para acessar laboratório de biossegurança NB4 — Foto: Gabriella Ramos/g1

Já pensou em ter a vida investigada pelo FBI para trabalhar com vírus letais? Foi isso que aconteceu com a cientista do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), em Campinas (SP), Jacqueline Shimizu, ao participar de um treinamento de biossegurança nível 4 (NB4).

Jaqueline vestindo a roupa necessária para acessar laboratório de biossegurança NB4 — Foto: Gabriella Ramos/g1

A analista de desenvolvimento tecnológico foi à University of Texas Medical Branch (UTMB Health), nos Estados Unidos, para se especializar no manejo de agentes biológicos altamente perigosos, como os vírus Ebola e Sabiá.

O Sabiá é o vírus causador da febre hemorrágica brasileira, uma doença rara e de alta letalidade.

A doutoranda em microbiologia diz que a experiência foi desafiadora: são cerca de 100 horas de treinamento com pesquisadores capacitados antes de ser liberada para trabalhar de forma independente no ambiente NB4.

“Eu fiquei muito emocionada de saber que é o único vírus NB4 brasileiro. E eu, brasileira, pude ter o treinamento, graças a essas parcerias que o CNPEM tem feito, para pesquisar um pouco mais sobre um vírus que existe no Brasil”, relembra Jacqueline sobre a emoção de manusear o vírus pela primeira vez.

Jacqueline passou um ano no treinamento teórico antes de ser considerada apta a trabalhar em um laboratório ativo com vírus infecciosos. Antes de viajar, ainda participou de um treinamento introdutório no CNPEM, em parceria com a Universidade da Califórnia, voltado à capacitação NB4.

Durante a parte burocrática inicial, Jaqueline precisou enviar todos os documentos ao Federal Bureau of Investigation (Departamento Federal de Investigação), o FBI, que fez uma análise do histórico da pesquisadora, incluindo antecedentes criminais, para que ela pudesse, enfim, iniciar os estudos.

Trajetória acadêmica

Jaqueline, que fez bacharelado, mestrado e doutorado na Universidade Estadual Paulista (Unesp), diz que nunca imaginou trabalhar em um laboratório NB4, mas se interessava por vírus e microbiologia desde o início da carreira.

Durante a pandemia, a cientista integrou a força-tarefa contra a Covid-19 do CNPEM, participando de iniciativas para encontrar soluções contra o vírus.

“Eu já tinha experiência em laboratórios de bioconferência. Tinha contenção NB1, NB2 e NB3, o que me trouxe para trabalhar com o SARS-CoV-2, que é NB3. Conforme adquiri conhecimentos, fui me capacitando para ir a um laboratório NB4 e fazer o treinamento”, comenta.

Jacqueline passou um ano fora para realizar o treinamento — Foto: Gabriella Ramos/g1

O que é o Sabiá?

O vírus Sabiá é o causador da febre hemorrágica brasileira, uma doença rara e de alta letalidade. Ele reapareceu no Brasil em janeiro de 2020, em São Paulo, o primeiro caso depois de 20 anos.

O nome vem do bairro Sabiá, em Cotia (SP), onde a primeira vítima teria sido registrada. Pouco estudado, o vírus foi isolado no Brasil nos anos 1990 e é o único patógeno brasileiro classificado na classe mais alta de risco biológico.

Houve somente quatro mortes registradas: duas em Cotia e Espírito Santo do Pinhal (SP), e duas entre trabalhadores de laboratório. A forma de infecção é incerta e o hospedeiro ainda é desconhecido, exigindo mais estudos.

“A gente precisa fazer pesquisas para entender um pouco melhor esse vírus e também o diagnóstico dele, e assim como tratamentos, porque atualmente a gente não tem nem vacina, nem nenhum composto que funcione como antiviral contra essa infecção”, analisa Jacqueline.

Ainda segundo a analista, no início, ela sentiu medo de manusear o vírus, mas a disciplina exigida em laboratórios com esse nível de biossegurança aumentou a confiança.

Além do vírus brasileiro, Jaqueline participou de projetos com outros vírus NB4. Ela pesquisou Ebola, Marburg e Junin – que causa febre hemorrágica na Argentina – e também o Lassa, da mesma família do Sabiá, mais comum na África Ocidental.

Orion

Além de ser pioneiro na América Latina, o projeto Orion será o primeiro laboratório de máxima contenção biológica do mundo conectado a uma fonte de luz síncrotron, o Sirius, permitindo análise de agentes altamente infecciosos.

“É um projeto extremamente importante por uma questão não só de soberania da pesquisa científica brasileira, porque atualmente a gente não tem nenhuma instalação no Brasil que nos permite pesquisar esse tipo de vírus”, afirma.

Jacqueline relembra que, durante o treinamento no exterior, vários pesquisadores estrangeiros demonstraram interesse no projeto. “É até gratificante ver que eles falam assim, porque eles têm essa ideia de que é uma infraestrutura única no mundo e eles estão muito animados para a colaboração com o CNPEM nessa área”.

Em construção no campus do CNPEM, o maior investimento nacional em ciência na história do Brasil, o laboratório terá 29 mil metros quadrados e deve ser inaugurado em 2027. O custo estimado da obra é de R$ 1,5 bilhão.

Conteúdo Original / Fonte: G1

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