Relatos indicam que médium do usava dados da internet para forjar cartas psicografadas
Uma investigação jornalística conduzida pelo portal Metrópoles revelou novos relatos de pessoas que afirmam ter sido enganadas pela médium Maira Rocha, atuante na Casa de Caridade Inácio Daniel, em Águas Claras, no Distrito Federal. A líder religiosa, que acumula mais de 750 mil seguidores nas redes sociais, é acusada de produzir cartas psicografadas falsas a partir de dados coletados na internet, como processos de inventário, obituários e postagens em redes sociais.
Após a veiculação das primeiras reportagens sobre o caso, novos frequentadores procuraram o veículo para detalhar inconsistências nas mensagens atribuídas a parentes mortos.
Uma das testemunhas, que solicitou anonimato e teve a identidade preservada pelo portal sob o nome fictício de Eduarda, relatou que a família entregou os nomes de parentes em um livro de intenções durante uma sessão em 2019 e recebeu a correspondência espiritual em maio deste ano.
Segundo o relato ao Metrópoles, o texto continha divergências gritantes sobre a vida do pai, já falecido. A mensagem trazia a data errada de nascimento do homenageado — que coincidia exatamente com uma informação incorreta publicada em um site de obituários na internet.
Além disso, o texto utilizou os primeiros nomes de registro de dois filhos adotivos que a família chamava apenas pelo segundo nome, padrão identificado pela vítima como idêntico à forma como as qualificações constavam no processo público de inventário do falecido.
“É impossível essa carta ter sido enviada do além. Tudo o que está errado constava na internet”, afirmou a frequentadora ao portal. Ela pontuou que o pai também aparecia no texto declarando ter exercido as profissões de médico e eletricista, funções que ele jamais desempenhou em vida.
Eduarda, que se declara praticante da doutrina espírita desde a infância, formalizou uma denúncia junto à Federação Espírita do Distrito Federal (FEDF). A entidade confirma que o questionamento e o exame crítico das mensagens mediúnicas fazem parte dos preceitos fundamentais do kardecismo e incentiva que inconsistências sejam apuradas.
A apuração do Metrópoles apontou ainda que pessoas que contestaram a autenticidade das mensagens passaram a sofrer retaliações por parte da liderança da casa espiritual. Frequentadores relatam o uso de ações judiciais nas esferas cível e criminal, além de registros de boletins de ocorrência sob a alegação de intolerância religiosa, como forma de inibir questionamentos.
Outra vítima ouvida pelo portal relatou ter desenvolvido crises de pânico após constatar que trechos inteiros das cartas haviam sido copiados de publicações antigas do Facebook e do Instagram. Entre os relatos reunidos durante as três semanas de investigação do veículo, há casos de menções a vestuários, citações literais de comentários online e até mensagens atribuídas a pessoas que ainda estavam vivas na data da sessão.
Procurada pela equipe do Metrópoles, Maira Rocha não respondeu aos questionamentos ao longo da produção da reportagem e declarou no sábado (5) que não se manifestaria, afirmando apenas que acionará a Justiça contra o portal de notícias.