Com documentos inéditos, filme expÔe estrutura clandestina da ditadura

Investigação reĂșne relatĂłrios secretos, manuais de interrogatĂłrio e tortura

Por AgĂȘncia Brasil 17/05/2026 Ă s 14:04 Atualizado: hĂĄ 2 dias

Documentos inĂ©ditos do arquivo do coronel Cyro Guedes Etchegoyen, um dos principais nomes da inteligĂȘncia do ExĂ©rcito durante a ditadura militar, revelam novos detalhes sobre o funcionamento da estrutura clandestina de repressĂŁo no Brasil. O material histĂłrico, que expĂ”e os bastidores do perĂ­odo mais violento do regime, Ă© a base do documentĂĄrio Bandidos de Farda, que estreia neste domingo (17) no canal do ICL NotĂ­cias.

Coordenada pela jornalista Juliana Dal Piva, a investigação reĂșne relatĂłrios secretos, manuais de interrogatĂłrio e tortura, registros de monitoramento polĂ­tico e documentos que apontam a existĂȘncia de uma polĂ­tica sistemĂĄtica de perseguição, desaparecimentos forçados e violĂȘncia de Estado durante o regime militar.

Notícias relacionadas:Maioria de empresårios que apoiou ditadura vem de famílias escravistas.Justiça mantém condenação da União e de SP por tortura na ditadura.Ditadura como negócio: podcast revela quem lucrou com o regime de 64.Entre os materiais revelados estão documentos sobre cursos de interrogatório e tortura realizados por oficiais brasileiros no exterior, relatórios de espionagem política produzidos nos anos 1980 e registros de vítimas ainda desconhecidas oficialmente pelo Estado brasileiro.

Reprodução de fotografia do coronel do ExĂ©rcito Cyro Etchegoyen, responsĂĄvel por roubar e esconder documentos da ditadura militar. Foto: Rovena Rosa/AgĂȘncia Brasil

Um dos pontos centrais da investigação envolve a atuação do coronel Cyro Etchegoyen, chefe da contrainformação do Centro de InformaçÔes do ExĂ©rcito (CIE), entre 1969 e 1974. Segundo pesquisadores da ditadura militar, ele integrou a estrutura responsĂĄvel pela profissionalização dos mĂ©todos repressivos utilizados pelos ĂłrgĂŁos de inteligĂȘncia. O militar participou da consolidação de mecanismos clandestinos de interrogatĂłrio e repressĂŁo.

O coronel Ă© apontado por estudos histĂłricos como um dos articuladores da chamada “Casa da Morte”, centro clandestino de tortura mantido pelo regime militar em PetrĂłpolis, na regiĂŁo serrana do Rio de Janeiro. O local ficou conhecido por receber presos polĂ­ticos submetidos a tortura fĂ­sica e psicolĂłgica, desaparecimentos forçados e execuçÔes clandestinas. Testemunhos de sobreviventes e documentos histĂłricos indicam que a casa funcionava como um espaço de treinamento e experimentação de mĂ©todos de repressĂŁo utilizados pelos ĂłrgĂŁos de segurança do regime.

A investigação apresentada no documentårio mostra como parte dessa estrutura era composta não apenas por militares fardados, mas também por agentes clandestinos.

A investigação conduzida por Juliana, inicialmente publicada em uma série de reportagens do ICL Notícias, jå teve repercussão internacional. O relator especial da Organização das NaçÔes Unidas (ONU) para Verdade, Justiça, Reparação e Garantias de Não Repetição, Bernard Duhaime, afirmou que as revelaçÔes exigem a reabertura de investigaçÔes sobre crimes cometidos por militares brasileiros.

Bandidos de Farda

O título do filme, segundo Juliana Dal Piva, nasce justamente dessa constatação.

“Os documentos mostram que havia uma estrutura organizada para cometer crimes de Estado. NĂŁo estamos falando apenas de militares cumprindo ordens burocrĂĄticas. Existia uma mĂĄquina preparada para sequestrar, torturar, matar e desaparecer com corpos. E, muitas vezes, essas operaçÔes contavam com homens treinados especificamente para agir como assassinos clandestinos”, afirmou a jornalista em entrevista Ă  AgĂȘncia Brasil.

Reprodução de documentos inĂ©ditos da ditadura militar que tinham sido roubados e escondidos pelo coronel do ExĂ©rcito Cyro Etchegoyen foram expostos pela jornalista Juliana Dal Piva em documentĂĄrio. Foto: Rovena Rosa/AgĂȘncia Brasil – Rovena Rosa/AgĂȘncia Brasil

Ao longo da narrativa, o documentĂĄrio tambĂ©m expĂ”e relatos de violĂȘncia sexual cometida por agentes da repressĂŁo, incluindo um caso de estupro identificado nos documentos analisados pela equipe.

“O estupro aparece nos documentos como instrumento de terror e humilhação. Isso Ă© muito importante porque, durante dĂ©cadas, a violĂȘncia sexual da ditadura ficou invisibilizada. A pesquisa ajuda a mostrar como o Estado utilizava todos os mecanismos possĂ­veis para destruir fĂ­sica e emocionalmente as vĂ­timas”, disse Juliana.

Para pesquisadores e defensores dos direitos humanos, os documentos atribuídos ao coronel Cyro Etchegoyen podem abrir novos caminhos para investigaçÔes históricas e jurídicas sobre crimes ainda não totalmente esclarecidos.

Jornalista e escritora especializada em investigaçÔes sobre a ditadura militar, Juliana dedica cerca de 15 anos de trabalho ao tema. Ela é autora do livro Crime Sem Castigo: Como os Militares Mataram Rubens Paiva, publicado em 2025. Confira abaixo a íntegra da entrevista sobre a produção inédita.

A jornalista investigativa e escritora Juliana Dal Piva fala sobre documentĂĄrio Bandidos de Farda – Rovena Rosa/AgĂȘncia Brasil

AgĂȘncia Brasil: Como começou a investigação que resultou em Bandidos de Farda?

Juliana Dal Piva: Essa investigação é resultado de muitos anos trabalhando com documentos da ditadura militar. A minha dissertação de mestrado foi um estudo de caso sobre o desaparecimento do Rubens Paiva. Eu defendi em 2016, num período em que houve muitas descobertas importantes sobre o caso e também começaram as primeiras açÔes no Supremo Tribunal Federal questionando a Lei da Anistia.

AgĂȘncia Brasil: O debate sobre memĂłria e ditadura mudou nos Ășltimos anos?

Juliana Dal Piva: Mudou muito. Eu acompanhei como repĂłrter o julgamento sobre a revisĂŁo da Lei da Anistia, em 2014. Depois disso, o Brasil entrou em uma espĂ©cie de interrupção desse debate, especialmente com a ascensĂŁo da extrema direita entre 2014 e 2015. Houve um bloqueio dessa conversa pĂșblica sobre memĂłria e justiça.

AgĂȘncia Brasil: E qual o papel do audiovisual nesse processo?

Juliana Dal Piva: O audiovisual estĂĄ ajudando a desinterditar essa conversa. Filmes como Ainda Estou Aqui fazem as pessoas compreenderem que a ditadura nĂŁo foi uma guerra de dois lados. Era um pai dentro de casa, desarmado, que desaparece e deixa uma famĂ­lia destruĂ­da sem respostas. Qualquer pessoa consegue se colocar naquele lugar.

AgĂȘncia Brasil: Por que o nome Bandidos de Farda?

Juliana Dal Piva: Porque os documentos revelam homens do Estado envolvidos diretamente em crimes gravĂ­ssimos. NĂŁo eram excessos isolados. Era uma estrutura organizada. Muitos desses agentes foram treinados para agir clandestinamente, matar, desaparecer com corpos e perseguir opositores polĂ­ticos. Eles usavam a estrutura do Estado para cometer crimes.

AgĂȘncia Brasil: O que mais chamou atenção nos arquivos?

Juliana Dal Piva: O grau de preparação. Os manuais de interrogatório, os cursos no exterior, a sofisticação da vigilùncia. Havia um planejamento muito estruturado para perseguir pessoas. E muitas vítimas nem participavam de organizaçÔes armadas. Os documentos desmontam completamente a narrativa de que havia uma guerra entre dois lados equivalentes.

AgĂȘncia Brasil: O documentĂĄrio mostra tambĂ©m violĂȘncia sexual praticada pela repressĂŁo. Qual Ă© a relevĂąncia?

Juliana Dal Piva: Sim. Existe um caso de estupro identificado na documentação. Isso Ă© muito importante porque durante muito tempo essas violĂȘncias ficaram escondidas ou minimizadas. A tortura sexual fazia parte da lĂłgica de dominação da repressĂŁo.

AgĂȘncia Brasil: Existe relação entre esse passado e o Brasil recente?

Juliana Dal Piva: Totalmente. O que vimos nos anos recentes foi uma caminhada ao autoritarismo. Tentativas de censura, perseguição, espionagem de jornalistas e magistrados, o uso polĂ­tico de estruturas de inteligĂȘncia como a chamada Abin paralela [nĂșcleo clandestino de espionagem que funcionou dentro da AgĂȘncia Brasileira de InteligĂȘncia (Abin) o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro para monitorar adversĂĄrios polĂ­ticos]. Estruturada por aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro. Existem consequĂȘncias quando um paĂ­s nĂŁo enfrenta o prĂłprio passado.

AgĂȘncia Brasil: Como foi transformar a investigação em documentĂĄrio?

Juliana Dal Piva: Foi uma experiĂȘncia muito intensa. Eu jĂĄ tinha feito podcast, reportagem investigativa, mas nunca uma produção audiovisual dessa dimensĂŁo. O ICL trabalha muito com vĂ­deo e a gente quis construir uma narrativa acessĂ­vel sem perder rigor histĂłrico. Estou muito orgulhosa da equipe e do resultado.

 


ConteĂșdo reproduzido originalmente em: Agencia Brasil por Anna Karina de Carvalho – RepĂłrter da AgĂȘncia Brasil

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