Início / Versão completa
Destaque 2

24 horas com um ferido na rede é o retrato fiel do abandono em Sena

Por Wania Pinheiro, ContilNet 12/08/2026 13:43 Atualizado em 12/08/2026 14:03
Publicidade

Há cenas que dizem mais sobre uma administração pública do que qualquer discurso de campanha. A imagem de homens carregando, dentro de uma rede, um trabalhador gravemente ferido após ser atingido na cabeça durante a derrubada de uma árvore, na região do Rio Macauã, é uma delas.

Publicidade

E o que torna a cena ainda mais revoltante é que, segundo informações preliminares, a dificuldade de acesso à região teria obrigado os próprios moradores a caminhar por cerca de 24 horas com a vítima, em busca de atendimento. O trabalhador precisou ser retirado daquela área praticamente no braço, porque o caminho que deveria permitir a passagem de um veículo de emergência simplesmente não existe ou não oferece condições mínimas de trafegabilidade.

Isso não é apenas uma dificuldade geográfica. É abandono.

Quem mora no interior de Sena Madureira sabe há anos o que significa conviver com ramais intrafegáveis. Na região às margens do Rio Macauã, famílias inteiras enfrentam dificuldades para sair de suas propriedades, transportar produção, levar crianças à escola e, principalmente, conseguir atendimento médico quando alguma tragédia acontece.

Publicidade

Mas quando uma pessoa sofre um acidente grave e precisa ser carregada durante horas dentro de uma rede, a discussão deixa de ser sobre conforto, produção rural ou conservação de estrada. Passa a ser uma questão de vida ou morte.

Uma ambulância não consegue chegar onde não existe ramal. Um carro não consegue socorrer uma vítima onde a estrada virou atoleiro, mato ou simplesmente deixou de existir. E um helicóptero não pode ser tratado como substituto permanente de uma política básica de infraestrutura.

É preciso perguntar: onde estavam as autoridades responsáveis pela manutenção e abertura desses ramais?

Onde está a prefeitura? Onde estão os órgãos que deveriam acompanhar as condições de acesso das comunidades rurais? Quantas pessoas ainda precisarão ser carregadas em redes, barcos improvisados ou no lombo de animais para que alguém perceba que o problema é grave?

O prefeito e as autoridades não podem aparecer apenas quando há festa, fotografia, inauguração ou discurso. A população do campo também paga impostos, trabalha, produz e sustenta boa parte da economia do município. E merece, no mínimo, uma estrada que permita chegar a um posto de saúde ou a um hospital quando a vida estiver em risco.

O caso do trabalhador ferido no Macauã deveria servir como um alerta brutal.

Hoje foi um homem atingido durante a derrubada de uma árvore. Amanhã pode ser uma criança passando mal, uma gestante em trabalho de parto, um idoso sofrendo um infarto ou qualquer outro morador vítima de uma emergência.

E nesses casos, não existe discurso que resolva.

Existe estrada.

Existe ramal.

Existe socorro.

E existe responsabilidade pública.

O trabalhador acabou sendo levado ao Hospital João Câncio Fernandes, em Sena Madureira. Mas a pergunta que precisa ficar é outra: quantas horas de sofrimento poderiam ter sido evitadas se houvesse um ramal em condições de permitir a chegada de um veículo de emergência?

A imagem daqueles homens carregando uma vítima em uma rede deveria constranger quem tem obrigação de cuidar da infraestrutura rural.

Porque quando o cidadão precisa caminhar por quase um dia carregando um ferido para conseguir atendimento, não é o cidadão que está devendo alguma coisa ao poder público.

É o poder público que está devendo uma resposta a ele.

VÍDEO:

Recomendado
Publicidade
Ver matéria completa no site