Antes de julgar quem balança bandeira, lembre-se: ali há um trabalhador
Passei mais de quarenta anos no meio da política. E, quando olho para trás, sinto saudade de uma época em que fazer campanha era também uma grande festa popular, uma demonstração de entusiasmo, amizade e esperança.
Eu amava estar no meio dos comícios. Subia em postes para pregar cartazes dos meus candidatos, usando a famosa mistura de Diabo Verde com goma de tapioca. Pegava barco com os amigos e subia os rios para participar de reuniões e comícios animados nas comunidades rurais. Percorria quilômetros de ramais para conversar com as pessoas, apresentar propostas e pedir votos. E, nas esquinas, balançar uma bandeira era motivo de alegria.
Naquela época, havia discussões acaloradas, é verdade. Política sempre foi assim. Mas, terminada a eleição, as pessoas voltavam a se encontrar, conversar e até trabalhar juntas. Era como se, passado o período eleitoral, todos voltassem a remar no mesmo barco.
Por isso, confesso que fico triste quando vejo algumas pessoas atacando quem está hoje nas ruas trabalhando em uma campanha política. Recentemente, vi uma postagem criticando aqueles que ficam nas esquinas balançando bandeiras para os candidatos. Chamavam essas pessoas de “puxa-sacos”, “lambe-botas” e outros adjetivos que não ajudam em nada.
É preciso compreender uma coisa muito simples: a maioria dessas pessoas está ali trabalhando.
Muitas estão ganhando um dinheirinho durante a eleição e agradecendo a Deus pela oportunidade de comprar comida para os filhos, pagar uma conta, colocar combustível no carro ou simplesmente levar algum dinheiro para dentro de casa.
Não há vergonha alguma nisso.
Em um estado onde ainda existem tantas dificuldades econômicas e tantas famílias lutando diariamente para sobreviver, um trabalho temporário pode representar muito.
Também é preciso entender a situação dos cargos comissionados. Eles não são empregos vitalícios. São funções de confiança, ocupadas temporariamente por pessoas escolhidas pelo governante ou gestor que está no poder.
Quem ocupa um cargo comissionado sabe que existe uma relação de confiança com quem o nomeou. É natural, portanto, que muitas dessas pessoas estejam ao lado de quem lhes deu a oportunidade de trabalhar.
Isso é completamente diferente de um servidor público concursado, que conquistou seu cargo por meio de concurso e não depende politicamente de quem está governando para permanecer no serviço público.
Podemos discutir se todos os nomeados possuem ou não competência para exercer suas funções. Podemos questionar escolhas políticas, critérios de nomeação e decisões administrativas. Isso faz parte da democracia.
O que não podemos é transformar trabalhadores em alvo de humilhação.
Não precisamos concordar com o candidato que aquela pessoa está defendendo. Não precisamos votar nele. Não precisamos sequer gostar da maneira como determinada campanha é conduzida.
Mas podemos respeitar quem está trabalhando.
Os cabos eleitorais, terceirizados e comissionados não são inimigos. São pessoas que, muitas vezes, estão apenas tentando garantir o sustento de suas famílias.
Eu sei disso porque já estive do outro lado da rua, literalmente. Já colei cartazes, já carreguei bandeiras, já subi rios, já percorri ramais e já vivi a política com a intensidade de quem acreditava que uma eleição podia mudar os rumos de uma cidade ou de um estado.
A política mudou. As redes sociais mudaram. A forma de fazer campanha mudou. Mas uma coisa não deveria mudar: o respeito pelas pessoas.
A eleição passa. Os candidatos ganham ou perdem. Os palanques são desmontados, as bandeiras desaparecem das esquinas e a vida continua.
Por isso, antes de chamar alguém de puxa-saco ou lambe-botas, lembre-se de que pode haver ali uma mãe tentando comprar o alimento dos filhos, um pai tentando pagar uma conta ou um trabalhador simplesmente aproveitando uma oportunidade temporária de renda.
O Acre ainda é um estado que precisa avançar muito no desenvolvimento econômico e na geração de empregos. Não podemos transformar cada oportunidade de trabalho em motivo de vergonha.
Eu já vivi muitas eleições. Já estive em muitos palanques, em muitos barcos, em muitos ramais e em muitas esquinas.
E aprendi uma coisa: podemos fazer política com paixão sem perder a humanidade.
Deixem o trabalhador balançar sua bandeira em paz.
A eleição termina. A dignidade das pessoas, não.