Na Ășltima quarta-feira (14), o governador Gladson Cameli sancionou a Lei de nÂș 3.752/2021, que obriga estabelecimentos e ĂłrgĂŁos pĂșblicos e privados a fornecerem atendimento prioritĂĄrio a pessoas com fibromialgia. A iniciativa, aprovada na Assembleia Legislativa do Acre, visa contribuir para que pacientes com esta sĂndrome tenham menor tempo de espera, inclusive em filas de pagamento, a fim de evitar dores incontrolĂĄveis que costumam aparecer sem motivos ou causas aparentes.
A sĂndrome, que nĂŁo Ă© considerada doença justamente por nĂŁo ter um tratamento especĂfico, costuma ser mais comum em mulheres atravĂ©s de dores crĂŽnicas, latejantes ou difusas. No entanto, Ă© importante ressaltar que nĂŁo Ă© uma âdoença de mulherâ, uma vez que muitas pessoas costumam associar a fibromialgia Ă âfraquezaâ ou a quaisquer dificuldades fĂsicas que mulheres podem sentir a mais que os homens.
DOENĂA SOLITĂRIA
A empresĂĄria Sara Margarido, de 33 anos, Ă© uma das pacientes que tentam lidar com a fibromialgia. Desde criança, ela tinha problemas com enxaqueca e fortes dores de cabeça. Na vida adulta, as dores começaram a se intensificar e ela começou a sentir de forma ainda mais intensa em todas as partes do corpo, com vĂĄrios pontos inflamados. âEra como se eu tivesse sido espancadaâ, contou.
Depois disto, ela se dirigiu a um reumatologista que deu um pareceu inicial, mas que nĂŁo a satisfez devido ao atendimento. âE isso Ă© algo que muitos pacientes com fibromialgia reclamam, que Ă© a falta de empatia dos mĂ©dicos. Muitos ainda nĂŁo estĂŁo preparados para lidar com pessoas com fibromialgiaâ.

Sara Margarido sofre coma doença e demorou anos para ter o diagnĂłstico das dores que sentiu a vida inteiro: âEra como se eu tivesse sido espancadaâ/Foto: arquivo pessoal
Sara diz também que fadiga, falta de ar, problemas de memória, ansiedade e depressão costumam estar associadas à fibromialgia, mesmo que não seja, necessariamente, uma regra para todos os pacientes. Além disso, contou que, salvas poucas exceçÔes, não existe um momento sequer que a dor não esteja presente, mesmo que de forma suportåvel.
âCostumamos dizer que (a fibromialgia) Ă© uma doença muito solitĂĄria. Muitas pessoas acham que Ă© frescura, preguiça. Tem crises que eu nĂŁo consigo nem levantar na cama, e nĂŁo sĂŁo apenas dores. SĂŁo dormĂȘncias e hematomas que tambĂ©m aparecem. A gente estĂĄ fazendo alguma coisa e, de repente, Ă© como se tivesse levando uma facada nas costas com as doresâ.
DIFICULDADE EM DESEMPENHAR RACIOCĂNIO LĂGICO
A paciente Hellen LirtĂȘz, que descobriu a fibromialgia aos 18 anos, estĂĄ aprendendo âa conviver com a dorâ hĂĄ mais de 2 anos em decorrĂȘncia de estresses pĂłs-traumĂĄticos, depressĂŁo e ansiedade. Como nĂŁo sabia, inicialmente, o que era, ela sentia muitas dores, tremores, febres reumĂĄticas, chegando atĂ© a ter problemas de sentir dor com a ĂĄgua do banho no corpo e de ter crises durante as aulas na faculdade. âComecei a ficar de cama por muito tempo, nos primeiros perĂodos da faculdade foram bem tensos porque eu fiquei muito debilitada, pois a fibromialgia causa algumas confusĂ”es mentais, entĂŁo eu tinha dificuldade atĂ© de desempenhar um raciocĂnio lĂłgico sobre as coisasâ, diz.
A estudante conta que jĂĄ chegou a tomar banho com ajuda da mĂŁe. âEu tive um momento da fibromialgia que precisei que minha mĂŁe me levasse atĂ© ao banheiro para que, com todo o cuidado, eu ficasse debaixo do chuveiro para tomar banho. Eu sentia muita dor sĂł de tocarem em mim, Ă© como se estivessem enfiando uma faca em mim, ou me recuperando de uma surraâ.
DOENĂA CARA
Por ser uma sĂndrome tambĂ©m psicossomĂĄtica, Sara faz acompanhamento multidisciplinar com psiquiatra atravĂ©s de antidepressivos; e com fisioterapeuta, pois Ă© importante que haja movimentação do corpo atravĂ©s de exercĂcios fĂsicos. Sara disse que a alimentação tambĂ©m Ă© importantĂssima para que os impactos da fibromialgia sejam cada vez menores. âTemos que ter muito cuidado com o que estamos comendo: glĂșten, lactose, tudo entra nestas restriçÔes alimentaresâ.
Ă importante destacar que nĂŁo existe um tratamento especĂfico para fibromialgia, mas sim para amenizar alguns sintomas. Sobre isso, a empresĂĄria falou que jĂĄ chegou a tomar um coquetel de dez remĂ©dios que, posteriormente, ocasionou um problema no fĂgado. AlĂ©m disto, ela chega a gastar mais de R$1 mil por mĂȘs para se cuidar da maneira adequada. âTem muita gente que faz vaquinha, o Estado nĂŁo oferece todos os medicamentos, e muitas pessoas estĂŁo sem fazer tratamento porque nĂŁo tem como pagar, essa Ă© a realidade. Ă uma doença difĂcil, solitĂĄria e caraâ.
NUTRICIONISTA
Segundo a nutricionista e acupunturista Meyrele Souza, o processo de cuidados adotados pela ĂĄrea da nutrição para pacientes com fibromialgia depende de cada caso clĂnico, mas que sempre hĂĄ a necessidade de se retirar algo da rotina alimentar. âĂ importante que os portadores da fibromialgia façam um tratamento nutricional para mudar os hĂĄbitos alimentares e para intervir em fatores com base agravantes da doença, como por exemplo a inflamação sistĂȘmica, o aumento de gordura corporal e o sedentarismoâ.
A profissional comenta que a ideia das recomendaçÔes Ă© de, justamente, garantir uma melhor qualidade de vida para os pacientes. âNĂłs, nutricionistas, podemos ajudar atravĂ©s de intervençÔes nutricionais para que os impactos da fibromialgia sejam menores, dando maior importĂąncia Ă prestação de aconselhamento e de apoio, nĂŁo sĂł apenas na adequação das necessidades nutricionais, mas orientando o paciente e sua famĂlia sobre a terapia nutricional em uso, alĂ©m de fornecer orientaçÔes e esclarecimentos, a fim de prolongar a sobrevida, e melhorar a qualidade de vida destes pacientesâ.
USO DE CANNABIDIOL
O tratamento que mais viabiliza o alĂvio de dores estĂĄ relacionado com o Cannabidiol, um dos componentes da Cannabis sativa. Em uma enciclopĂ©dia antiga escrita jĂĄ no primeiro sĂ©culo d.C por DioscĂłrides, chamada âDe MatĂ©ria MĂ©dicaâ, jĂĄ citava a Cannabis como uma planta medicinal para tratar inflamaçÔes e dores articulares.
Hellen fala que, por ser mais nova, talvez nĂŁo teria prioridade nesse tipo de atendimento. âComo a gente estĂĄ no Brasil e ainda hĂĄ questĂ”es por trĂĄs do uso da maconha para fins medicinais, poucos pacientes tĂȘm acesso. Como eu tenho 20 anos, eles nunca dariam prioridade para minha situaçãoâ.

Remédio a base de Cannabidiol que Sara estå fazendo uso foi importado dos EUA/Foto: arquivo pessoal
Recentemente, Sara iniciou o uso de remĂ©dio a base de Cannabidiol que custa em mĂ©dia R$980. âHoje em dia, estou começando um tratamento com CBD. Consegui uma autorização na Anvisa, importei dos Estados Unidos, e tem se mostrado bem eficaz. Estou tomando hĂĄ 1 semana, melhorei em muitas dores, nĂŁo tive crise e vou começar a fazer o desmame de outras medicaçÔes. Ă um tratamento para vida inteiraâ.
LEI APROVADA
Sara andava com um laudo atestando a sĂndrome e agora vai fazer uma carteirinha para que ela seja beneficiada com a lei. âĂ um avanço, uma vitĂłria. NĂŁo precisar ficar em pĂ© em uma fila faz uma grande diferença no nosso dia, e começar a ser visto pelo Poder PĂșblico Ă© muito bom porque isto Ă© uma coisa que nĂłs somos muito carentes. Mas a luta nĂŁo paraâ.
Para Hellen, a lei aprovada tem grande importĂąncia visto que as pessoas ainda desconhecem a fibromialgia. âExiste um sofrimento em silĂȘncio em vĂĄrios locais pĂșblicos, e no trabalho tambĂ©m, por exemplo. Como Ă© que vai explicar para o chefe que vocĂȘ nĂŁo estĂĄ conseguindo levantar da cama? E que as costas estĂŁo pesadas? Poucas pessoas, de fato, conhecem a fibromialgia, e levando uma questĂŁo dessas ao pĂșblico, pode fazer com que eles tenham mais empatia para com a genteâ.


