A pesquisa Quaest divulgada nesta semana ajuda a colocar em perspectiva uma característica conhecida da política acreana: o estado continua fortemente identificado com o bolsonarismo, mas o tamanho dessa vantagem precisa ser comparado com o que aconteceu nas urnas, e não apenas com discursos políticos.
Na disputa presidencial, Flávio Bolsonaro aparece quase 20 pontos à frente de Lula no Acre. É uma vantagem expressiva e mostra que o petista ainda enfrenta dificuldades para recuperar terreno em um estado onde o bolsonarismo construiu uma das suas bases eleitorais mais sólidas.
Mas há um detalhe importante nessa fotografia: a diferença é menor do que aquela registrada nas urnas em 2022.
Naquele segundo turno, Jair Bolsonaro teve 70,30% dos votos válidos no Acre, contra 29,70% de Lula. Foram 40,6 pontos de vantagem para o então candidato do PL.
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A Quaest, portanto, mostra um cenário ainda favorável ao campo bolsonarista, mas não reproduz, neste momento, a mesma distância que Bolsonaro conseguiu construir nas urnas quatro anos atrás.
Isso não é pouca coisa
O Acre é um dos estados em que Lula encontra maior resistência eleitoral. E existe um dado histórico que ajuda a entender por que o discurso de que o petista “nunca ganhou no Acre” é equivocado, embora seja correto dizer que ele não vence uma eleição presidencial no estado há duas décadas.
Lula ganhou no Acre em 2002 e 2006, sempre no segundo turno. Em 2002, derrotou José Serra por 59,93% a 40,07%. Em 2006, depois de perder o primeiro turno para Geraldo Alckmin, conseguiu virar o jogo e terminou com 52,36%, contra 47,64% do tucano.
Desde então, porém, o cenário mudou completamente.
Em 2010, Dilma Rousseff perdeu no Acre. Em 2014, também. A partir de 2018, o eleitorado acreano seguiu o caminho e se alinhou de forma muito mais clara à direita. Jair Bolsonaro venceu o estado naquele ano e repetiu a vitória em 2022, quando alcançou uma das maiores vantagens do país sobre Lula.
É nesse contexto que a pesquisa de 2026 precisa ser lida
Flávio Bolsonaro não parte do zero. Ele herda uma marca eleitoral construída pelo pai e que permanece muito forte no estado. A quase liderança de 20 pontos sobre Lula mostra que, mesmo sem reproduzir os 40,6 pontos de vantagem de Bolsonaro em 2022, o campo bolsonarista continua largamente à frente.
Mas há uma diferença entre dizer que o Acre continua bolsonarista e concluir que o resultado de 2022 está automaticamente contratado para 2026. Não está.
Uma eleição presidencial tem variáveis próprias. O candidato, a conjuntura nacional, a avaliação do governo, a presença dos nomes na campanha e, principalmente, o segundo turno podem alterar a fotografia.
E o próprio histórico do Acre recomenda cautela
Em 2006, Lula perdeu o primeiro turno e venceu o segundo. O eleitor que naquele momento havia escolhido Alckmin mudou de posição na etapa decisiva. Isso não significa que a mesma coisa vá acontecer agora, seria uma extrapolação que a pesquisa não permite, mas mostra que o comportamento do eleitor acreano não é necessariamente imóvel.
Por isso, talvez o dado mais interessante da Quaest não seja simplesmente “Flávio está na frente de Lula”.
Isso já era esperado diante do histórico recente.
O que merece atenção é o tamanho da vantagem
Quase 20 pontos é uma distância grande o suficiente para confirmar a força do bolsonarismo no Acre. Ao mesmo tempo, é uma distância aproximadamente 20 pontos menor do que a registrada entre Bolsonaro e Lula no segundo turno de 2022.
A fotografia atual, portanto, é de um Acre ainda majoritariamente alinhado à direita, mas com uma diferença que, pelo menos neste momento, não alcança a dimensão da eleição anterior.
E há uma segunda camada nessa história: Lula pode não vencer uma eleição presidencial no Acre desde 2006, mas já venceu duas vezes. Transformar o passado recente em uma regra permanente pode ser politicamente conveniente, mas não resiste aos resultados das urnas.
Em política, especialmente em ano eleitoral, a diferença entre uma tendência e uma certeza costuma aparecer justamente onde menos se espera: na urna.
Por enquanto, a Quaest dá a Flávio uma vantagem confortável. O desafio de Lula é transformar essa distância menor que a de 2022 em uma tendência de redução e não apenas em uma fotografia isolada de agosto.
