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Wania Pinheiro

Nem Lula, nem Bolsonaro: Vorcaro conseguiu unir esquerda e direita

Por Wania Pinheiro, ContilNet 04/09/2026 14:08
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O Brasil passou anos tentando encontrar uma fórmula para unir esquerda e direita. Já tivemos frente ampla, alianças improváveis, coalizões, acordos de ocasião e até políticos que juraram que jamais sentariam à mesma mesa com o adversário, até aparecer a próxima eleição.

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Mas, ao que parece , a política brasileira finalmente encontrou quem conseguiu realizar a façanha.

Vorcaro.

O homem que, pelo menos no imaginário da política nacional, descobriu uma coisa que nem Lula, nem Bolsonaro, nem FHC, nem ninguém conseguiu: fazer esquerda e direita falarem a mesma língua.

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E não precisou criar partido, lançar candidatura ou discursar na televisão.

Bastou circular.

Porque, quando o assunto é Vorcaro, a impressão que fica é que a ideologia política brasileira sofre de uma curiosa amnésia seletiva. De um lado, estão os que passaram anos dizendo que a direita é isso, que a esquerda é aquilo. Do outro, os que fazem exatamente a mesma coisa, só que com o sinal trocado.

Mas quando aparece a palavra “negócio”, parece que o vermelho e o azul começam a ficar meio parecidos.

É quase uma experiência científica.

Coloque um político de esquerda e um político de direita numa sala. Dê a eles uma pauta sobre costumes, economia ou eleições. É provável que discordem de tudo.

Agora coloque um assunto envolvendo dinheiro, bancos, empresários e interesses.

De repente, surge uma impressionante capacidade de convergência.

É claro que é preciso fazer uma ressalva: ter relação, conhecer, conversar ou fazer negócios com alguém não significa, por si só, cometer qualquer irregularidade. Política e setor privado inevitavelmente se encontram. O problema começa quando relações precisam ser explicadas, e ninguém quer explicar.

E é justamente aí que entra a parte mais engraçada dessa história.

O Brasil inventou a polarização permanente. O eleitor briga com o cunhado, bloqueia o amigo, desfaz amizade de infância e quase pede divórcio por causa de eleição.

Enquanto isso, nos corredores do poder, às vezes parece existir uma espécie de “República do Todo Mundo Se Conhece”.

A esquerda acusa a direita.

A direita acusa a esquerda.

E Vorcaro, olhando tudo de camarote, talvez pudesse perguntar:

“Mas vocês não eram inimigos?”

A resposta seria simples:

“Na televisão, meu caro. Na política, a conversa é outra.”

Se existe uma coisa que a história política brasileira ensina é que ideologia costuma ser muito firme até chegar a época de eleição. Depois, dependendo da circunstância, aparecem alianças que fariam até Maquiavel pedir explicações.

E talvez seja essa a verdadeira façanha de Vorcaro: não ter unido esquerda e direita por convicção, mas ter mostrado que, quando determinados interesses entram em cena, a distância ideológica pode diminuir consideravelmente.

O mais curioso é observar a indignação seletiva.

Quando o adversário aparece ao lado de determinado empresário, é escândalo.

Quando o amigo aparece na mesma fotografia, é relacionamento institucional.

Quando o adversário faz negócio, é suspeito.

Quando o aliado faz, é “atividade empresarial”.

Quando acontece com o outro lado, pede-se CPI.

Quando acontece com o próprio lado, pede-se prudência.

E assim seguimos.

O eleitor brasileiro continua brigando para decidir se o país deve andar para a esquerda ou para a direita.

Enquanto isso, alguns personagens parecem conhecer um atalho muito mais eficiente:

andar para o lado de quem está com a caneta.

Talvez Vorcaro tenha descoberto a maior verdade da política brasileira: esquerda e direita podem discordar sobre quase tudo, mas ninguém discorda de uma boa oportunidade de negócio.

No fim, a grande frente ampla do Brasil pode não estar no Congresso, nem nos palanques.

Pode estar nos encontros reservados, nas relações empresariais, nas agendas e nas fotografias que aparecem de tempos em tempos.

E aí está a ironia:

o Brasil que não consegue unir os brasileiros conseguiu unir políticos.

De esquerda, de direita, de centro, de cima, de baixo…

Quando o assunto é Vorcaro, esquerda e direita descobrem que o muro ideológico tem uma porta, e parece que todo mundo sabe onde fica a chave.

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