Nem Lula, nem Bolsonaro: Vorcaro conseguiu unir esquerda e direita
O Brasil passou anos tentando encontrar uma fórmula para unir esquerda e direita. Já tivemos frente ampla, alianças improváveis, coalizões, acordos de ocasião e até políticos que juraram que jamais sentariam à mesma mesa com o adversário, até aparecer a próxima eleição.
Mas, ao que parece , a política brasileira finalmente encontrou quem conseguiu realizar a façanha.
Vorcaro.
O homem que, pelo menos no imaginário da política nacional, descobriu uma coisa que nem Lula, nem Bolsonaro, nem FHC, nem ninguém conseguiu: fazer esquerda e direita falarem a mesma língua.
E não precisou criar partido, lançar candidatura ou discursar na televisão.
Bastou circular.
Porque, quando o assunto é Vorcaro, a impressão que fica é que a ideologia política brasileira sofre de uma curiosa amnésia seletiva. De um lado, estão os que passaram anos dizendo que a direita é isso, que a esquerda é aquilo. Do outro, os que fazem exatamente a mesma coisa, só que com o sinal trocado.
Mas quando aparece a palavra “negócio”, parece que o vermelho e o azul começam a ficar meio parecidos.
É quase uma experiência científica.
Coloque um político de esquerda e um político de direita numa sala. Dê a eles uma pauta sobre costumes, economia ou eleições. É provável que discordem de tudo.
Agora coloque um assunto envolvendo dinheiro, bancos, empresários e interesses.
De repente, surge uma impressionante capacidade de convergência.
É claro que é preciso fazer uma ressalva: ter relação, conhecer, conversar ou fazer negócios com alguém não significa, por si só, cometer qualquer irregularidade. Política e setor privado inevitavelmente se encontram. O problema começa quando relações precisam ser explicadas, e ninguém quer explicar.
E é justamente aí que entra a parte mais engraçada dessa história.
O Brasil inventou a polarização permanente. O eleitor briga com o cunhado, bloqueia o amigo, desfaz amizade de infância e quase pede divórcio por causa de eleição.
Enquanto isso, nos corredores do poder, às vezes parece existir uma espécie de “República do Todo Mundo Se Conhece”.
A esquerda acusa a direita.
A direita acusa a esquerda.
E Vorcaro, olhando tudo de camarote, talvez pudesse perguntar:
“Mas vocês não eram inimigos?”
A resposta seria simples:
“Na televisão, meu caro. Na política, a conversa é outra.”
Se existe uma coisa que a história política brasileira ensina é que ideologia costuma ser muito firme até chegar a época de eleição. Depois, dependendo da circunstância, aparecem alianças que fariam até Maquiavel pedir explicações.
E talvez seja essa a verdadeira façanha de Vorcaro: não ter unido esquerda e direita por convicção, mas ter mostrado que, quando determinados interesses entram em cena, a distância ideológica pode diminuir consideravelmente.
O mais curioso é observar a indignação seletiva.
Quando o adversário aparece ao lado de determinado empresário, é escândalo.
Quando o amigo aparece na mesma fotografia, é relacionamento institucional.
Quando o adversário faz negócio, é suspeito.
Quando o aliado faz, é “atividade empresarial”.
Quando acontece com o outro lado, pede-se CPI.
Quando acontece com o próprio lado, pede-se prudência.
E assim seguimos.
O eleitor brasileiro continua brigando para decidir se o país deve andar para a esquerda ou para a direita.
Enquanto isso, alguns personagens parecem conhecer um atalho muito mais eficiente:
andar para o lado de quem está com a caneta.
Talvez Vorcaro tenha descoberto a maior verdade da política brasileira: esquerda e direita podem discordar sobre quase tudo, mas ninguém discorda de uma boa oportunidade de negócio.
No fim, a grande frente ampla do Brasil pode não estar no Congresso, nem nos palanques.
Pode estar nos encontros reservados, nas relações empresariais, nas agendas e nas fotografias que aparecem de tempos em tempos.
E aí está a ironia:
o Brasil que não consegue unir os brasileiros conseguiu unir políticos.
De esquerda, de direita, de centro, de cima, de baixo…
Quando o assunto é Vorcaro, esquerda e direita descobrem que o muro ideológico tem uma porta, e parece que todo mundo sabe onde fica a chave.