PGR reage e abre novo front na crise entre Moraes e Mendonça
O caso envolvendo Alexandre de Moraes, André Mendonça e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro ganhou nesta terça-feira (1º) um desdobramento que muda o centro da disputa: agora, além do conteúdo das mensagens encontradas pela Polícia Federal (PF), está em jogo a própria validade da investigação que levou Moraes ao relatório.
A Procuradoria-Geral da República (PGR), comandada por Paulo Gonet, pediu a nulidade do relatório da PF que reuniu as mensagens atribuídas a Vorcaro e identificou Moraes como destinatário. Para Gonet, Mendonça ultrapassou os limites de sua atuação ao determinar que a Polícia Federal aprofundasse a apuração para descobrir quem era o interlocutor do banqueiro.
O argumento da PGR cria uma situação incomum dentro do Supremo Tribunal Federal (STF): enquanto Mendonça entende que os novos elementos precisam ser examinados pela própria Corte, Gonet sustenta que a maneira como as informações foram obtidas e aprofundadas torna o procedimento nulo.
E o conteúdo que deu origem à disputa é pesado.
O procurador-geral da República, Paulo Gonet, pediu nesta terça-feira (1º) a nulidade do relatório da PF e questionou a competência de Mendonça para determinar a investigação/Foto: Reprodução
O que a PF encontrou
A Polícia Federal analisou o celular de Daniel Vorcaro, preso no âmbito das investigações envolvendo o Banco Master. Entre os dados recuperados estavam mensagens escritas pelo banqueiro em seu bloco de notas, transformadas em capturas de tela e enviadas pelo WhatsApp com visualização única.
A técnica dificultava a recuperação das conversas. Mesmo assim, a PF conseguiu reconstruir a sequência dos arquivos e identificar que os textos eram enviados para um número associado a Alexandre de Moraes.
Em uma das mensagens, datada de 30 de outubro de 2025, Vorcaro demonstrava preocupação com uma possível ofensiva contra ele e o Banco Master e pedia a Moraes que reforçasse contatos com Andrei Rodrigues, diretor-geral da PF, e Paulo Gonet.
“É importante reforçar com Andrei e Paulo pra nao deixar ninguem de baixo fazer uma sacanagem que ai vai tudo pro saco.”
Na mesma conversa, Vorcaro afirmava estar disposto a explicar a situação e dizia que enviaria nomes de pessoas que estariam indo ao Banco Central.
A PF identificou “Andrei” como Andrei Rodrigues e “Paulo” como Paulo Gonet. “G”, segundo a investigação, seria uma referência a Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central.
O ponto que ainda não está esclarecido é fundamental: as respostas de Moraes não foram recuperadas. Segundo a PF, Vorcaro e o interlocutor utilizavam o sistema de escrever as mensagens em notas, fazer capturas de tela e enviá-las com visualização única. O celular de Vorcaro preservou os registros enviados por ele, mas não as respostas recebidas.
Vorcaro perguntou se deveria deixar o país
Outro trecho das mensagens chama atenção pelo momento em que ocorreu.
Dois dias antes de ser preso, em novembro de 2025, Vorcaro perguntou a Moraes:
“Acha que segunda já tenho que estar fora?”
No dia seguinte, voltou a procurar o ministro:
“Você acha que existe alguma chance disso acontecer amanhã de manhã?”
Em 17 de novembro, data em que acabou preso pela Polícia Federal, o banqueiro voltou a perguntar se havia alguma novidade e se Moraes havia conseguido “ter notícia ou bloquear”.
As mensagens, por si só, não demonstram qual teria sido a resposta de Moraes ou se alguma providência foi tomada pelo ministro. Essa é uma das lacunas que permanecem no material divulgado.
O contrato de R$ 131 milhões
A investigação também trouxe para o centro da crise o escritório Barci de Moraes, comandado por Viviane Barci de Moraes, esposa de Alexandre de Moraes.
O Banco Master mantinha um contrato com a banca que chegou a R$ 131 milhões. Em um dos registros analisados pela PF, Vorcaro cobrava funcionários para que os pagamentos ao escritório não atrasassem.
“Romy esse Barci de Moraes por favor não deixe atrasar um dia, coloca no seu controle. É o pgto mais importante que temos.”
Em seguida, escreveu:
“Pode pagar sempre, sem nota.”
A PF também identificou uma transferência de R$ 3.422.268,14 para a conta do escritório.
Os metadados do contrato apontaram ainda que Alexandre de Moraes havia editado a versão final do documento antes da assinatura. O escritório afirma que consultou o ministro sobre possíveis impedimentos legais e que não havia restrição para a contratação.
A disputa chegou ao próprio STF
Foi justamente a identificação de Moraes como interlocutor que levou Mendonça a determinar o aprofundamento da investigação.
O ministro agora avalia se Moraes deve ser incluído na apuração do caso Master e retirou o sigilo do procedimento. A decisão também abriu caminho para que os integrantes do STF tenham acesso aos elementos reunidos pela PF.
Mendonça defende que o plenário do Supremo analise os novos elementos de forma pública e decida o que fazer com as informações.
A PGR, porém, apresentou uma objeção de natureza processual. Para Paulo Gonet, não caberia a Mendonça determinar, por conta própria, que a PF aprofundasse a investigação especificamente sobre um ministro do STF.
É essa divergência que agora ameaça transformar o caso Master em uma disputa institucional dentro da própria Corte.
E a conversa entre os ministros?
Antes da manifestação da PGR, Moraes e Mendonça já haviam protagonizado uma conversa descrita por fontes como “direta, dura e ríspida”.
O encontro ocorreu depois que Moraes tomou conhecimento de que Mendonça havia determinado a identificação do interlocutor de Vorcaro.
Segundo o relato publicado pela coluna de Andreza Matais, do Metrópoles, Mendonça questionou Moraes sobre como ele havia descoberto uma investigação que tramitava sob sigilo.
A resposta atribuída ao ministro foi:
“Eu tenho minhas fontes. Fui ministro da Justiça”.
Moraes teria acusado Mendonça de direcionar a apuração contra ele. O episódio aumentou a tensão entre os dois ministros, mas as informações sobre o teor da conversa foram atribuídas a fontes e não houve confirmação pública dos dois sobre todos os detalhes.
Agora, porém, o embate ganhou uma dimensão maior.
De um lado, estão as mensagens recuperadas pela PF, o contrato milionário e os contatos entre Vorcaro e Moraes. Do outro, está a contestação da PGR sobre a legalidade da investigação e a decisão de Mendonça de levar os novos elementos para análise do Supremo.
O próximo movimento depende justamente dessa queda de braço: o conteúdo das mensagens será analisado ou o relatório que as reuniu será considerado nulo?
É essa resposta que pode definir o próximo capítulo da crise no STF.
Fonte principal de informações: BBC Brasil