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Uma eleição sem paixão, poucos adesivos e muita desconfiança

Por Wania Pinheiro, ContilNet 11/09/2026 11:32 Atualizado em 11/09/2026 11:33
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Nunca tinha visto isso no Acre.

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Faltando apenas 24 dias para as eleições, uma coisa chama atenção de quem anda pelas ruas de Rio Branco: a maioria dos carros e das motos está sem adesivo de candidato.

E isso, para quem conhece um pouco da história política deste Estado, não é um detalhe qualquer.

O maior volume que se vê hoje é de veículos com o nome da candidata Mailza Assis. Em outros, aparecem apenas adesivos de candidatos proporcionais. Mas aquela velha explosão de propaganda política, que transformava as ruas em uma espécie de outdoor ambulante, simplesmente desapareceu.

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Na época em que a política fervia no Acre, era diferente.

A gente via carro adesivado, moto adesivada, caminhão adesivado e até bicicleta de criança carregando o nome do candidato. Bicicletas e velocípedes! As crianças entravam na brincadeira sem entender direito o que estava acontecendo, mas entendendo perfeitamente que eleição era um acontecimento.

A cidade ficava colorida.

As esquinas eram pontos de encontro. As pessoas paravam para conversar sobre política. Quem estava crescendo, quem estava caindo, quem tinha chance, quem não tinha. Nas rodas de conversa, cada cidadão parecia ter um instituto de pesquisa próprio.

E havia os barzinhos da moda.

Eles lotavam de cabos eleitorais, amigos de candidatos e militantes com os peitos cobertos de adesivos. Era gente discutindo eleição até tarde, defendendo seus candidatos, fazendo contas e apostando no resultado.

Hoje, até os cabos eleitorais parecem diferentes.

Eles continuam nas esquinas, levantando bandeiras e cumprindo sua jornada. Mas, muitas vezes, não estão ali movidos pela paixão por um candidato ou por uma ideologia.

Estão trabalhando.

Estão ali para ganhar o pão de cada dia.

E não há nada de errado nisso. Para muita gente, uma eleição representa justamente uma oportunidade temporária de colocar algum dinheiro dentro de casa. A bandeira levantada na esquina é, antes de qualquer coisa, um trabalho.

Mas até isso revela alguma coisa sobre os tempos atuais.

Antigamente, havia uma multidão que fazia campanha porque acreditava. Hoje, em muitos lugares, é preciso contratar gente para fazer aquilo que antes era feito espontaneamente por amigos, simpatizantes e militantes.

A paixão política diminuiu.

E talvez tenha diminuído porque a confiança também diminuiu.

Hoje, vejo principalmente o trabalhador seguindo sua rotina sem demonstrar grande interesse pelo processo eleitoral. Vejo uma população muito mais silenciosa. E, talvez mais preocupante ainda, vejo muita gente com um olhar desconfiado.

É claro que não dá para transformar uma impressão de rua em pesquisa eleitoral. Mas também seria ingenuidade fingir que esse silêncio não significa alguma coisa.

Pode ser cansaço. Pode ser decepção. Pode ser desinteresse. Pode ser simplesmente a mudança na maneira como as pessoas fazem política, cada vez mais concentrada nas redes sociais.

Mas acredito que existe algo maior por trás disso: o desencanto.

O brasileiro está cansado de assistir ao espetáculo que acontece longe daqui.

Brasília virou um caldeirão.

E parece que, a cada dia, alguém abre a tampa e aparece mais um personagem chafurdando no lamaçal da política nacional. Escândalo, investigação, denúncia, corrupção, negócios nebulosos, disputas de poder e uma sucessão de episódios que fazem o cidadão comum olhar para tudo isso e perguntar:

Em quem ainda dá para acreditar?

Talvez seja essa a pergunta que esteja atravessando silenciosamente as ruas do Acre.

O eleitor não necessariamente deixou de observar a política. Talvez esteja apenas cansado de falar.

Está olhando. Está desconfiado. Está esperando.

E isso pode ser muito mais perigoso para quem disputa uma eleição do que uma multidão fazendo barulho.

Porque o eleitor apaixonado grita, briga, veste a camisa, cola adesivo no carro e defende seu candidato até o último minuto.

O eleitor decepcionado faz outra coisa.

Ele fica calado.

E ninguém sabe exatamente o que esse silêncio está dizendo.

Faltam 24 dias para as urnas.

Ainda há tempo para as campanhas ganharem as ruas, para os candidatos conquistarem corações e para o eleitor decidir seu voto.

Mas uma coisa já mudou. Aquela velha política que ocupava as calçadas, os bares, as esquinas, os carros, as motos e até as bicicletas das crianças não está mais aí com a mesma força.

O Acre parece estar olhando para esta eleição com os braços cruzados.

E quando um povo que sempre gostou tanto de discutir política prefere ficar em silêncio, talvez seja hora de os políticos pararem de falar por alguns minutos e começarem a escutar.

Porque, às vezes, o silêncio de uma população diz muito mais do que uma multidão gritando.

Que Deus tenha piedade de nós.

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