30/08/2026

Acre entra no período mais crítico da seca com rios em baixa, calor e pouca chuva

O cenário climático para agosto, setembro e outubro aponta para chuvas abaixo da média e temperaturas acima do normal

Por Redação ContilNet
A Defesa Civil segue monitorando o cenário com atenção e alerta para os impactos da seca prolongada/ Foto: ContilNet

O Acre chega ao fim de agosto com uma combinação de indicadores que mantém o estado em alerta para os efeitos da estiagem: rios abaixo das cotas de referência, pouca chuva registrada nos últimos dias, previsão de precipitações abaixo da média e temperaturas acima do normal para os próximos meses.

Os números dos últimos boletins hidrometeorológicos da Secretaria de Estado do Meio Ambiente (Sema) mostram que a situação dos rios varia de uma região para outra, mas o comportamento da Bacia do Rio Acre chama atenção. Em Rio Branco, por exemplo, o manancial continua abaixo da cota de estiagem e voltou a perder nível depois de uma breve recuperação.

A série dos boletins mostra essa oscilação. Em 21 de agosto, o Rio Acre estava em 2,07 metros na capital. No dia 24, subiu para 2,23 metros e, no dia seguinte, chegou a 2,38 metros. Já em 26 de agosto, voltou a cair, para 2,34 metros.

A cota de estiagem definida para a estação de Rio Branco é de 2,69 metros. Portanto, mesmo no ponto mais alto registrado nesses últimos dias, o rio permaneceu 31 centímetros abaixo do nível considerado de estiagem.

Mesmo sem chuva, Rio Acre apresenta alta na capital; veja os números

Rio Acre enfrenta período crítico/ Foto: Marcos Vicentti/Secom

Rio Branco não é o único ponto de atenção

Os números mais recentes da Sema mostram que outros pontos da Bacia do Rio Acre também estão abaixo das respectivas cotas de estiagem.

Em 26 de agosto, o Rio Acre marcava:

  • 1,13 m em Brasileia, cuja cota de estiagem é 3,50 m;
  • 2,02 m em Xapuri, com cota de estiagem de 2,20 m;
  • 1,92 m em Capixaba, cuja referência de estiagem é 3,50 m;
  • 0,54 m em Espalha, diante de uma cota de estiagem de 3,00 m;
  • 1,00 m no Riozinho do Rola, cuja cota de estiagem é 3,00 m;
  • 2,15 m em Porto Acre, com cota de estiagem de 2,00 m;
  • 3,29 m em Plácido de Castro, cuja referência é 2,00 m.

Em outras palavras, entre os pontos monitorados da Bacia do Rio Acre, vários seguem em níveis bastante inferiores às referências de estiagem estabelecidas para cada estação.

O caso de Brasileia é especialmente expressivo. O município estava com 1,13 metro, enquanto a cota de estiagem é de 3,50 metros — uma diferença de 2,37 metros.

Em Xapuri, o nível estava apenas 18 centímetros abaixo da cota de estiagem. Já em Capixaba, a diferença chegava a 1,58 metro.

Pequena recuperação não mudou o cenário

Os boletins mostram que os rios chegaram a responder a episódios pontuais de chuva, mas as elevações foram insuficientes para mudar o quadro geral.

No dia 20 de agosto, por exemplo, a ANA registrou 18,8 mm de chuva em Brasileia, 21,8 mm em Espalha e 21 mm em Plácido de Castro nas 24 horas anteriores. Em consequência, alguns rios apresentaram elevação.

No dia seguinte, porém, o boletim já registrava redução em pontos como Rio Branco, Capixaba e Riozinho do Rola. Em Rio Branco, o nível passou de 2,10 metros para 2,07 metros.

Em 24 de agosto, cinco das estações da Bacia do Rio Acre registraram queda. No dia 25, outras seis apresentaram redução. E, em 26 de agosto, a Sema informou que a maioria das plataformas voltou a registrar redução, com exceção de Porto Acre. Aldeia dos Patos e Assis Brasil permaneceram estáveis.

O detalhe mais importante é que, nos dias 24, 25 e 26 de agosto, não houve registro significativo de chuva nas últimas 24 horas, segundo os dados da ANA e do CEMADEN utilizados pela Sema.

Temperaturas devem chegar a 38 graus nos próximos dias/Foto: ContilNet

Quanto choveu em agosto?

Os próprios boletins ajudam a dimensionar a irregularidade das chuvas.

Até a leitura de 26 de agosto, os acumulados de agosto nas estações da Bacia do Rio Acre eram:

Localidade Chuva acumulada em agosto
Assis Brasil 93,0 mm
Brasileia 93,0 mm
Xapuri 83,6 mm
Plácido de Castro 91,4 mm
Rio Branco 45,0 mm
Aldeia dos Patos 48,4 mm
Riozinho do Rola 48,4 mm
Porto Acre 51,2 mm
Capixaba 37,4 mm
Espalha 21,8 mm
Colônia Dolores 11,2 mm

Os números revelam uma diferença enorme entre os pontos monitorados. Enquanto algumas áreas ultrapassaram 90 mm no mês, Espalha acumulava apenas 21,8 mm e Colônia Dolores, 11,2 mm até a leitura do dia 26.

Previsão é de mais pouca chuva

O cenário futuro também não favorece uma recuperação rápida dos rios.

O boletim mais recente da Sema aponta que, entre 26 de agosto e 1º de setembro, a previsão é de apenas 1 a 20 mm de chuva no Acre.

Além do baixo volume, o prognóstico do NCEP/GFS indica anomalia negativa de precipitação em quase todo o estado, o que significa possibilidade de chuva abaixo da média esperada para o período.

A área que mais chama atenção no mapa de previsão se estende de Cruzeiro do Sul a Manoel Urbano. Apenas uma área pontual de Epitaciolândia aparece com indicativo de chuva acima da média.

E o problema não está restrito aos próximos sete dias.

Para o trimestre agosto, setembro e outubro, o prognóstico climático utilizado pela Sema aponta chuvas abaixo da média histórica no Acre. Ao mesmo tempo, há previsão de temperaturas acima da média histórica em toda a Amazônia Legal.

El Niño se intensifica nos próximos meses/Foto: Juan VIcent Diaz

El Niño entra na conta

O relatório também aponta uma mudança importante nas condições do Pacífico Equatorial.

Segundo o Censipam, houve intensificação e expansão das anomalias positivas da temperatura da superfície do mar, principalmente na região centro-leste do Pacífico. O documento aponta sinais de consolidação do El Niño e fortalecimento do acoplamento entre oceano e atmosfera.

De acordo com a análise, esse padrão pode favorecer o deslocamento da Zona de Convergência Intertropical para uma posição mais ao norte, prejudicando a distribuição das chuvas sobre o extremo norte da Amazônia.

Purus também apresenta níveis baixos

O problema não está concentrado apenas na Bacia do Rio Acre.

Na Bacia do Purus, em 26 de agosto, o Rio Iaco, em Sena Madureira, estava em 1,23 metro, abaixo da cota de estiagem de 2 metros.

O nível havia sido de 1,15 metro no dia 21, mostrando que o manancial chegou a registrar uma pequena recuperação, mas continuou abaixo da referência de estiagem.

Em Manoel Urbano, o rio estava em 3,11 metros, enquanto a cota de estiagem é de 2 metros. Já em Seringal São José, o nível era de 2,11 metros, praticamente no limite de referência de 2,20 metros.

No Juruá, cenário é diferente

A situação não é uniforme em todo o estado.

No dia 26, as plataformas da Bacia do Rio Juruá registraram elevação de nível. Em Cruzeiro do Sul, o rio estava em 4,31 metros, acima da cota de estiagem de 2 metros.

Em Ponte do Liberdade, o nível era de 1,48 metro, também acima da referência de estiagem de 1 metro.

Isso mostra que a estiagem não atinge todos os rios acreanos da mesma forma. Enquanto algumas regiões apresentam níveis bastante baixos, outras ainda mantêm seus mananciais acima das cotas de estiagem.

E as queimadas?

A seca também aumenta a preocupação com o fogo, embora os dados de 2026 apresentem uma situação diferente da registrada em anos anteriores.

Entre janeiro e maio, o Acre contabilizou apenas 21 focos de calor, contra 51 no mesmo período de 2025, uma redução de aproximadamente 58%. O estado apresentou, naquele recorte, o menor número de focos entre os estados brasileiros.

Isso não significa, porém, que o risco tenha desaparecido. A própria Sema ressalta que o segundo semestre concentra o período mais crítico da estiagem e que o desafio é manter os focos em níveis baixos durante os meses de seca.

O monitoramento do fogo é feito diariamente pelo Programa Queimadas do Inpe, que disponibiliza dados atualizados sobre focos ativos e risco de incêndios.

O que os números dizem sobre o fim de agosto?

Os últimos boletins da Sema desenham um cenário que merece atenção:

1. O Rio Acre continua abaixo da cota de estiagem em Rio Branco.

2. O manancial chegou a subir de 2,07 m para 2,38 m em poucos dias, mas voltou a cair para 2,34 m.

3. Brasileia estava com apenas 1,13 m, contra uma cota de estiagem de 3,50 m.

4. Xapuri estava em 2,02 m, abaixo da cota de 2,20 m.

5. Capixaba registrava 1,92 m, diante de uma referência de 3,50 m.

6. Sena Madureira estava com 1,23 m no Rio Iaco, contra cota de estiagem de 2 m.

7. Algumas estações acumulavam menos de 50 mm de chuva em todo o mês de agosto.

8. Não houve chuva significativa nas 24 horas anteriores às leituras de 24, 25 e 26 de agosto.

9. A previsão para 26 de agosto a 1º de setembro é de apenas 1 a 20 mm de chuva em grande parte do estado.

10. O prognóstico para agosto, setembro e outubro aponta chuva abaixo da média e temperaturas acima da média no Acre.

Os números, portanto, não indicam apenas um rio isoladamente baixo. Eles mostram um período de estiagem que continua avançando em várias regiões e que, segundo as previsões, ainda deve persistir nas próximas semanas.

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