Assassinato do ‘Rei da Fronteira’ teria dado início à guerra de facções no Acre
A guerra entre facções criminosas que provocou uma forte alta da violência no Acre está ligada a uma disputa que começou na região de fronteira da América do Sul. A morte do traficante Jorge Rafaat Toumani, conhecido como “Rei da Fronteira”, em 2016, é apontada como um dos acontecimentos que ajudaram a mudar o equilíbrio entre os grupos criminosos que atuavam na região.
O assunto foi abordado em uma reportagem especial da coluna do jornalista Alfredo Henrique, do Metrópoles, que entrevistou a comandante-geral da Polícia Militar do Acre, coronel Marta Renata Freitas.
Rafaat comandava uma estrutura ligada ao tráfico de drogas a partir de Pedro Juan Caballero, no Paraguai. A cidade fica próxima ao território brasileiro e era considerada estratégica para a movimentação de drogas.
Em 15 de junho de 2016, ele foi morto durante uma emboscada. O ataque utilizou uma arma de alto poder de fogo capaz de atingir o veículo blindado em que o traficante estava. A ação foi atribuída ao Primeiro Comando da Capital, o PCC.
Morte do ‘Rei da Fronteira’ alterou rotas da droga e afetou o Acre | Foto: Reprodução
A morte de Rafaat provocou uma mudança na disputa pelo controle das rotas utilizadas pelo tráfico. Com o espaço deixado pelo criminoso, outras organizações passaram a disputar áreas de influência.
Acre estava no caminho das rotas
O estado acabou envolvido nesse cenário por uma característica que não mudou: sua posição geográfica.
O Acre faz fronteira com Peru e Bolívia, países que fazem parte da região andina e estão próximas de importantes áreas de produção de cocaína. Por isso, estradas, cidades e áreas de fronteira do estado passaram a ter importância para organizações interessadas no transporte de drogas.
Segundo a coronel Marta, essa localização contribuiu para transformar o Acre em um dos pontos de disputa entre diferentes grupos.
Além das grandes facções nacionais, organizações criminosas formadas no próprio estado também passaram a participar da disputa por território.
Violência aumentou rapidamente
A escalada dos conflitos, porém, começou antes da morte de Rafaat. De acordo com a comandante da PM, a partir de 2015 o Acre já enfrentava uma tentativa de expansão de grupos criminosos de diferentes regiões do país.
Os números apresentados pela Polícia Militar ajudam a mostrar o tamanho da mudança.
Em 2015, foram registradas 221 mortes violentas intencionais no estado. Um ano depois, o número subiu para 385. Em 2017, chegou ao maior nível da série citada na reportagem: 498 mortes.
Ou seja, em apenas dois anos, o número de mortes violentas intencionais cresceu cerca de 125%.
Foi nesse período que a disputa entre o PCC, ligado a São Paulo, e o Comando Vermelho, do Rio de Janeiro, ganhou maior destaque no Acre.
Conflito não ficou restrito à fronteira
A briga entre os grupos não acontecia apenas nas áreas de fronteira. A disputa também alcançou cidades acreanas, principalmente Rio Branco.
Os grupos buscavam conquistar áreas, formar alianças e controlar pontos considerados importantes para suas atividades. O resultado foi o aumento dos confrontos e de outros crimes violentos.
O cenário começou a mudar depois do pico registrado em 2017. O estado teve 432 mortes violentas intencionais em 2018 e 319 em 2019.
Nos anos seguintes, os registros continuaram em níveis menores que os do auge: foram 195 mortes em 2021, 237 em 2022, 210 em 2023, 179 em 2024 e 193 em 2025.
Em 2026, o levantamento apresentado pela Polícia Militar contabiliza 91 mortes até o período considerado na reportagem.
Mesmo com a redução em relação aos anos mais violentos, a presença das facções continua sendo um desafio para as forças de segurança.
A comandante-geral da PM afirmou ao Metrópoles que atualmente o Comando Vermelho possui maior influência na região de fronteira do Acre. Ainda assim, outros grupos continuam presentes no estado.