Do alto, a história: 40 anos do primeiro registro aéreo dos geoglifos no Acre
Há quatro décadas, uma fotografia publicada em um jornal acreano ajudava a registrar um capítulo que, anos depois, colocaria o Acre no centro de pesquisas sobre a ocupação humana da Amazônia. Em 15 de agosto de 1986, o jornal O Rio Branco publicou a primeira imagem aérea de um geoglifo no estado, feita pelo fotógrafo Agenor Mariano.
A história começou durante um voo comercial. O geógrafo e paleontólogo Alceu Ranzi, hoje professor aposentado da Universidade Federal do Acre (Ufac) e presidente do Instituto Geoglifos da Amazônia, chegava a Rio Branco quando observou do alto uma formação que chamou sua atenção.
A experiência como geógrafo fez com que Ranzi desconfiasse de que aquele desenho não havia sido produzido pela própria natureza. A regularidade da estrutura, especialmente o formato geométrico, despertou sua curiosidade.
Geoglifos do Acre/Foto: Arquivo
Após desembarcar, o pesquisador tentou identificar mentalmente onde havia visto a formação e conseguiu apoio do governo estadual para retornar ao local em uma aeronave. Agenor Mariano participou do voo como fotógrafo e ficou responsável por registrar a estrutura.
Uma fotografia feita em condições bem diferentes das atuais
A tecnologia disponível em 1986 estava distante das ferramentas utilizadas atualmente nas pesquisas arqueológicas. Não havia drones, GPS ou câmeras digitais. As fotografias eram feitas em filme e o resultado só podia ser conferido posteriormente, após a revelação.
Agenor Mariano lembra que, para conseguir melhores imagens aéreas, era necessário adaptar até mesmo a aeronave. Segundo ele, durante alguns trabalhos, a porta do avião era retirada do lado em que estava posicionado para ampliar o campo de visão da câmera.
“Eu fiz a foto aérea no motor. Sempre naquela época do filme ainda. E a gente tirava as portas do avião do lado do meu lado, para que eu possa ter mais um ângulo melhor e fiz as fotos. E essa foto rendeu muita publicidade aí. Saiu em jornais. Só que a foto na época fiquei em preto e branco, não tem colorido. Era em preto e branco, revelado em tudo. O jornal publicou, fez a matéria”, disse.
Foi nessas condições que surgiu o registro posteriormente publicado pelo jornal O Rio Branco. A fotografia era em preto e branco e passou a integrar a reportagem sobre a descoberta.
Geoglifos do Acre: registro histórico completa 40 anos/Foto: Hudson Ferreira
Quatro décadas depois, Mariano recorda com mais emoção a participação naquele momento. O fotógrafo, que trabalhou em veículos como O Rio Branco, Gazeta, Diário do Acre e Folha do Acre, afirma que a dimensão histórica da imagem se tornou mais evidente com o passar dos anos.
“Hoje está mais emoção do que antes. O jornal tem um corrente muito grande que é as redes sociais. O jornal sai com notícia atrasada. Naquela época não, o pessoal esperava sair no jornal pra comprar o jornal e a notícia atrasada. Naquela época era assim. Não tinha essa rede social tão forte como tem hoje. Hoje acontece o negócio ali com um minuto na cidade toda, já sabe, com imagem, com foto, com tudo. Aí o jornal publica no outro dia já coisa atrasada, que o cara nem lê mais. Então naquela época era muito sucesso, porque quem trabalhava nas fotos, publicava, e no outro dia o pessoal comprava o jornal para ler a matéria. Era muito saboroso muito saboroso”, declarou.
Para ele, chegar aos 40 anos daquele registro ainda vivo e podendo contar às filhas sobre a participação na história tornou a lembrança ainda mais especial.
“Eu trabalhei em todos os jornais daqui. Eu trabalhei no Jornal Rio Branco, trabalhei na Gazeta do Acre, na Folha do Acre e Jornal Rio Branco, em todos os diários. E hoje que essa foto está me rendendo, assim, um egozinho, né? Porque 40 anos é fácil não ter. Eu tenho 69. Então quer dizer que eu tinha 29 anos na época. Então, é mais prazer hoje, porque hoje eu falo pra minhas filhas”, completou.
Descoberta passou praticamente despercebida
Apesar da importância que o registro ganharia posteriormente, a publicação de 1986 não provocou grande repercussão imediata. Alceu Ranzi conta que, depois das fotografias e da publicação no jornal, praticamente nada aconteceu. Naquele período, ele estava envolvido principalmente com pesquisas paleontológicas na Ufac, estudando fósseis de animais pré-históricos encontrados na região.
“Fizemos as fotos, saiu publicado e nada mais. Isso não aconteceu nada, absolutamente nada. Saiu, não houve repercussão nenhuma. Na época não havia arqueólogos no Acre, não havia IFAM no Acre”, contou.
Segundo Ranzi, naquele período não havia uma estrutura consolidada de pesquisa arqueológica no Acre capaz de dar continuidade imediata à descoberta. O próprio pesquisador ressalta que não é arqueólogo: sua formação é em Geografia e seu trabalho passou a observar os geoglifos principalmente como elementos da paisagem amazônica.
Geoglifos do Acre/Foto: Diego Gurgel
Assim, durante cerca de 13 anos, aquele primeiro registro permaneceu sem provocar o avanço científico que teria posteriormente.
“Posteriormente em 99, novamente chegando em Rio Branco eu vi um novo geoglifo e também mais ou menos na mesma rota daquele anterior, a rota do pouso do avião e porque a minha a minha formação em geografia é que permitiu eu entender que aquilo não era natural. Um círculo perfeito, por exemplo, isso não é natural a natureza não faz isso. Aquela coisa grande no meio de um campo de uma pastagem, tinha castanha as queimadas, de pé ainda, os troncos da castanheira. Mas antes disso, eu fui ver o que os arqueólogos, o que os especialistas no tema haviam escrito. E percebi que passados tantos anos, já 86 para 99, lá vão 13 anos, nada havia acontecido. Ninguém tinha percebido. a arqueologia não existia geoglifo no Brasil”, disse.
Ranzi decidiu então retornar ao local e aprofundar a investigação. Com novo apoio para um sobrevoo, uma equipe voltou a procurar as estruturas. Desta vez, o fotógrafo responsável pelos registros foi Edson Caetano.
As condições também já eram diferentes. As fotografias feitas entre 1999 e 2000 eram coloridas e apresentavam qualidade superior às produzidas no primeiro voo, embora ainda fossem realizadas antes da popularização das câmeras digitais e do GPS.
Durante os sobrevoos, não foi encontrado apenas um geoglifo. Várias estruturas foram fotografadas.
Geoglifos do Acre ganham o Brasil e o mundo
Os registros começaram a circular pela imprensa acreana, nacional e posteriormente internacional. O interesse pelas grandes formas geométricas abertas no solo da Amazônia cresceu e atraiu pesquisadores brasileiros e estrangeiros.
Ranzi lembra que reportagens passaram a ser publicadas fora do Acre e que, em 2002, os geoglifos chegaram ao programa Fantástico, da TV Globo.
Foi nesse período que o pesquisador decidiu redirecionar sua própria trajetória acadêmica. A paleontologia, até então sua principal área de atuação, perdeu espaço para os estudos sobre a paisagem e os geoglifos.
Geoglifos do Acre/Foto: Diego Gurgel
“Não tenho formação de arqueólogo. Como sou um geógrafo, eu vou olhar a paisagem. Os geoglifos são elementos da paisagem do Acre que não podem ser ignorados. Porque onde você for, nas fazendas do Acre, na área de agricultura, os geoglifos estão presentes. É mais ou menos isso o resumo. E nos dedicamos profundamente a ir com colegas, arqueólogos brasileiros e estrangeiros, a publicar, a trabalhar, a medir, a fotografar”, disse.
Quarenta anos depois da primeira fotografia, o cenário é completamente diferente. O tema passou a fazer parte de pesquisas científicas, publicações, documentários e reportagens dentro e fora do país.
A dimensão alcançada pelas pesquisas também levou os geoglifos acreanos até um dos lugares mais conhecidos do mundo quando o assunto são grandes desenhos produzidos no solo.
Ranzi participou recentemente de uma viagem a Nazca, no Peru, onde esteve em uma exposição e palestra sobre o tema. A cidade peruana é internacionalmente conhecida pelas Linhas de Nazca.
Durante a visita, segundo ele, surgiu uma proposta para aproximar Nazca e Rio Branco como cidades-irmãs, tendo como ponto de ligação o turismo arqueológico relacionado aos geoglifos.
Fotografia continua documentando as descobertas
A relação entre fotografia e geoglifos, iniciada naquele registro de Agenor Mariano em 1986, continuou acompanhando as pesquisas.
O fotojornalista Diego Gurgel passou a participar dos trabalhos em 2009, após convite de pesquisadores ligados ao projeto. Atualmente, ele integra o Instituto Geoglifos da Amazônia e mantém um amplo acervo de registros das estruturas.
Para Gurgel, fotografar os geoglifos significa participar da documentação de uma descoberta que pode ajudar a rever parte do conhecimento construído sobre a história brasileira.
“Eu acho que tem uma relevância histórica pra história do Brasil, porque nós aprendemos nos livros de história uma coisa, e os geoglifos mostram que há uma lacuna nas civilizações pré-colombianas na Amazônia. Então, os geoglifos estão aos poucos ganhando espaço na comunidade científica e fazer parte disso, principalmente tendo essa quantidade de fotos no acervo, é muito importante para mim profissionalmente e por fazer parte desse legado, dessa pesquisa também”, afirmou.
Geoglifos do Acre/Foto: Diego Gurgel
O fotógrafo conta que desde pequeno se interessava por arqueologia, fotografia histórica e publicações sobre ciência. Anos depois, passou a registrar justamente estruturas arqueológicas que ganharam espaço crescente na comunidade científica internacional.
“Estar hoje realizando esse sonho desde pequeno, quando eu lia revistas super interessantes, National Geographic, os livros da Barça, ficava vendo aquelas imagens e hoje estar fazendo exatamente isso me traz muita alegria por estar fazendo o que eu gosto e por estar contribuindo com um legado histórico que está sendo descoberto aqui no nosso estado, aqui na Amazônia”, relatou.
Quatro décadas entre a fotografia e o reconhecimento
Para Agenor Mariano, o aniversário também permite revisitar uma época em que o fotojornalismo funcionava de maneira completamente diferente.
Sem redes sociais e internet, as notícias dependiam principalmente dos jornais impressos, e o público aguardava a edição seguinte para conhecer os acontecimentos registrados no dia anterior.
A fotografia feita aos 29 anos atravessou essa transformação e, quatro décadas depois, permanece associada ao início de uma longa trajetória de pesquisas.
Para Ranzi, os 40 anos mostram principalmente que descobertas científicas podem exigir décadas de trabalho até alcançar reconhecimento.
O primeiro voo resultou em uma fotografia que praticamente passou despercebida. Treze anos depois, novas imagens reacenderam o interesse. Vieram pesquisadores, expedições, novas tecnologias, publicações científicas e repercussão internacional.
“Meu abraço a ele e dizer da importância daquele voo que nós fizemos 40 anos atrás. Foi muito interessante isso, foi muito importante”, disse Ranzi ao falar sobre Agenor Mariano.
Depois de quatro décadas dedicadas ao tema, o pesquisador resume a trajetória como um exercício de persistência.
“Para a gente chegar a um reconhecimento, precisa muita persistência, muito trabalho e pode demorar até 40 anos. Mas chega o momento dos resultados serem positivos.”