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Governo articula centro de distribuição no Peru para abrir rota comercial com a Ásia

Por Matheus Mello, ContilNet 16/08/2026 11:49 Atualizado em 16/08/2026 11:49
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Poucos meses depois de assumir a Secretaria de Estado de Indústria, Ciência e Tecnologia (Seict), Márcio Agiolfi estabeleceu uma agenda que combina problemas antigos da indústria acreana com uma aposta em uma nova vocação econômica para o Estado: transformar a posição geográfica do Acre em vantagem competitiva para o comércio exterior.

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Em entrevista exclusiva ao ContilNet, o secretário afirmou que a prioridade imediata é revitalizar os parques e polos industriais, criar condições para a instalação de novas empresas e destravar investimentos. Ao mesmo tempo, pretende avançar em projetos que podem aproximar o setor produtivo acreano dos mercados do Peru, Bolívia e, por meio deles, da Ásia.

Agiolfi assumiu a pasta em abril e reconhece que o período disponível para produzir resultados é curto. Por isso, diz ter concentrado os esforços em projetos considerados estruturantes.

“A gente está entrando agora fortemente na revitalização dos espaços industriais, principalmente dos municípios, onde está precisando de bastante atenção”, afirmou.

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Segundo o secretário, além da recuperação dos espaços existentes, o governo trabalha em projetos para novos parques e polos industriais. A ideia é também atacar gargalos específicos enfrentados pelas empresas que já estão instaladas nesses locais.

Um dos exemplos citados é a secagem da madeira, uma demanda recorrente dos polos moveleiros do Estado. A Secretaria busca alternativas para oferecer a estrutura necessária às empresas que trabalham com o produto.

“A gente está vendo como consegue atender essas demandas”, disse.

Hub de inovação

Na área de ciência e tecnologia, uma das apostas é o Hub do Estado, inaugurado recentemente e instalado em espaço anexo à sede da própria Seict.

O equipamento deverá entrar em operação após um chamamento público que selecionou uma empresa para realizar a gestão do espaço até dezembro. A expectativa é que, nesse período, o governo estruture uma equipe própria para assumir posteriormente as operações.

O próximo passo será abrir um chamamento para selecionar startups interessadas em ocupar o Hub.

Inicialmente, explica Agiolfi, a proposta é que o espaço funcione como um ambiente compartilhado de inovação, mas com uma identidade própria e diretamente conectada às necessidades do mercado.

A preocupação é evitar a sobreposição com estruturas que já funcionam no Estado, como os hubs mantidos pelo Senai e pelo Instituto Federal do Acre (Ifac), além do Sebrae Lab, instalado na Funtac.

“O objetivo maior agora foi a gente trabalhar dessa forma, nesse formato, criando essa nossa identidade de acordo com as demandas do mercado”, explicou.

Porto no Peru e uma nova rota para a indústria acreana

Um dos projetos considerados mais estratégicos pelo secretário está fora do território brasileiro.

A Seict discute com a iniciativa privada a instalação de um centro de distribuição em Puerto Maldonado, no Peru. A estrutura funcionaria como uma espécie de base para empresas acreanas interessadas em vender seus produtos no país vizinho e, posteriormente, alcançar outros mercados.

A ideia é que produtos fabricados no Acre sejam armazenados no centro e distribuídos a partir do Peru. O caminho inverso também seria utilizado: mercadorias peruanas poderiam ser concentradas no local antes de serem trazidas ao Acre.

Segundo Agiolfi, o projeto será desenvolvido em parceria com a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), e poderá reduzir uma das principais dificuldades enfrentadas por pequenas empresas que desejam exportar: a escala.

Ele cita como exemplo uma pequena indústria de café ou de bebidas. Sozinha, uma empresa pode não ter produção suficiente para preencher uma carreta e tornar economicamente viável o transporte internacional. Com um centro de distribuição, diferentes produtores poderiam concentrar suas cargas e compartilhar a logística.

“É uma demanda da iniciativa privada. Ela veio pela iniciativa privada, então a gente acha que ela vai ter uma absorção muito grande pelo setor industrial”, afirmou.

De olho no porto de Chancay

A estratégia ganha dimensão maior por causa do avanço da infraestrutura portuária peruana, especialmente do Porto de Chancay, no litoral do Peru, inaugurado em 2024 e projetado para ampliar a ligação do país com os mercados asiáticos.

Porto de Chancay fica no Peru e promete abrir comércio com a Ásia/Foto: Reprodução

Para Agiolfi, a nova rota pode colocar o Acre em uma posição estratégica entre o Brasil, os países andinos e a Ásia.

“É uma rota de importação e exportação muito interessante e o Estado do Acre tem um potencial muito grande para ser aqui um hub de importações, de distribuições”, afirmou.

O secretário cita inclusive a possibilidade de, no futuro, o Estado atrair grandes operações de distribuição.

“Facilmente a gente pode ter aqui um centro de distribuição da Amazon, do Mercado Livre, tendo em vista a facilidade que a gente vai ter com o comércio da China”, disse.

Segundo ele, a utilização da rota pelo Pacífico pode representar uma economia de até 14 dias no transporte marítimo entre a Ásia e a região.

Para o Acre, a aposta é aproveitar a proximidade com Peru e Bolívia para deixar de ser apenas um ponto de passagem e se transformar em uma plataforma logística.

ZPE recebe novas indústrias

Outra frente apontada pelo secretário está dentro do próprio Estado. No Parque Industrial da Zona de Processamento de Exportação (ZPE), o governo trabalha inicialmente na regularização de dez lotes para disponibilizá-los a empresas interessadas em se instalar no local.

ZPE foi inaugurada no governo Tião Viana/Foto: Secom

Agiolfi afirma que já existe demanda de empresas acreanas e prevê que ainda em 2026 possam ocorrer as primeiras concessões para instalação de indústrias.

Segundo ele, há interesse de empresas de diferentes segmentos, incluindo os setores químico e alimentício.

Entre as demandas recebidas está a instalação de uma indústria para produção de Arla 32, produto utilizado principalmente em veículos pesados equipados com motores a diesel.

Atualmente, segundo o secretário, o Acre depende de outros estados para atender ao consumo local.

“É uma indústria nova que tem forte demanda dentro do Estado”, afirmou.

A instalação de empresas na ZPE é tratada pela Seict como uma das formas de ampliar a produção local, reduzir a dependência de produtos vindos de outras regiões e criar novas oportunidades de investimento.

A marca que Agiolfi quer deixar

Com um horizonte curto para apresentar resultados, o secretário afirma que não pretende medir sua passagem pela pasta apenas pela quantidade de projetos anunciados, mas pela capacidade de destravar iniciativas que, segundo ele, avançaram lentamente nos últimos anos.

A revitalização dos parques industriais aparece como uma das principais metas. Outra é consolidar a estratégia de comércio exterior por meio do centro de distribuição no Peru.

“Um dos maiores desafios é deixar pelo menos os parques industriais revitalizados, aptos a investimento, destravar o que está travando o investimento no nosso Estado hoje, principalmente na área industrial”, afirmou.

Para Agiolfi, o Acre já avançou no comércio exterior, mas ainda está distante de explorar todo o potencial proporcionado pela localização geográfica.

“Quando a gente olha pelo nosso potencial, tendo em vista que a gente tem os dois países, Peru e Bolívia, aqui muito próximos, a gente vê que ainda tem muito ainda que avançar”, disse.

A aposta do secretário é que a combinação entre infraestrutura industrial, inovação e integração com os países vizinhos permita ao Acre transformar uma antiga desvantagem — estar distante dos grandes centros consumidores brasileiros — em uma oportunidade para se conectar a novos mercados.

O desafio, agora, é fazer com que os projetos saiam do papel em tempo suficiente para produzir resultados concretos ainda nesta gestão.

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