Há mais de 50 anos, 1º chaveiro de Sena aprendeu profissão só e trabalha aos 86 anos
Aos 86 anos, o senhor Antônio Pessoa do Nascimento, carinhosamente conhecido como Antônio Flor, continua escrevendo uma história marcada pelo trabalho, dedicação e amor pela profissão que abraçou há mais de cinco décadas. Considerado o primeiro chaveiro de Sena Madureira, Seu Antônio ainda mantém sua pequena oficina funcionando em sua própria residência, no bairro do Bosque, onde continua atendendo clientes que, mesmo diante do avanço da tecnologia e do surgimento de novos profissionais, permanecem fiéis ao seu trabalho.
A história de Seu Antônio com Sena Madureira começou quando ele tinha apenas 10 anos de idade. Nascido no seringal Fortaleza, localizado às margens do rio Iaco, ele chegou à cidade no dia 15 de abril de 1951, acompanhado da família. Filho de Raimundo Bernardino do Nascimento e Maria Pessoa do Nascimento, desde cedo aprendeu o valor do trabalho e passou a ajudar o pai em uma oficina.
Foi aos 26 anos que descobriu aquele que se tornaria o grande ofício de sua vida. Certo dia, encontrou um cadeado na rua e decidiu tentar abri-lo. Foram três dias de tentativas até que conseguiu desenvolver uma peça artesanal capaz de destravar o objeto. A experiência despertou sua curiosidade e revelou um talento que, segundo ele, já estava em suas mãos como um verdadeiro dom.
Naquela época, a realidade era muito diferente. As chaves eram confeccionadas manualmente, exigindo paciência, habilidade e muita dedicação. Aos poucos, Seu Antônio passou a ser procurado por moradores de diferentes partes da cidade, tornando-se uma referência quando o assunto era chave e fechadura.
Virada de chave
Um momento importante de sua trajetória aconteceu quando conheceu o Frei Heitor. Ao perceber a dedicação e o talento do profissional, o religioso decidiu presenteá-lo com uma máquina para fabricação de cópias de chaves, além de cerca de 100 modelos de chaves. A novidade representou um avanço significativo para o trabalho e permitiu que Seu Antônio ampliasse ainda mais os serviços oferecidos à população.
Com o passar dos anos, sua pequena oficina se transformou em um ponto conhecido pelos moradores de Sena Madureira. Gerações de clientes passaram por suas mãos e muitos deles continuam recorrendo aos seus serviços até hoje.
Para Seu Antônio, a habilidade que desenvolveu ao longo da vida não é apenas resultado da experiência, mas um presente recebido de Deus.
“Eu considero isso um dom que Deus me deu. Eu nunca fiz curso para aprender a trabalhar com chave. Comecei tentando, fui aprendendo sozinho e Deus foi me dando inteligência e habilidade para fazer. Até hoje eu agradeço a Ele por ter me dado esse dom e por ter permitido que eu trabalhasse honestamente durante tantos anos”, disse.
A vida de Seu Antônio também foi marcada por uma longa história de companheirismo. Ele foi casado por mais de 50 anos com Zilda Aquino do Nascimento, que faleceu há cinco anos. Ao longo de sua caminhada, além de sustentar a família por meio do próprio trabalho, construiu amizades e conquistou o respeito de inúmeras pessoas.
Mais de 50 anos de profissão
Mesmo aos 86 anos, ele continua demonstrando disposição para trabalhar e preservar uma profissão que se tornou parte da história de Sena Madureira. Sua oficina, embora simples, carrega muito mais do que máquinas, ferramentas e chaves: guarda lembranças de décadas de trabalho e de uma época em que os serviços eram realizados quase totalmente de forma artesanal.
A trajetória de Antônio Flor é também um retrato de uma Sena Madureira de outros tempos, quando os profissionais eram conhecidos pelo nome, pela confiança e pela palavra. Seu trabalho atravessou gerações e resistiu às transformações provocadas pela modernização.
Ao olhar para toda essa caminhada, Seu Antônio demonstra gratidão. “Eu só tenho que agradecer a Deus por tudo. Agradeço também a cada cliente que confiou e continua confiando no meu trabalho. Muitos clientes são amigos que conquistei ao longo da vida. Eu fico feliz quando uma pessoa chega aqui e diz que continua confiando em mim. Isso não tem preço”, afirmou.
Aos 86 anos, Seu Antônio Flor segue trabalhando com as próprias mãos e mantendo viva uma tradição que começou há mais de 50 anos. Mais do que o primeiro chaveiro de Sena Madureira, ele se tornou personagem da história do município e exemplo de que dedicação, honestidade e amor pelo que se faz podem atravessar gerações.