Passados quase dois anos da eleição municipal, é possível enxergar com mais clareza onde começaram os movimentos que hoje redesenham um dos principais colégios eleitorais do estado. O que parecia uma disputa restrita à Prefeitura de Brasileia acabou produzindo um efeito dominó que alcançou a sucessão estadual.
O gesto mais emblemático foi o da família Hassem.
A ex-prefeita Fernanda Hassem rompeu com o grupo de Gladson Camelí e Mailza Assis, deixou o PP, partido ao qual havia se filiado a convite do governador, e migrou para o NOVO, legenda que integra o projeto de Alan Rick.
Não foi uma decisão tomada de uma hora para outra. Nos bastidores, a relação começou a se desgastar ainda durante a escolha do candidato governista em Brasileia, em 2024. Na época, a disputa interna colocou em lados opostos Fernanda Hassem e a deputada federal Socorro Neri.
Socorro defendia que o grupo mantivesse o compromisso assumido anteriormente por Gladson Camelí, que havia pedido a ela e à então vice-governadora Mailza Assis que construíssem a candidatura de Joelson Pontes. Era uma posição baseada menos em preferência pessoal e mais na lógica da lealdade política.
Enquanto isso, Fernanda trabalhava para viabilizar o nome de Suly Guimarães. As três estavam no mesmo partido, o PP, e a disputa acabou expondo uma divisão que até então permanecia contida.
No fim, Suly desistiu da candidatura. O escolhido foi Carlinhos do Pelado, então vice-prefeito de Fernanda, que acabou eleito.
A ironia é que, passados poucos meses, quase todos os personagens daquela disputa mudaram de posição.
Joelson Pontes, cuja candidatura foi defendida por Socorro durante toda a construção política, hoje segue outro caminho. Embora permaneça próximo de Mailza, filiou-se ao PSD de Sérgio Petecão, aliado de Alan Rick, e deverá atuar na base política de Fábio Rueda.
Nos bastidores, esse é um movimento que chama atenção justamente porque contrasta com a postura de quem o sustentou quando seu nome ainda era contestado dentro do grupo governista.
Ao mesmo tempo, uma antiga divergência ficou para trás.
Suly Guimarães, que esteve no centro daquela disputa interna, hoje integra o projeto de reeleição de Socorro Neri, na base de Mailza. O conflito perdeu importância diante de um cenário político completamente diferente do de 2024.
Carlinhos do Pelado também escolheu um caminho distinto do de sua principal aliada durante anos. Apesar da decisão de Fernanda de acompanhar Alan Rick, ele permanecerá na base de Mailza Assis.
Talvez a imagem mais curiosa dessa reorganização esteja justamente do outro lado.
Leila Galvão, do MDB, adversária de Carlinhos na eleição passada, deverá dividir o mesmo palanque com ele em 2026. A disputa municipal ficou para trás. Agora, ambos estarão no projeto político de Mailza.
No Alto Acre, as alianças deixaram de seguir a lógica das últimas eleições e passaram a obedecer à próxima. Quem rompeu, rompeu de vez. Quem brigou encontrou espaço para se reconciliar. E quem parecia politicamente inseparável descobriu que, na prática, fidelidade tem prazo de validade quando um novo ciclo eleitoral começa.
