O ângulo perfeito não precisa de filtro: Diego Gurgel e a arte de ser pai
Entre uma fotografia, uma reportagem e os compromissos diante das câmeras, Diego Gurgel também vive uma rotina que talvez seja seu papel mais importante: ser pai. Ao lado de Eloah, de 19 anos, Helena, de 16, e José, de 8, ele aprendeu que a paternidade é feita de fases, descobertas, desafios e, principalmente, de presença.
Neste Dia dos Pais, Diego conversou com o ContilNet sobre a relação com os três filhos e contou como a chegada de José transformou algumas de suas maneiras de enxergar a vida.
José tem Transtorno do Espectro Autista (TEA) e trissomia do braço curto do cromossomo 20, uma condição genética que pode provocar atrasos no desenvolvimento neuropsicomotor. O caminho até chegar ao diagnóstico começou quando ele tinha apenas um dia de vida.
Uma geneticista percebeu uma alteração nos dedos indicadores de José, chamada clinodactilia, e recomendou uma série de exames. Vieram então consultas com neuropediatras, geneticistas e outros profissionais. Durante esse período, a família passou por muitas dúvidas e preocupações.
“Quando saiu o diagnóstico dele, a gente ficou muito apreensivo, muito nervoso, muito preocupado. O que a gente faz? Pesquisa no Google, né? E aí leva um monte de sustos com fotos, com imagens e tudo”, lembra Diego.
Com o tempo, o diagnóstico deixou de ser o centro da história. A família passou a conhecer José pelo que ele é, pelas coisas que gosta, pelas suas características e, principalmente, pelas conquistas que foi alcançando ao longo dos anos.
“Mas ao longo dos anos a gente foi acostumando e aprendendo a curtir o nosso filho, porque pai é para cuidar com amor o filho ”, afirma.
Hoje, aos oito anos, José mantém uma rotina intensa de terapias. De segunda a sexta-feira, os atendimentos acontecem pela manhã e à noite. Em casa, o trabalho continua, com a família colocando em prática aquilo que aprende com os terapeutas.
Para Diego, uma das principais preocupações é ajudar o filho a conquistar independência. José ainda não possui plena noção de alguns perigos do cotidiano, como fogo, fios desencapados ou animais que podem oferecer riscos.
“Uma hora os pais não vão estar mais aqui. Então essa é a minha preocupação”, explica.
Por isso, cada aprendizado ganha importância. Mais do que fazer tudo por José, a família busca ensiná-lo a fazer cada vez mais coisas por conta própria.
“Então a gente trabalha para isso, para ensinar, para adquirir junto com os terapeutas o que a gente pode fazer depois da terapia em casa, para que a gente continue fazendo essa terapia em casa também, não só nas clínicas”, conta.
A rotina é intensa, mas Diego diz que a família aprendeu a se adaptar. E foi justamente nesse processo que ele percebeu uma das maiores mudanças provocadas pela paternidade.
“Eu acho que essa é a grande beleza de ser pai, porque é a primeira vez que um ser humano transfere o ego de si mesmo para um outro indivíduo, para uma outra pessoa, em que você se dedica para aquela pessoa e não para você mesmo”, reflete.
Com José, viagens, passeios, festas e outros momentos em família continuam acontecendo. /Foto: reprodução
Com José, viagens, passeios, festas e outros momentos em família continuam acontecendo. Nem sempre da maneira planejada, mas sempre com espaço para o menino participar.
“Quando você recebe um diagnóstico desse, você automaticamente pensa: ‘Poxa, minha vida vai ser limitada’. Então, quando você ignora a si mesmo, essas suas benesses, você passa a incluir a criança em todas essas aventuras”, conta.
Para Diego, a inclusão ainda é um desafio que vai muito além da família. Ele conta que, com o passar dos anos, percebeu algumas mudanças nas relações sociais. Amigos que antes convidavam a família para determinados encontros passaram a se afastar, muitas vezes por não saberem como lidar com possíveis desregulações de José.
“Quando você tem um filho que não pode ouvir som alto ou que não come certas coisas ou que, de repente, ele entra em colapso, ele desregula, chama atenção, as pessoas ainda se assustam, olham com estranheza”, relata.
É por isso que Diego também utiliza as redes sociais para falar sobre inclusão e sobre a realidade das famílias atípicas. Para ele, o assunto precisa ser tratado de forma mais ampla, alcançando pessoas com diferentes tipos de deficiência.
“Enquanto pais atípicos, a gente tenta, de maneira didática nas redes sociais, militar para que o mínimo de aceitação da sociedade seja feita, que aconteça, não só com o meu filho, mas com todas as pessoas e com toda essa pluralidade que existe de pessoas com deficiência”, afirma.
Mas, entre as preocupações e os desafios, existem também lembranças que Diego guarda com carinho./ Foto: cedida
Mas, entre as preocupações e os desafios, existem também lembranças que Diego guarda com carinho. Uma delas aconteceu quando José tinha cerca de um ano e meio.
Naquela época, o menino ainda não havia engatinhado e, segundo o pai, alguns neuropediatras acreditavam que ele poderia demorar anos para andar.
Até que a família foi à praia.
José viu o mar.
E começou a andar.
“O melhor presente que ele me deu sem estar embrulhado foi o dia que ele andou”, conta Diego.
Segundo ele, José ficou impressionado ao ver o mar e, de repente, levantou e começou a caminhar.
“Ele viu o mar, ele ficou tão impressionado que levantou e saiu andando, assim como um milagre. Então, isso eu acho que foi o maior presente. Ele contrariou todos os diagnósticos e foi um cara incrível”, lembra.
Aquele momento ficou guardado como uma das maiores conquistas do pai. Um daqueles instantes em que uma criança dá alguns passos e, sem perceber, transforma completamente o dia e a memória de quem está ao lado.
Para Diego, talvez seja essa a parte mais bonita de ser pai, acompanhar cada fase sem saber exatamente o que vem pela frente, aprender com os filhos e estar presente para comemorar as pequenas e grandes conquistas.
E ele tem três histórias para acompanhar.
Eloah, Helena e José chegaram em momentos diferentes na vida de Diego, mas com personalidades e caminhos próprios./ Foto: cedida
Eloah, Helena e José chegaram em momentos diferentes da vida, com personalidades e caminhos próprios. Juntos, ensinaram ao pai que a paternidade não é sobre ter todas as respostas, mas sobre estar disposto a aprender.
Eloah, Helena e José chegaram em momentos diferentes na vida de Diego, mas com personalidades e caminhos próprios./ Foto: cedida
Neste Dia dos Pais, Diego celebra justamente isso, os filhos que o ensinaram a olhar a vida com mais calma, a comemorar cada conquista e a entender que, muitas vezes, os momentos mais simples são os que ficam para sempre.
Como o dia em que José viu o mar, levantou e caminhou.
Sem ensaio.
Sem aviso.
Sem câmeras.
Mas com o pai por perto para guardar aquela cena para sempre.