15/09/2026

Quase o preço da ponte: retirada de escombros em Sena pode custar mais de R$ 30 milhões

Estimativa preliminar obtida pelo ContilNet se aproxima do valor total da construção da ponte, que custou R$ 36 milhões

Por Everton Damasceno, ContilNet
Ponte caiu no dia 5 de junho/Foto: Gleison Junior/Orna Audiovisual

A retirada dos escombros da Ponte Frei Paolino Baldassari, que desabou em junho deste ano em Sena Madureira, deve custar mais de R$ 30 milhões aos cofres públicos estaduais. A estimativa preliminar foi informada pelo Tribunal de Contas do Estado do Acre (TCE-AC) ao ContilNet nesta terça-feira (15).

Segundo informações apuradas pela reportagem junto ao órgão, o levantamento dos custos necessários para a operação ainda está sendo realizado. Apesar de o cálculo não estar concluído, o TCE já trabalha com a informação de que o gasto deverá ultrapassar a casa dos R$ 30 milhões, principalmente por causa da complexidade para remover as grandes estruturas que permanecem no leito do Rio Iaco.

Imagem aérea do desastre causado pela queda da ponte/Foto: Reprodução

O valor chama atenção quando comparado ao custo da própria ponte. A construção da estrutura consumiu aproximadamente R$ 36 milhões. Assim, somente a operação para retirar os destroços pode atingir um montante próximo ao que foi desembolsado para erguer a obra.

O custo definitivo, no entanto, ainda dependerá da conclusão dos levantamentos técnicos. A operação também exige cuidados para que a retirada das peças já liberadas não comprometa estruturas que ainda precisam passar por perícia.

Escombros continuam no Rio Iaco

A ponte desabou no dia 5 de junho e parte significativa da estrutura permanece no Rio Iaco. Os destroços no trecho central dificultam a navegação de canoas e pequenas embarcações utilizadas por moradores e ribeirinhos. 

No início de setembro, o ContilNet revelou que o Governo do Acre estava próximo de receber autorização do Instituto de Criminalística para iniciar a retirada parcial dos escombros. O delegado-geral da Polícia Civil, Pedro Buzolin, explicou à reportagem que a liberação seria delimitada e que a operação dependeria também de um estudo técnico sobre a forma adequada de remover as estruturas. 

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Buzolin é diretor da Polícia Civil/ Foto: Reprodução

“Por mais que esteja liberado, vai ter que retirar sem danificar as outras estruturas que ainda precisam ser periciadas”, afirmou Buzolin na ocasião. 

Isso significa que a limpeza do rio não consiste apenas na retirada física dos blocos. A operação precisa preservar elementos que ainda podem ser utilizados para determinar as causas do colapso.

Perícia ainda é um dos entraves

Outra dificuldade está relacionada à investigação técnica sobre o desabamento. Três meses após a queda, a empresa especializada de fora do Acre que deverá realizar análises dos materiais recolhidos ainda não havia sido contratada.

Pedro Buzolin explicou ao ContilNet que o Estado não dispõe dos equipamentos necessários para todos os exames exigidos pela complexidade do caso. O processo administrativo para contratação da empresa especializada permanecia em andamento e sem prazo definido para conclusão. 

Destroços ainda estão no mesmo lugar/Foto: Gleison Junior/Orna Audiovisual

“A contratação da empresa ainda não [aconteceu]. Não tem prazo disso ainda”, declarou o delegado-geral. “Mas tem muita coisa para ser periciada até com relação à análise do material que nós já possuímos. É um processo muito extenso para ser analisado”, acrescentou. 

Justiça bloqueou até R$ 36 milhões da construtora

Paralelamente às providências para retirada dos destroços, o desabamento é alvo de investigações nas áreas cível e criminal.

Nesta terça-feira (15), o Ministério Público do Estado do Acre (MPAC) detalhou as medidas adotadas desde a queda da estrutura. Uma investigação criminal busca esclarecer as circunstâncias do acidente, inclusive a possível existência de omissões relacionadas à fiscalização e à execução da obra. 

Na esfera cível, uma decisão judicial determinou o bloqueio de até R$ 36 milhões em bens da Construtora Cidade, responsável pela obra, além da suspensão de pagamentos do Estado à empresa. Governo e construtora também devem apresentar um plano conjunto com prazos e custos para reparação dos danos, desobstrução do local e reconstrução da ponte. 

O MPAC informou ainda que as investigações continuam e que novas medidas poderão ser tomadas conforme forem concluídas as perícias e analisados os documentos relacionados ao caso. 

Ponte caiu pouco mais de um ano após inauguração

A Ponte Frei Paolino Baldassari ligava o Primeiro ao Segundo Distrito de Sena Madureira e foi inaugurada no fim de 2023. A estrutura estava interditada desde o dia 4 de junho e desabou no dia seguinte. Quatro pessoas ficaram feridas no acidente. 

Desde então, moradores enfrentam mudanças na rotina de deslocamento, enquanto autoridades trabalham para esclarecer as causas do colapso e definir as condições para desobstruir o Rio Iaco.

Com a nova estimativa obtida pelo ContilNet, o impacto financeiro provocado pelo desastre ganha uma nova dimensão: a retirada dos restos da ponte, sozinha, poderá consumir mais de R$ 30 milhões, antes mesmo de se considerar o custo de uma eventual reconstrução.

Construtora diz que ainda não sabe quem vai tirar restos de ponte 

O bloqueio do leito do Rio Iaco pelos restos da ponte Padre Paolino Baldassari tornou-se ponto de discussão em Sena. Em entrevista concedida durante vistoria técnica no local, em junho, os sócios da Construtora Cidade, Roberto Santos e Raul Santos, afirmaram que o início da limpeza e a desobstrução do manancial — essencial para a navegação local — dependem de um acerto formal com o Governo do Estado e da apuração pericial do acidente.

Roberto lamentou que o primeiro contato com a atual gestão estadual ocorra sob circunstâncias trágicas. “É a primeira vez, a gente nem conhece a governadora, né? É uma situação ruim. Nós passamos por vários governadores aqui e nós vamos conversar e, no diálogo, nós vamos ver o que vai acontecer”, emendou.

Roberto Santos é dono da Construtora Cidade/Foto: Gleison Júnior/Orna Audiovisual

Complementando o posicionamento do colega, o outro sócio da empreiteira, Raul Santos, indicou que a pressa para limpar a área esbarra na necessidade técnica de preservar as evidências para entender o colapso da obra, avaliada em quase R$ 40 milhões.

“Nós não sabemos [quem retira] porque nós temos que determinar as causas, ok? A causa do sinistro tem que ser levantada”, argumentou Raul.

Raul Santos é sócio do irmão na construtora/ Foto: Gleison Junior/Orna Audiovisual

Apesar da cautela técnica, o empresário fez questão de frisar que há um interesse mútuo entre a iniciativa privada e o poder público para desimpedir o tráfego fluvial o quanto antes.

“Mas isso eu posso garantir que é da nossa vontade, e acredito que é da vontade do governo do Acre também, de acelerar o máximo possível a retirada dos escombros”, concluiu o empreiteiro.

O Governo ainda não informou o que será feito com os escombros da ponte, mas o espaço segue aberto para esclarecimentos.

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