A retirada dos escombros da Ponte Frei Paolino Baldassari, que desabou em junho deste ano em Sena Madureira, deve custar mais de R$ 30 milhões aos cofres públicos estaduais. A estimativa preliminar foi informada pelo Tribunal de Contas do Estado do Acre (TCE-AC) ao ContilNet nesta terça-feira (15).
Segundo informações apuradas pela reportagem junto ao órgão, o levantamento dos custos necessários para a operação ainda está sendo realizado. Apesar de o cálculo não estar concluído, o TCE já trabalha com a informação de que o gasto deverá ultrapassar a casa dos R$ 30 milhões, principalmente por causa da complexidade para remover as grandes estruturas que permanecem no leito do Rio Iaco.
O valor chama atenção quando comparado ao custo da própria ponte. A construção da estrutura consumiu aproximadamente R$ 36 milhões. Assim, somente a operação para retirar os destroços pode atingir um montante próximo ao que foi desembolsado para erguer a obra.
O custo definitivo, no entanto, ainda dependerá da conclusão dos levantamentos técnicos. A operação também exige cuidados para que a retirada das peças já liberadas não comprometa estruturas que ainda precisam passar por perícia.
Escombros continuam no Rio Iaco
A ponte desabou no dia 5 de junho e parte significativa da estrutura permanece no Rio Iaco. Os destroços no trecho central dificultam a navegação de canoas e pequenas embarcações utilizadas por moradores e ribeirinhos.
No início de setembro, o ContilNet revelou que o Governo do Acre estava próximo de receber autorização do Instituto de Criminalística para iniciar a retirada parcial dos escombros. O delegado-geral da Polícia Civil, Pedro Buzolin, explicou à reportagem que a liberação seria delimitada e que a operação dependeria também de um estudo técnico sobre a forma adequada de remover as estruturas.
“Por mais que esteja liberado, vai ter que retirar sem danificar as outras estruturas que ainda precisam ser periciadas”, afirmou Buzolin na ocasião.
Isso significa que a limpeza do rio não consiste apenas na retirada física dos blocos. A operação precisa preservar elementos que ainda podem ser utilizados para determinar as causas do colapso.
Perícia ainda é um dos entraves
Outra dificuldade está relacionada à investigação técnica sobre o desabamento. Três meses após a queda, a empresa especializada de fora do Acre que deverá realizar análises dos materiais recolhidos ainda não havia sido contratada.
Pedro Buzolin explicou ao ContilNet que o Estado não dispõe dos equipamentos necessários para todos os exames exigidos pela complexidade do caso. O processo administrativo para contratação da empresa especializada permanecia em andamento e sem prazo definido para conclusão.
“A contratação da empresa ainda não [aconteceu]. Não tem prazo disso ainda”, declarou o delegado-geral. “Mas tem muita coisa para ser periciada até com relação à análise do material que nós já possuímos. É um processo muito extenso para ser analisado”, acrescentou.
Justiça bloqueou até R$ 36 milhões da construtora
Paralelamente às providências para retirada dos destroços, o desabamento é alvo de investigações nas áreas cível e criminal.
Nesta terça-feira (15), o Ministério Público do Estado do Acre (MPAC) detalhou as medidas adotadas desde a queda da estrutura. Uma investigação criminal busca esclarecer as circunstâncias do acidente, inclusive a possível existência de omissões relacionadas à fiscalização e à execução da obra.
Na esfera cível, uma decisão judicial determinou o bloqueio de até R$ 36 milhões em bens da Construtora Cidade, responsável pela obra, além da suspensão de pagamentos do Estado à empresa. Governo e construtora também devem apresentar um plano conjunto com prazos e custos para reparação dos danos, desobstrução do local e reconstrução da ponte.
O MPAC informou ainda que as investigações continuam e que novas medidas poderão ser tomadas conforme forem concluídas as perícias e analisados os documentos relacionados ao caso.
Ponte caiu pouco mais de um ano após inauguração
A Ponte Frei Paolino Baldassari ligava o Primeiro ao Segundo Distrito de Sena Madureira e foi inaugurada no fim de 2023. A estrutura estava interditada desde o dia 4 de junho e desabou no dia seguinte. Quatro pessoas ficaram feridas no acidente.
Desde então, moradores enfrentam mudanças na rotina de deslocamento, enquanto autoridades trabalham para esclarecer as causas do colapso e definir as condições para desobstruir o Rio Iaco.
Com a nova estimativa obtida pelo ContilNet, o impacto financeiro provocado pelo desastre ganha uma nova dimensão: a retirada dos restos da ponte, sozinha, poderá consumir mais de R$ 30 milhões, antes mesmo de se considerar o custo de uma eventual reconstrução.
Construtora diz que ainda não sabe quem vai tirar restos de ponte
O bloqueio do leito do Rio Iaco pelos restos da ponte Padre Paolino Baldassari tornou-se ponto de discussão em Sena. Em entrevista concedida durante vistoria técnica no local, em junho, os sócios da Construtora Cidade, Roberto Santos e Raul Santos, afirmaram que o início da limpeza e a desobstrução do manancial — essencial para a navegação local — dependem de um acerto formal com o Governo do Estado e da apuração pericial do acidente.
Roberto lamentou que o primeiro contato com a atual gestão estadual ocorra sob circunstâncias trágicas. “É a primeira vez, a gente nem conhece a governadora, né? É uma situação ruim. Nós passamos por vários governadores aqui e nós vamos conversar e, no diálogo, nós vamos ver o que vai acontecer”, emendou.

Roberto Santos é dono da Construtora Cidade/Foto: Gleison Júnior/Orna Audiovisual
Complementando o posicionamento do colega, o outro sócio da empreiteira, Raul Santos, indicou que a pressa para limpar a área esbarra na necessidade técnica de preservar as evidências para entender o colapso da obra, avaliada em quase R$ 40 milhões.
“Nós não sabemos [quem retira] porque nós temos que determinar as causas, ok? A causa do sinistro tem que ser levantada”, argumentou Raul.

Raul Santos é sócio do irmão na construtora/ Foto: Gleison Junior/Orna Audiovisual
Apesar da cautela técnica, o empresário fez questão de frisar que há um interesse mútuo entre a iniciativa privada e o poder público para desimpedir o tráfego fluvial o quanto antes.
“Mas isso eu posso garantir que é da nossa vontade, e acredito que é da vontade do governo do Acre também, de acelerar o máximo possível a retirada dos escombros”, concluiu o empreiteiro.
O Governo ainda não informou o que será feito com os escombros da ponte, mas o espaço segue aberto para esclarecimentos.



