Angel e Beatriz: “A gente nunca se viu casando. Até as eleições de 2018”
A gente nunca se viu casando, era para ser uma coisa mais “vamos morar juntas”, bem informal mesmo. Aí chegaram as eleições de 2018, o medo de perder direitos que estão garantidos, e fizemos tudo do dia para a noite. O segundo turno foi no final de outubro e, em novembro, a gente estava se organizando para casar.
Não foi um pedido romântico, mas as palavras que a Angel usou me marcaram muito: ‘A gente não sabe o que vai acontecer daqui para a frente, mas independentemente do que for, eu quero passar com você’. Aí caiu minha ficha: ‘Eu preciso casar com essa mulher’
Na nossa cabeça, a gente ia assinar o papel e pronto, mas quando contamos para as nossas amigas, elas fizeram questão de planejar uma festa. Mas a gente não tinha dinheiro naquele momento, então vários amigos começaram a escrever dizendo que iam ajudar a bancar. No final, foi tudo feito por elas: a comida, a música, a decoração, até as nossas roupas elas ajudaram a escolher.
Casamos no cartório em dezembro de 2018 — quase não tinha mais data disponível; a gente casou na penúltima sessão do ano, em 27 de dezembro.
E a festa aconteceu em janeiro, com uma cerimônia inter-religiosa, porque nenhuma de nós segue uma religião, mas nossas famílias são cristãs e também quisemos homenagear nossos ancestrais, casando no candomblé.
A festa foi linda, e acabou com a gente pulando na piscina e depois lavando o chão do salão com a ajuda dos nossos amigos. Foi um dos dias mais felizes da nossa vida.
Eu sou muito defensora do casamento. A gente vive uma pandemia com quase 400 mil mortes no país e não dá para ter certeza que eu não vou ser a próxima. Se acontecer, sei que a Angel não vai ficar desamparada. E essa segurança é muito importante, principalmente para casais como a gente, que ainda não são plenamente reconhecidos.
Antes de casar, achei que não ia me acostumar a chamá-la de esposa, em duas semanas era “minha esposa” pra cá, “minha esposa” pra lá. Entendo que para casais héteros essa palavra pode ter uma conotação de posse e que, por isso, algumas pessoas têm resistência. Mas, para nós, é diferente, não tem nenhum traço pejorativo, opressor.
O casamento não é maior ou melhor que qualquer outra relação, não se trata disso, mas dá uma segurança jurídica enorme para pessoas como a gente.
Quando a Marielle Franco morreu, todo mundo se referia a Mônica Benício como companheira, mas ela não era companheira, era esposa.
É algo que nos foi negado por tanto tempo que eu não vou admitir que ninguém diga que a Angel é qualquer coisa que não minha esposa.
*A jornalista Beatriz Sanz e a publicitária Angel Pinheiro moram em São Paulo e são casadas há dois anos.