imigração
A diáspora haitiana após o violento terremoto que atingiu o Haiti em 2010 trouxe milhares de imigrantes para o Brasil e Cascavel foi uma das cidades que mais absorveu a população estrangeira. Não existe um número oficial, mas estima-se que mais de três mil haitianos moram hoje em Cascavel. A crise econômica aliada à falta de qualificação profissional dos imigrantes, além da dificuldade de relacionamento com colegas de trabalhos brasileiros são apontados como fatores determinantes que dificulta a colocação dos haitianos no mercado de trabalho. Em Cascavel, existem aproximadamente 500 haitianos desempregados, segundo revelou o vice-presidente da associação que representa esses imigrantes, Marcelin Geffrard.
Maristela Becker Miranda, gerente da Agência do Trabalhador em Cascavel, confirma que está encontrando dificuldades para encaminhar os haitianos para o mercado de trabalho e diz estar preocupada com a situação. Algumas empresas são claras e dizem que não querem a mão de obra haitiana, às vezes a agência insiste, mas poucas vagas aparecem. Até a construção civil que empregou muitos haitianos hoje se recusa a receber os trabalhadores. “Eu estou bastante apreensiva de uns tempos para cá essa rejeição aumentou”, diz.
Segundo Maristela, não se pode negar que a crise econômica que o Brasil atravessa é um fator que motiva a não contratação, mas na visão dela há algo a mais que está impedindo que os estrangeiros tenham acesso ao emprego em Cascavel. Ela ressalta que se o trabalhador está cumprindo o horário e com a obrigação laboral, é de se estranhar o fato de os trabalhadores estarem sendo colocado de lado pelas empresas. “Não sei se é preconceito, uma discriminação mascarada”, comenta. Para as mulheres haitianas, o problema ainda é maior. Apenas alguns frigoríficos estão abrindo as portas para as estrangeiras. Para Maristela, o governo abriu as fronteiras aos haitianos sem ter uma política para acolher a população que veio em massa para o Brasil.
Macelin Geffrad, que se tornou líder dos haitianos por ter desenvoltura, falar cinco idiomas confirma que a situação está difícil. Segundo ele, ultimamente as empresas têm falado que preferem contratar brasileiros e alegam que os haitianos com medo de ações judiciais dos estrangeiros. “Falam que os haitianos procuram a Justiça, mas os advogados dizem que é um direito deles”, afirma Geffrard. Muitos haitianos têm procurado cidades menores para tentar um trabalho.
Questionado sobre uma possível ação de discriminação ou xenofobia por parte dos empresários da região, Geffrad responde em tom diplomático. “A gente não pode generalizar, você não pode colocar todo mundo no mesmo saco. Tem gente boa e ruim em todo o lugar”, diz. Até no meio de seus conterrâneos ele afirma que há pessoas de todas as qualidades. “Com dizem os brasileiros, tem haitiano que é vadio”, declara.
Com o crescente desemprego, dezenas de haitianos procuram Geffrad diariamente para tentar mediar uma solução. “Eu não sei o que fazer, eles ligam xingando e reclamando”, relata. Segundo Geffrad, há muitos haitianos em dificuldades financeiras em Cascavel, alguns sendo obrigados a deixarem as casas por não terem como pagar aluguel. “Estou muito preocupado, todo o dia estão me ligando. Tenho uma lista [de desempregados] em minhas mãos”, diz. Ele já pensa em realizar uma reunião em Cascavel para discutir a questão.