
Damião, que hoje atua como presidente da Apasama, tentou se matar depois de histórico de depressão: Foto: Charlton Lopes/ContilNet
A corda improvisada, a falta de sentido e a pressa em abreviar o sofrimento. A árvore que serviu de sombra para a família em animados encontros de domingo inspirou uma imagem mais sombria. A sombra da morte se balançava naquela árvore e o convidava para colocar fim ao sofrimento invisível que o atormentava diariamente. A dor psicológica era insuportável, a vida parecia não fazer sentido. Poucos segundos de uma decisão instável fez Damião Nunes da Costa não entrar para as frias estatísticas do suicídio no Acre. Devia haver saída e forma de ajudar o exército de “mortos-vivos” que sofrem de problemas psicológicos, diagnosticados ou não, mas que levaram nos últimos três anos mais de uma centena de pessoas a óbito por suicídio no Estado. O Acre possui privilegiado lugar no vergonhoso ranking de auto-extermínio.
O Acre está em 4° lugar entre os estados brasileiros no crescimento das taxas de suicídio da população jovem, de 15 a 29 anos, um aumento de 83% por cem mil habitantes. Em abril de 2015, os registros de óbitos chegaram a fazer constar três suicídios em um único dia . Duas das três emblemáticas vitimas de abril de 2015 possuíam 24 anos e se mataram enforcadas, marcando apenas minutos de diferença entre seus infortúnios.
Damião, aquele que escapou das estatísticas do suicídio, atualmente, coordena a Associação de Pacientes e Amigos de Saúde Mental do Acre (Apasama) e resolveu transformar a própria dor em força motora de superação e mecanismo para poder ajudar outras pessoas.
“Procuramos ajudar as pessoas a achar um tratamento adequado para que saibam que depressão, a exemplo de outras doenças, tem cura e que podem receber tratamento adequado e seguir com a vida.”, diz.
No intervalo em que Damião perdeu o emprego de motorista de ônibus e foi diagnosticado com depressão, muita coisa já aconteceu e muitas batalhas ele já venceu. Não sucumbiu ao flerte com o suicídio e tem ajudado a lutar pela efetivação de uma reforma psiquiátrica que livre os pacientes do estigma e do isolamento e os permita receber tratamento adequado, reinserido na comunidade e podendo contar com um atendimento multidisciplinar.
Naquela época, ele não sabia; mas não estava sozinho ao apresentar uma patologia que tem levado milhares de pessoas ao suicídio. Também desconhecia o fato de estar iniciando uma longa batalha em busca de um atendimento psicológico adequado e capaz de livrá-lo da segregação praticamente inerente a toda pessoa com transtorno mental.
Quem atualmente vê Damião discursando, firmemente, como o fez durante o seminário realizado pela Secretara de Saúde do Acre (Sesacre) , no dia 10 de novembro de 2015, falando com segurança perante a uma plateia composta de estudiosos e especialistas da área como é o caso de Roberto Tykanori, coordenador nacional de saúde metal do Ministério da Saúde e uma das grandes referências nacionais em Saúde Mental e extenso histórico no movimento da reforma psiquiátrica no Brasil, nem imagina que ele já foi vítima de um atendimento ultrapassado e desprovido de teorias factíveis e solucionadoras.
“Eu ia lá e só me davam mais e mais remédios. A verdade é que os grandes números de pessoas que procuram atendimento saem de lá, Hospital de Saúde Mental do Acre (Hosmac), com receitas e seguirão os próximos dias vivendo dopadas”, diz.
Quem vê Damião falante, articulado e estabelecendo laços, não imagina o quanto ele se sentiu sozinho em sua batalha. “Eu me sentia sozinho. A gente nunca imagina que isso possa acontecer com a gente (ter depressão). Comigo aconteceu depois que perdi o emprego por ter enfrentado um problema na coluna. Não sabia como lidar com tudo aquilo. Chegou ao ponto de eu ir ao Hosmac e pedir para ficar internado.”, conta, emocionado.
Se foi duro para Damião buscar o diagnóstico, pior ainda foi lidar com ele sem uma rede humana de ajuda. Naquela época, ele estava sozinho, solitário e se sentia inadequado, relembra. Ele era um zumbi social, sempre dopado e em busca de mais remédios que aliviassem a dor invisível, porém aniquiladora.
O diagnóstico, as pesadas medicações e a falta de conhecimento sobre os transtornos psiquiátricos aumentaram os suplícios de Damião e o levaram a ser chamado de “o doido” e o fizeram encarar verdadeiras peregrinações, quase diárias ao Hosmac, que, a propósito, é um dos poucos hospitais psiquiátricos a existirem no Brasil, em choque com a lei da reforma psiquiátrica. Nem sabia ele, naquela época, que estava a integrar um crescente exército de pacientes com transtornos psiquiátricos que sofrem para receber um diagnóstico e sofrem o dobro após serem obrigados a enfrentar um tratamento ultrapassado. “Quando eu fui diagnosticado e comecei a fazer tratamento no Hosmac, veio o preconceito. Nada mais podia acontecer dentro da minha casa, eu perdi o direito de ter voz, tudo que eu falava as pessoas diziam ‘la vem o doido’. “ , relembra , com certo tom de amargura indisfarçada.
Por falta da efetivação de uma Rede Atenção Psicossocial (Raps), um dos pilares da propalada reforma psiquiátrica, que lhe garantisse um tratamento mais integral e eficaz, Damião passou a adotar a comunidade do Hosmac, médicos e pacientes, como parte de sua nova rotina. Lá fez amigos e acompanhou o desenrolar de histórias dramáticas, quase todas com fins trágicos. “Vi e ouvi muita coisa triste já, desde relatos de pacientes internados que contaram que foram mordidos por funcionários até pacientes com sérios transtornos que ficaram sem tratamento psicológico e, abandonados pela família, chegaram ao limiar da vida, matando e sendo mortos.”, disse.

Breve informações destacada na mídia sobre o assassinato, mas que não revela o transtorno mental do autor do fato/Foto: Reprodução
Ao relembrar de pacientes que não contaram com uma rede de atenção que ajudasse a família a compreender a patologia, Damião lamenta com amargura o trágico fim do paciente que foi expulso de casa por ser “louco”, quando na verdade ele sofria de severa bipolaridade. Sem tratamento, sem medicação e abandonado, o paciente bipolar acabou matando a namorada e enterrou o corpo na sala de casa. O resultado não poderia ser mais funesto para alguém com transtornos mentais. Ele foi preso em cela onde terminou assassinado por outros presidiários. A notícia, que não ganhou mais do que 10 linhas nos sites locais, carregava na verdade um latente drama de pacientes relegados à própria sorte por terem transtornos psicológicos. “A mãe dele mandou ele embora de casa. Ele construiu um barraco e isolado e sem tratamento cometeu o crime. Acabou sendo assassinado na cadeia. Recebeu prisão e morte quando merecia tratamento que o teria impedido de cometer o crime.”, comenta.
Suicídio: epidemia silenciosa que vem afetando os acreanos
Um milhão de mortes por ano são causadas por suicídio, de acordo com dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), um óbito a cada 45 segundos. Para cada caso fatal, há pelo menos outras vinte tentativas fracassadas. O auto-extermínio é a terceira maior causa de mortes, produzindo mais óbitos do que o HIV. No Brasil, são 27 mortes por dia e o Acre conquistou seu quinhão nestas funestas estatísticas.
No ranking de todos os estados brasileiros, o Acre aparece em 4° lugar no crescimento das taxas de suicídio da população jovem, de 15 a 29 anos, com um aumento de 83% por cem mil habitantes. Os dados são do “Mapa da Violência 2014”, divulgado pelo Centro Brasileiro de Estudos Latino-Americanos (Cebela).
O estado acreano aparece abaixo apenas da Paraíba (109,7%), Amazonas (100,6%) e Tocantins (90,9%). Em números totais, o Acre apresentou um aumento ainda maior, de 130% na quantidade de suicídios, com uma média de aproximadamente 14 ocorrências por ano.
A escala ascendente do auto-extermínio é alarmante. Somente em Rio Branco, de acordo com o levantamento, foi registrado um aumento de 42,9%, nos últimos 10 anos pesquisados.
Em 2015, os números de óbitos ainda não foram fechados, porém a psicóloga Andreia Villas Boas, responsável pelo Núcleo de Prevenção e Posvenção de Suicídio do Hospital de Urgência e Emergência de Rio Branco (Huerb), acredita que já tenham superado os de 2014 ainda no primeiro semestre. No Huerb foram registrados 490 entradas de pacientes por suposta tentativa de suicídio. Esse registro refere-se apenas aos seis primeiros meses do ano. Dados da Polícia Técnico- Científica do governo do Acre mostram que até julho de 2015 foram registrados 27 suicídios, praticamente o número total registrado em 2013, que foi de 30 óbitos e pouco mais da metade do total de 2014, foi 57. Os dados mencionados se encaminham para que as estatísticas de suicídio no Acre fiquem ainda mais sombrias.
Vale ressaltar que, em um ano, no Brasil, o aumento de casos de óbitos foi de 15% e que o Acre triplicou a média nacional.
Uma perspectiva ainda mais tenebrosa surge neste cenário: espera-se que até 2020 um surto de casos faça dobrar a quantidade de suicídios. E é exatamente isso que os profissionais da saúde mental querem evitar. Mas, para tanto, é importante que haja avanços nas políticas públicas da rede de atenção.
Apontada como uma dos grandes causadoras do suicídio, a depressão ainda é tratada como tabu por boa parte da sociedade que segue ignorando os problemas da alma.

Psicóloga Patrícia Yano afirma que de fato há uma relação entre os transtornos depressivos e os óbitos por suicídio/Foto: Reprodução
A psicóloga Patrícia Yano, PhD em Humanidades e Ciências Sociais pela Universidade de Nagoya, no Japão, afirma que de fato há uma relação entre os transtornos depressivos e os óbitos por suicídio, porém ela ressalta que esses nem sempre podem ser a primeira disfunção ou sofrimento emocional que se manifesta.
“Às vezes, a depressão acontece em decorrência de outro tipo de sofrimento. Quando as pessoas apresentam ideação suicida, ela pode estar, sim, ligada ao transtorno depressivo maior e aí é importante políticas voltadas para o assunto, que é caso de saúde pública. Um dos caminhos que eu vejo é a psicoeducação. É conhecer a problemática. Eu vejo, por exemplo, que é importante entender o que é depressão.”, acrescenta.
Habituado a lidar diariamente com pacientes que já tentaram o suicídio, o psiquiatra Marcos Araripe, diretor do Hosmac, concorda que a causa mais predominante entre os suicidas é a depressão. “Não é um fator isolado, mas sem duvida é o predominante.“, explica .
Em defesa dos invisíveis: MPE atua na implantação da Rede de Atenção Psicossocial
“Como se fossem invisíveis, destituídos de direitos que não os deixam desfrutar e deveres que lhes são negados pelo fato de os considerarem incapazes. Sequer votam e, portanto, diminuem consideravelmente o número de pessoas dispostas a lutar por eles. Não possuem moeda de troca e nem há quem clame por eles” . Esse é parte do discurso do promotor de Justiça Gláucio Ney Shiroma Oshiro, da Promotoria Especializada de Defesa da Saúde do Ministério Público do Estado do Acre, ao defender a instalação efetiva da Rede de Atenção Psicossocial (Raps) e o fim do Hosmac, um dos últimos hospitais psiquiátricos ativos no Brasil, exibindo quase que descaradamente os seus 65 leitos de pacientes anônimos e abandonados a um modelo de tratamento que está há, pelo menos 13 anos, atrasado da lei 10.216/2001 que dispõe sobre a Proteção e os Direitos das Pessoas com Transtornos Mentais e redireciona o modelo assistencial em saúde mental.
Há três anos à frente da Promotoria Especializada de Defesa da Saúde, Gláucio Oshiro se transformou em uma espécie de embaixador da causa pré-instalação das Raps e declara que é impossível passar impunemente pela experiência de lidar com o tema saúde mental sem se envolver efetivamente.
“Depois que se passa a ver algumas situações, você muda os seus propósitos de vida. E a saúde mental é uma delas. Depois que você passa a entender e compreender, seus próprios propósitos se adequam à realidade de outras pessoas.”, declara.

“Não possuem moeda de troca e nem há quem clame por eles”, diz promotor Gláucio Ney Shiroma sobre pacientes internados em hospitais psiquiátricos/Foto: Ascom MPE
Longe de ser ou querer tratar de forma simplista um assunto complexo como a rede de atenção, que envolve diversos atores na efetivação de uma reforma psiquiátrica que preserve o ser humano na sua totalidade, respeitando sua integridade e dignidade e garantindo ao indivíduo o direito a ser tratado com humanidade e respeito e, no interesse exclusivo, de beneficiar sua saúde, visando a alcançar sua recuperação pela inserção na família, no trabalho e na comunidade, como rege o inciso II do artigo 2° da Lei 10. 216. “É uma rede e, portanto complexa de ser tratada. Não é tão simplista quanto parece, mas é preciso que se busque conhecimento e se quebre o silêncio que tanto prejudica quem necessita de atendimento. Há um silêncio da sociedade como um todo e não apenas dos agentes públicos.”, refere.
Com relação à lentidão e à suposta falta de interesse em se efetivar o modelo adequado ao tratamento com os pacientes de saúde mental, Gláucio Oshiro, reconhece o empenho dos técnicos da Sesacre, mas ressalta que a não- efetivação das redes esbarra na falta de interesse dos gestores. “Os técnicos vivem trabalhando nisso há muito tempo, eles têm interesse, mas há outras prioridades dos gestores. E aí, foge da competência deles.”, esclarece.
Cumpra-se a Lei: MPE impetra ação para que Estado e Sena Madureira construam CAPs
Na defesa dos interesses de todos aqueles que necessitam ou venham a necessitar de atendimento psiquiátrico, o Ministério Público do Estado do Acre, por meio da Promotora de Justiça de Sena Madureira, Vanessa Muniz, ingressou com uma Ação Civil Pública, em fevereiro de 2015, para que o Estado do Acre e o Município de Sena Madureira sejam obrigados a construir um Centro de Atenção Psicossocial (Caps I). A unidade terá como objetivo prestar atendimento mais completo aos pacientes com transtornos psiquiátricos .
No Acre, existem apenas dois Caps instalados nas cidades de Rio Branco e Cruzeiro do Sul para atendimento de toda a demanda do Estado. Portanto, ainda está longe de cumprir a Portaria nº 36/203 do Ministério da Saúde, que exige um Centro de Atenção Psicossocial para cada município com mais de 20 mil habitantes. Sena Madureira tem quase 39 mil. Logo, a norma continua sendo ignorada.
De acordo com levantamento do Ministério Público, em Sena Madureira há aproximadamente 50 pessoas com transtornos mentais/ intelectuais permanentes, sem contar as pessoas com necessidades decorrentes do uso de crack, álcool e outras drogas, que necessitam de tratamento especializado de qualidade, mas que, atualmente, são obrigadas a buscar tratamento na cidade de Rio Branco.
Ainda em dezembro de 2014, em Rio Branco, o MPE precisou ajuizar ação contra o Estado do Acre para implantação de um Caps Infantil. A ação foi ajuizada pelo titular da Promotoria Especializada de Defesa da Infância e Juventude, Ricardo Coelho de Carvalho, com o objetivo de proporcionar tratamento a crianças e adolescentes com transtorno mental e com necessidades decorrentes do uso de crack, álcool e outras drogas.

Promotor Ricardo Coelho, autor da ação que determina instalação de um CAPs infantil em Rio Branco/Foto: ContilNet
A ação do promotor surgiu após instauração de inquérito civil, que concluiu que Rio Branco tem seus pontos de atenção com atendimentos irregulares ou não instalados. Trata-se da necessidade de instalação de um CAPs Infantil.
Segundo apurado pelo inquérito civil instaurado na época, as crianças e adolescentes com transtornos decorrentes do uso, abuso ou dependência de substâncias psicoativas estariam recebendo atenção psicossocial ambulatorial no Centro de Atenção Psicossocial Álcool e outras Drogas em conjunto com adultos, embora Rio Branco possua perfil populacional para instalação de um Caps infantil que atendesse as regras vigentes no Ministério da Saúde. A respeito da implantação dos Caps e do fechamento do Hosmac, a gerente da Divisão de Saúde Mental do Acre, Karine Gonçalves, afirma que há um trabalho em andamento e que estão sendo cumpridas etapas para que todo o processo seja efetivado. Karine disse ainda que há um processo de esvaziamento do Hosmac com encaminhamento de pacientes de baixa e média complexidade para as Unidades de Referências de Atendimento ( Uraps) e que Estado e Município têm trabalhado para que até 2017 ou meados de 2018 sejam construídos os Caps. “ Estamos discutindo isto desde 2013 e sabemos que não é um assunto simples, pois envolve diversos atores que integram o processo.”, verbaliza.
Entregues à própria sorte: morrendo à mingua por conta de um modelo de saúde ultrapassado
Durante seis anos ele deu entrada em diferentes ocasiões no Huerb. Sempre foi atendido para uma breve desintoxicação ou simples sutura e, em seguida liberado. Tinha só 19 anos quando tentou contra a própria vida pela primeira vez. Aos 24, depois de dezenas de passagens pela emergência do maior hospital de Rio Branco, onde está a nata da equipe médica estadual, ele deu entrada no IML. Era o fim de uma luta silenciosa e anônima. Foi uma corda, o meio pelo qual ele comete suicídio, mas a causa do óbito bem que poderia ter sido descaso. “Durante todo este tempo ele dava sinais de um intenso sofrimento e pedia socorro, mas não houve acompanhamento, nem mesmo após as graves tentativas. Este é um dos nossos objetos de estudo. ”, declara a psicóloga Andréia Vilas Boas, do recém-instalado Núcleo de Suicídio do Huerb, que funciona em uma minúscula sala emprestada dentro da gigantesca unidade hospitalar da capital acreana.

Psicóloga Andréia Vilas Boas, autora do projeto de prevenção ao suicídio no Acre/Foto: Arquivo pessoal
O caso do rapaz que se matou aos 24 anos depois de intenso sofrimento psicológico serve para colocar fim ao mito de que, quem ameaça se matar não cumpre, e que saúde mental é apenas caso de hospital psiquiátrico quando, na verdade, é algo que deve interessar a todos os profissionais da saúde. A morte do jovem que virou mero estudo de caso, serve para mostrar a necessidade de uma rede de atenção multidisciplinar.
“Se tivesse acontecido o atendimento adequado e o acompanhamento, talvez não tivesse acontecido a morte. ”, diz a psicóloga.
O paciente sucumbiu às estatísticas e não pôde ver cumprida a lei 10. 216, que garante direitos e proteção à pessoa com transtornos mentais. Negaram-lhes o direito ao acolhimento adequado e humanização, resultantes de uma necessária reforma e modernização do serviço psiquiátrico. O Huerb lhe deu apenas fármacos e alguns litros de soro. Restaram a ele o desalento e o fim do caminho que se encerrou por falta de ajuda. “Precisamos de mais Caps e menos cápsulas. ”, é um dos mantras de Damião Costa, presidente da Apasama.
Subregistro: subnotificação e a invisibilidade da linda garota que quer morrer
R.E mede cerca de 1,75 metros, embora admita que nunca pensou em saber exatamente a sua altura , possui longos e lindos cabelos castanhos e é tão magra quanto poderia se exigir de qualquer modelo, mas dificilmente você verá as fotos dela em algum anúncio de moda. A terrível profecia, que ela apregoa a respeito de si mesma, indica que você pode encontrar o nome dela nos obituários. A linda garota se sente invisível e abandonada. Ela quer morrer.

A adolescente R.E., que já tentou 3 vezes contra a própria vida, com a amiga B.L./Foto: Anderson Bodanese/ContilNet
Ela só tem 15 anos, mas já atentou contra a própria vida três vezes no último ano. Nunca fez uma notificação oficial sobre o caso. O assunto é sempre escamoteado, não tratado e ela declara com melancolia que não irá se formar, pois não sabe se viverá até lá.
“Não sei se vou conseguir sobreviver. Talvez uma hora eu consiga. Ninguém se importa comigo e nem com isso (as tentativas de suicídio).”, afirma.
A adolescente moradora da periferia de Rio Branco é uma das milhares de vítimas invisíveis do sofrimento psicológico. “Nunca me levaram ao médico para falar nisso, nem acho que seja doença. Só estou cansada de viver porque não acho mais sentido para a vida, já que nem casa mais eu tenho. Não quero falar sobre o que estou passando, pois tenho medo de ir parar em um abrigo e lá ser ainda pior do que aqui fora. ”, declara a jovem que foi expulsa de casa pela mãe adotiva há cerca de um mês.

De acordo com pesquisas, o número de suicídios aumentou entre adolescentes e jovens de até 25 anos/Foto: Charlton Lopes/ContilNet
O caso do silencioso sofrimento de R. E e da invisibilidade dela perante os registros oficiais é algo que se repete com demasiada frequência. Durante muito tempo, a mídia mal falou em suicídio por atender o clamor de uma teoria que defende que, com propagação do assunto, poderão haver auto-extermínio em massa . Embora baseada nessa teoria e acrescentada a ela uma dose extra de tabu sobre a morte, o número de pessoas que atentam contra a própria vida não diminui. Pelo contrário, sob esse tabu imposto ao longo dos anos, a rede de saúde lida com sub-registros e subnotificações. “As informações não revelam os dados reais, porque nem sempre a família ou paciente diz o que realmente aconteceu. ”, afirma Andreia.
Ao que tudo indica, a tragédia pode ser bem maior, haja vista que se enfrenta o problema da subnotificação e falta de indicadores.
Terra dos esquecidos: sobrevivendo em meio à segregação
Há 25 anos que dona Marcelina Rocha mora na Rua Rio Grande do Sul, bairro Aeroporto Velho, Rio Branco, a poucos metros do Hosmac . Nesse longo tempo, admite ela, raramente pensa em quem vive enclausurado por trás daqueles surrados muros que ao mesmo tempo em que lhe parecem tão familiar, enclausuram uma realidade que ela, a exemplo de milhares de outras pessoas prefere ignorar. “Na verdade eu ainda chamo aí, o Hosmac, de Distrital. Nunca penso nos loucos que estão ai. Devem estar bem e, assim, nós também estamos seguros. ”, desabafa a aposentada de 72 anos.
O Hosmac, único hospital de saúde mental do Acre, resiste aos ventos de mudanças soprados pela tal reforma psiquiátrica, a qual assevera que o ideal é o paciente ser atendido por uma rede de atenção e ficar no convívio familiar e social. Dos 66 leitos que possui , 14 são ocupados por residentes fixos, uma dezena de pacientes ,vitimas de transtornos mentais, que enfrentam anos de internação e perderam o vínculo familiar. “Estes são os que não possuem qualquer vinculo. Além dos 14, nós temos mais 6 pacientes de longas internações. ” explica o diretor da unidade, psiquiatra Marcos Araripe, que conhece profundamente o hospital ainda do tempo em que era apenas psiquiatra ambulatorial do lugar.
Marcos Araripe diz que não há expectativa de datas para o fechamento do hospital, que segue atendendo casos de pequena e média complexidade.
“Nós atendemos um fluxo muito grande e embora as Uraps atendam alguns destes pacientes, a grande maioria ainda é conosco.”
O médico ressalta que para que os “moradores fixos” do hospital, os pacientes que perderam o vínculo familiar deixem o Hosmac é necessária a construção de residências terapêuticas para receberem os sobreviventes das longas internações em hospitais psiquiátricos.
O Acre está em descompasso com outros estados brasileiros que, sob o vento da reforma psiquiátrica e luta antimanicomial, apoiada na lei 10.216, fecharam com mais velocidade leitos em hospitais psiquiátricos e, ao mesmo tempo, começaram a colocar em funcionamento novas estruturas de tratamento a partir de uma perspectiva comunitária.
De acordo com a gerente de Divisão de Saúde Mental da Sesacre, Karine Gonçalves, não há previsão para fechamento de leitos do Hosmac. “Não pode ser de uma hora para outra senão gera desassistência. Estes pacientes de longa duração precisam realmente de uma residência terapêutica e esta é uma outra etapa que será discutida após a implantação da Raps”, explica.
A previsão para a construção das tais residências é um terceiro passo e que ocorrerá apenas depois de vencidas as primeiras etapas, como é o caso da construção dos Caps. Até lá, continua a segregação e a luta para devolver a mínima dignidade àqueles que perderam tudo, inclusive o direito de protestar.




