João Paulo Cunha
O mundo não está mais justo, mas está mais democrático. Essa é a boa notícia. A onda que começa pela Grécia e deve se espalhar pela Europa parece responder a uma insatisfação generalizada das pessoas que acreditaram em receituários de austeridade ditados pelos organismos econômicos. Elas viram a economia minguar, a dívida crescer, o desemprego aumentar e o futuro ficar nublado. Não há ortodoxia que vença a tristeza.
Os olhos se voltam para o berço da democracia. Há um valor importante nessa restauração da esperança. Não se trata de uma vitória já consagrada em resultados, mas de uma aposta. O que começa a se desenhar é uma alternativa que parece romper com o jogo de cartas marcadas que vem sendo descrito em todo o mundo. Mais que deslocamento de um lado ao outro do espectro ideológico, com suas consequências econômicas, o que parece surgir é a abertura ao novo. A história não acabou.
Sempre que nossos impasses são descritos lança-se mão de uma teoria mecânica e pouco crítica: saímos de um passado desigual e caminhamos, passo a passo, para uma sociedade madura. No Brasil, esse romance tem como personagens o PSDB e PT, que se somam numa trajetória que cobra agora a complementação de seu arco de conquistas. Cada lado teria um projeto, mas a base já estaria dada na obediência de certos valores comuns. Algo como uma troca de concessões entre a centro-direita e a centro-esquerda. A decisão democrática a cada eleição apenas apontaria o condutor.
Está na hora de mudar o enredo. E há alguns elementos fortes para isso. O primeiro deles é a identificação da mídia empresarial como uma das grandes fiadoras ideológicas e operacionais do projeto de concentração de renda no Brasil. A segunda certeza é que o sistema financeiro, com seu alinhamento internacional, não vai permitir a mudança das regras em direção a um maior investimento social a partir do Estado. A junção dessas duas barreiras cria um cenário impermeável às transformações, que precisa ser enfrentado com ousadia.
Como na Grécia, temos a nosso favor uma democracia forte. E é dela que deve partir o impulso para as mudanças. Algumas ações são inadiáveis, da educação à saúde, da segurança pública à habitação, da energia à mobilidade. Todas elas, no entanto, não brotam de necessidades técnicas ou de ajustes recessivos, mas de demandas políticas. Por isso o grande desafio é dar poder às pessoas e à cidadania organizada. Um projeto que congrega a reforma política com a institucionalização da participação popular. Só a política é capaz de salvar a economia.
É preciso estar atento aos sinais.
Dois filmes em cartaz tratam, a seu modo, dessa nova relação do homem com a história.
Em O abutre, de Dan Gilroy, a violência é servida no noticiário matinal como seu produto mais nobre. O personagem Louis Bloom capta – e depois fabrica – imagens que alimentam a sede de violência de uma sociedade que gosta ver na tela como a vida maltrata os outros. Os espectadores acreditam que não fazem parte do mundo que veem na TV, apenas gozam de sua volúpia destrutiva, pelo prazer de não ser como elas. Quem pensa que é um filme sobre sensacionalismo se engana, é um diagnóstico sobre a morte do homem livre. Sobre o fim da história.
Em Boyhood – Da infância à juventude, a sacada do diretor Richard Linklater é outra: é preciso ser sujeito, responsável pelas decisões tomadas e pela capacidade de resistir às imposições do destino. As pessoas se fazem nas atitudes que exercem, no difícil jogo de negociar com as forças da natureza e da sociedade, na busca de realização humana que leve o outro em consideração. A história não está do lado de fora, esperando como um prêmio que sinaliza os vencedores e os cínicos, mas realiza nossa disposição interior de lutar por uma vida que valha a pena.
Não deve ser um acaso o declínio da audiência dos telejornais. O espectro da vida real ronda o mundo.