ContilNet Notícias
Destaque

Estudo estima que Acre pode ter até 20 mil geoglifos escondidos na Amazônia

Por Maria Fernanda Arival, ContilNet 29/07/2026 às 14:00
GEOGLIFO JACO SA 2 3.14.1 2048x1152

Sítio Arqueológico Jacó Sá foi tombado pelo Iphan em 2018/Foto: Uêslei Araújo/Sema

Um artigo publicado no periódico científico Nature, considerado um dos mais importantes do mundo, aponta uma nova estimativa da quantidade de geoglifos no Acre e em outras regiões da Amazônia.

Nos últimos anos, foram identificados quase 1.300 estruturas, mas com uma tecnologia chamada Lidar (Light Detection and Ranging), o número real pode ser cerca de 20 mil, de acordo com o estudo.

A estimativa, de arqueólogos brasileiros e finlandeses, aponta que, caso os números estejam corretos, era necessário uma população indígena pré-colonial de 1,25 milhão e 3 milhões de habitantes.

Imagens digitais mostram algumas das estruturas pré-colombianas conhecidas como geóglifos, presentes no Acre e estados vizinhos/Foto: Reprodução/ Pärssinen et al., Nature (2026)

O artigo, chamado “Over 20,000 precolonial earthworks in the Southwest Amazonia” é assinado pelo professor da Universidade Federal do Acre, Alceu Ranzi, por Rhuan Carlos Lopes, da Universidade Federal do Pará, e por Martti Pärssinen, da Universidade de Helsinque.

O artigo também foi destaque no Aventuras na História e no O Globo.

Lidar

A nova tecnologia consiste no disparo de pulsos de laser, que podem ser enviados por drones ou aviões, durante sobrevoos da região que se deseja estudar.

O laser permite reconstruir variações de revelo de no solo com considerável grau de precisão. Além disso, a tecnologia consegue detectar áreas que foram cobertas com a vegetação ao longo do tempo.

LEIA: Acre tem mais de mil geoglifos descobertos, mas apenas 50% catalogados

Ao ContilNet, após a publicação de outro artigo chamado “Ancient Amazonian Earthwork Roads: Unveiling Ceremonial, Livelihood, and Networking Significances”, é assinado por Risto Kalliola, Martti Pärssinen, Alceu Ranzi e Antonia Damasceno Barbosa, o professor explicou que a pesquisa iniciou há 25 anos.

“Todos os anos, durante esses 25 anos, no mês de junho e julho nós estamos trabalhando. Então, quando a gente produz alguma coisa é o resultado de muito esforço e estamos muito felizes em poder oferecer à comunidade essas respostas do que são os geoglifos, quem construiu, quando construiu, que idade tem, e agora descobrimos que todas essas figuras estão interligadas entre si. Havia comunicação por essas estradas e esse artigo específico é para mostrar que eles não eram figuras isoladas, que eles estavam conectados por estradas”, destacou.

“Existe um mundo de informações e locais que ainda desconhecemos”, admite Antonia. O foco atual dos pesquisadores é entender a funcionalidade de cada caminho. “Muitas estradas levam a igarapés e fontes de água, outras ligam estruturas entre si, e algumas parecem levar a lugar nenhum”, disse.

LEIA TAMBÉM: Pesquisadores mapeiam 350 km de estradas milenares no Acre: “Monumental”

No artigo, os autores citam a “Civilização Aquiry”, que faz referência ao povo que vivia no território onde hoje é o Acre.

“O termo civilização Aquiry foi dado pelo Dr. Parssinen, que discutiu comigo qual nome seria para a gente dar a essa a essa civilização. E aí eu disse que essa civilização poderia ser dada o nome de Aquiry, que houve um documento em 1865, do William Chandless, em que ele escreveu que o Rio Aquiry era o principal afluente do Purus, que depois esse Aquiry se transformou em Acre, então por isso, a gente deu o nome de civilização Aquiry”, explicou.

A pesquisa iniciou há muitos anos/Foto: cedida

Nos locais onde foi possível observar para onde as estradas se dirigiam, os pesquisadores concluíram que cerca de 40% delas levando à beira dos rios. Outros 10% das estradas terminam nos geoglifos e em outras grandes estruturas de terra escavada e batida.

“É possível concluir que esse povo era um povo extremamente organizado, era uma civilização complexa, e possivelmente essas estradas aqui da Amazônia, elas se conectavam com as estradas dos Andes. Não eram restritos daqui. Havia comunicação entre as civilizações andinas, anterior aos Incas, que mercadorias transitavam entre essa região. Eles aqui viviam nesse mundo interior se comunicando entre si”, disse.

“Uma civilização extremamente complexa, com engenharia, com arquitetura, com astronomia, arquitetos, engenheiros com geometria. Eu digo em algumas das minhas palestras que, enquanto o Pitágoras estava desenvolvendo seu teorema lá na Grécia, os acreanos, eu digo acreanos antes do Acre, estavam desenvolvendo geometria monumental na Amazônia. É um mundo fantástico que está se abrindo para a humanidade”, continuou.

O professor destacou que o mapeamento realizado por ele, em conjunto com os demais pesquisadores, é inédito.

“Eu acho que esse mapeamento é sim algo inédito que foi revelado agora. Em 2008 esteve aqui no Acre um pesquisador que publicou na revista Science americana, o Charles Mann, que é autor de um livro chamado 1491: Novas Revelações das Américas Antes de Colombo, e ele diz nesse artigo que a descoberta dos geoglifos do Acre, que na época era apenas do Acre, era o maior acontecimento, era o mais extraordinário acontecimento na arqueologia amazônica dos últimos tempos”, ressaltou.

Sair da versão mobile