Astrônomos detectam ‘superterra’ a apenas 6 anos-luz de distância

Por Everton Damasceno, ContilNet 15/11/2018 às 09:00
epa06038302 An undated handout photo made available by NASA on 20 June 2017 shows an artist's concept depicting an itsy bitsy planetary system. NASA's Kepler space telescope team has identified 219 new planet candidates, 10 of which are near-Earth size and in the habitable zone of their star where liquid water could pool on the surface of a rocky planet, NASA announced on 19 June 2017. NASA's Kepler space telescope was the first agency mission capable of detecting Earth-size planets using the transit method, a photometric technique that measures the minuscule dimming of starlight as a planet passes in front of its host star. EPA/NASA/JPL-Caltech HANDOUT HANDOUT EDITORIAL USE ONLY/NO SALES

Com muito processamento e cerca de 20 anos de dados de observações, um grupo internacional de astrônomos detectou evidências de um planeta orbitando a Estrela de Barnard, localizada a apenas 6 anos-luz de distância.

Trata-se da estrela solitária mais próxima do Sol, que só não está mais perto que o sistema trinário Alfa Centauri (4,3 anos-luz). Isso anima os pesquisadores quanto às possibilidades de fazer observações diretas da luz do planeta com a próxima geração de telescópios e caracterizá-lo detalhadamente.

O planeta é uma superterra -com porte um pouco maior que o do nosso- e completa uma volta em torno de sua estrela a cada 233 dias. Se fosse no Sistema Solar, sua órbita seria um pouquinho maior que a de Vênus. Mas a Estrela de Barnard é bem menor e menos brilhante que o Sol, o que significa que, a essa distância, o mundo recém-descoberto deve ser um deserto gélido e hostil à vida, com temperatura estimada em -170 °C.

A descoberta foi feita pelo método de velocidade radial, também conhecido como o do “bamboleio gravitacional”. A lógica é que, conforme um planeta gira ao redor da estrela, ele induz um suave movimento na estrela, para lá e para cá, que altera o comprimento de onda da luz que emana dela. Ao monitorar um padrão repetitivo, os pesquisadores podem deduzir a distância e um valor mínimo da massa do planeta responsável.

Na teoria é simples. Na prática é mais complicado, porque a atividade estelar pode ser confundida com o padrão induzido pelo planeta.

“É, foi difícil”, diz Guillem Anglada-Escudé, pesquisador da Queen Mary University, de Londres, e coautor do trabalho, publicado nesta semana na revista Nature. “E a detecção não é tão limpa quanto gostaríamos. Mas é hora de reportar, já que as evidências são muito fortes.”

Além de vasculhar a base de dados com cerca de 20 anos de observações da Estrela de Barnard, com sete instrumentos diferentes, a equipe lançou mão de uma temporada de novas observações com os espectrógrafos Harps, do ESO (Observatório Europeu do Sul), e Carmenes, do Observatório de Calar Alto, na Espanha.

Com uma análise cuidadosa dos dados, antigos e novos, os pesquisadores calculam a chance de um falso positivo em menos de 1%.

Para os fissurados por astronomia, não passará despercebido o fato de que há muito tempo já se fala em planetas orbitando a Estrela de Barnard.

O astro ganhou esse nome graças às observações reportadas em 1916 pelo astrônomo americano Edward E. Barnard. Ele notou que a estrela, localizada na constelação de Ofiúco, estava mudando de lugar no céu em alta velocidade, deslocando-se depressa com relação a nós.

Mas o bicho pegou mesmo nos anos 1960, quando o holandês Peter van de Kamp disse ter descoberto evidências de planetas gigantes gasosos ao redor da estrela.

Ué, mas o primeiro exoplaneta descoberto ao redor de uma estrela ativa não veio só em 1995? Pois é. Embora tenha passado duas décadas reportando esses planetas gigantes gasosos ao redor da Estrela de Barnard, no fim ficou demonstrado que as “descobertas” de Van de Kamp eram falsos positivos, causados por efeitos induzidos por algo tão trivial quando o processo de manutenção do telescópio.

Fato é que, desde então, cientistas têm procurado os “verdadeiros” planetas de Barnard. Agora acharam o primeiro. E, veja só, talvez exista também um gigante gasoso ao redor dela, como sugeria – por motivos errados – Van de Kamp.

“Há evidências muito fortes de um padrão que tipicamente indicaria a presença de um planeta gigante gasoso – maior que Netuno – com período orbital muito longo, mas o conjunto de dados não é ainda suficiente para dizer muito mais que isso”, diz Anglada-Escudé.

Em artigo científico, os cientistas sugerem que esse gigante gasoso, se existir, deve completar uma volta ao redor da Estrela de Barnard a cada 18 anos. Mas, com os dados à disposição, ainda é cedo para afirmar que ele realmente esteja lá.

E planetas interiores, mais próximos da estrela? Poderia haver algum? Improvável, mas não impossível.

“Parece não haver nenhum planeta ‘significativo’ dentro da órbita do Estrela de Barnard b”, diz Anglada-Escudé. “Poderíamos ter detectado coisas tão pequenas quanto a Terra e não vimos nada até agora. Isso não significa que eles não estão lá – poderia haver planetas numa órbita inclinada que não teríamos como detectar –, mas não há evidências para qualquer mundo como a Terra, ‘ameno’, até agora.”

Ou seja, diferentemente do Sol e de Proxima Centauri, a Estrela de Barnard parece não ter ganho na loteria cósmica dos planetas potencialmente habitáveis. Mas isso não torna a atual descoberta menos importante.

Conteúdo Original / Fonte: TECHAOMINUTO

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