Estardalhaço do livro

Por Marina, ContilNet 24/02/2015 às 15:22

Paulo TedescoPaulo Tedesco

Paulo TedescoDesde os primeiros leitores digitais, de tudo o que se dizia sobre o que chamavam livro digital, vendido através de caros parelhinhos, e propalado como o precursor do fim do livro em papel, praticamente nada se confirmou. O que ocorreu, isto sim, foi que esse livro digital dos aparelhinhos, ocupou uma fatia não muito expressiva no faturamento das editoras, um tanto tímida, se pensarmos na gritaria em torno de seu lançamento.

No distante ano de 2009 dizia, em minha primeira turma de “O livro passo a passo” da Oficina do Livro, que o tal “ebook” e seus encantamentos soavam como campanha de marketing para proteger o mercado editorial dos mesmos efeitos que o mercado da música havia passado frente à evolução digital. Logo não era uma proposta séria, como alguns tentaram fazer crer sobre os rumos do livro e da leitura no novo suporte.

Passado o primeiro furor do livro digital tanto na produção de novos como naqueles guardados pelas bibliotecas mundo afora, é preciso, mais do que nunca, que todos os leitores, bem como os envolvidos na indústria editorial, compreendam que o maior enigma do livro, agora reside em dois elementos considerados essenciais ao conhecimento: a proteção ao direito autoral e o amplo e irrestrito acesso à produção e fruição dos conteúdos escritos.

Isto posto, podemos, então, refazer nosso pensamento, o livro, ou seu conceito, que afinal não passa de tinta ou pixel preto sobre fundo branco, não morreu nem morrerá. O livro precisa é ser repensado para que protejamos a bibliodiversidade, ou seja, que cuide do autor que há em cada um de nós, e, de outro, que garanta a possibilidade de que todos possamos escolher, debater e ler, o que de melhor e mais importante a humanidade já escreveu.

O futuro, minha gente, não é somente da indústria editorial e da comunicação ou mesmo de governos, sejam esses quais forem, o futuro é de todos, do mais jovem leitor ao mais distante cientista.

E o que importa e o que interessa, é se nossos netos e bisnetos lerão Flaubert, interagirão com Tolstói, discutirão Kafka, se perguntarão sobre Machado e Clarice Lispector, e se (a mim o mais importante) ainda se debaterão nos deliciosos desvãos da poesia de gente como Drummond, Fernando Pessoa, Mario Quintana, e assim possamos compreender que não somos virtuais ou, simplesmente, “digitais”, somos é de carne e osso e sonhos mas muito reais.

 

* Escritor, consultor e professor de produção escrita editorial

Conteúdo Original / Fonte: Brasil de Fato

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