Festa de 46 anos: “O jornal O Rio Branco é maior do que nós”, diz colunista político

Por Suporte 21/04/2015 às 14:38

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Evandro CordeiroO jornal O Rio Branco é maior do que nós

*Evandro Cordeiro

Comecei na redação de O Rio Branco quando a gente disputava as Olivetti’s quase a tapa, final dos anos 1980, pra começo de 1990. Havia muita máquina, mas igualmente repórteres. Não quero dizer que o jornalismo era melhor, por que a história acontece por partes e cada momento tem sua particularidade, sua singularidade. Todavia, na redação havia quem brigasse para ser pelo menos capa no dia seguinte. E aquilo já era muita coisa, a gente admitia. Imagine ser a manchete. Era porre na certa. Eu estive lá, abelhudo. Não sei como, mas estive. Era muito pra mim disputar uma capa com uma turma onde figuravam Abelardo Jurema, Antônio Muniz, Antônio Klemer, Antonio Stélio, Katia Chaves, Jaime Moreira, Ana de Sales, Raimundo Fernandes… Era um timaço, mas eu brigava. Algumas poucas vezes, fui. Sob o comando da Socorro Camelo, aquela tropa de bons jornalistas me sufocava com textos maravilhosos e seus nomes já impregnados no consciente coletivo do leitor, mas eu, destemido que só, sobrevivi. Sobrevivi, inclusive, a Mario Emílio Malaquias, Vânia Pinheiro, Fé em Deus de Carvalho, ou Pheindews, como queiram. Era uma constelação. Sem contar que no outro jornal da cidade tinha profissional do quilate de Chico Araújo, Tião Maia, Charlene Carvalho, Astério Moreira e Sílvio Martinello, para citar apenas alguns.

Eu passei pelo teste. Aos trancos e barrancos, mas acho que passei, graças a Deus, trazido pela redação, que fui, pelo meu compadre Raimundo Fernandes, um sujeito que viu em mim alguma coisa boa. Depois do Fernandes e da Rose Peres, lendária fotógrafa que apostava muito em mim, também, foi mais fácil entrar naquele jogo de estrelas das nossas redações dos anos 1980 e 1990. Depois que eu me encaixei escrevendo para o caderno de Cotidiano, o universo pareceu conspirar em meu favor. Daí pra frente foi batata; deu tudo certo. Convenhamos, eu também me dispus a aprender aquela arte que tanto me atraia desde que, no banheiro lá de casa, na zona rural dos arredores de Rio Branco, eu lia o rótulo do sabonete Phebo que o papai comprava no Longuinha, além de outros folhetins quaisquer. Me lembro duma reportagem sobre a queda dum jato na cabeceira do aeroporto Presidente Médici, quando morreram engenheiros da Eletronorte. Li e reli aquele texto, apócrifo, sempre que ia ao banheiro, até o jornal desbotar de vez, quando fiz outro uso daquela edição histórica, você imagina. Eu gostava de lê, ainda bem e tinha que ser de dia, na privada, porque à noite, sob o foco da lamparina, era ruim pra vista e a gente era orientado a dormir cedo por causa dos que fazeres da manhã seguinte. Eu gostava tanto daquilo que desconfiei e disse a mim mesmo: um dia escreverei pra jornal. Não deu outra. Meu presságio foi nostradâmico.

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Mais e o jornal O Rio Branco, onde entra nisso? Upa lelê! Ai é que está o “x” da questão. Eu contei com a sorte, com meu esforço nada hercúleo, mas esforço, meu tino pra coisa, claro, mas, sobretudo, precisei da escola. Ai O Rio Branco me deu a mão. Graças a Deus meu pai já trabalhava aqui. Seu Osmar Alves Cordeiro era o sujeito que seu Aldecir Paz D’Ávila, outra lenda da história desse matutino, gerentão, carrancudo, disciplinado e disciplinador, tinha descoberto para tomar conta do parque gráfico. Naquele princípio dos anos 1980 eu passei a ser um cidadão privilegiado, por que era um dos primeiros a ler a edição do dia do jornal O Rio Branco. Seu Osmar, um pai carinhoso, mas durão, do tipo que nunca dava mole pra menino ficar sossegado em casa, me passou a tarefa de vir com ele nas madrugadas dobrar e encartar o segundo no primeiro caderno. Ele era o xerifão lá de casa e das oficinas do Jornal. Dra ali que as coisas começavam a se encaixar em meu favor.

Naquele período, jornal de papel, ou impresso, era a bússola da sociedade. Todo mundo se guiava por este ou aquele. Sei lá quantos jornais fossem lançados nas bancas, a edição era sempre esgotada – e cedo. Ainda mais que o Acre fervilhava de notícia quente, principalmente por meio da crônica policial. Vivíamos num Estado ainda bucólico, com ares de seringal e, nisso, muita coisa era resolvida na peixeira ou no revólver. Cadáver, de manhã, “barrela ou importante”, como dizia o Zé Siroco, um dos maiores vendedores de jornais de todos os tempos em Rio branco, era tão certo quanto a luz do sol. E eu lá, naquele porão, dobrando e encartando a edição do dia, preparada nas 15hs anteriores por uma equipe de redatores onde tinha o Zé Leite, apenas para citar uma das lendas.

Pois bem. Daquele parque gráfico, fedorento a tinta, infernizado pelo barulho estridente da OFF7, uma máquina alemã adquirida ainda pelo grupo Tourinho, a quem pertencia o jornal O Rio Branco, pelo menos até meados dos anos 1980, acabei subindo pra redação. Amava viver aquilo tudo. Era uma novidade maravilhosa para quem, dez anos antes, na colônia, lia rótulo de sabonete. Antes de chegar à redação, no entanto, fui submetido a experiências agradáveis em setores mais “estrambólicos”, mas imprescindíveis, para se fazer um jornal naquela época. Estive no fotolito, na paginação, na manutenção das linotipos e pela limpeza do parque inteiro. Sempre lendo a edição do dia e ameaçando a mim mesmo, com palavras de alto calão, tipo: Evandro, você ainda vai escrever nesse jornal; você ainda vai fazer sucesso, menino! Bem, sucesso, sucesso mesmo, não sei, mas que escrevi, escrevi, como diria Pôncio Pilatos, o governador Romano que condenou Jesus Cristo a morte de cruz. Tinha tido dois bons começos: a passagem pelas redações das rádios Novo Andirá e Difusora Acreana, além da experiência no banheiro lá de casa, onde lia tudo, da composição química do sabonete aquelas revistinhas impublicáveis do auge da puberdade.

A redação do jornal O Rio Branco acabou virando minha segunda casa. Foi aqui que cresci em todos os sentidos, até onde a natureza quis. Vi minhas três filhas crescer, vi meu cabelo embranquecer e o Acre sofrer a metamorfose da sociedade evolutiva. Quase tudo aqui dentro desse jornal, para mim e para muitos uma escola da vida e da boa redação. Das Olivetti’s até os computadores de última geração, passaram pelo glorioso O Rio Branco um time de bons repórteres – e de maus, também. Mais passaram. Para a sorte da história, o nome O Rio Branco é maior que o meu – e muito – e de todos os que tiveram a oportunidade de estar aqui. Do Epaminondas Bararuna até a Thais Farias, gerações se passaram, mas a marca ficou – e ficará.

Salve O Rio Branco!

*Evandro Cordeiro é jornalista

Conteúdo Original / Fonte: Evandro Cordeiro

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