A política costuma produzir ironias. E poucas são tão emblemáticas quanto a situação do senador Flávio Bolsonaro no Acre.
Se olharmos apenas para o discurso, seria natural imaginar que o estado se transformaria em um de seus principais redutos. Afinal, os três principais candidatos ao governo disputam o eleitorado de direita. Todos, em maior ou menor grau, dialogam com a pauta conservadora. O Acre deu mais de 70% dos votos à direita na última eleição presidencial.
Mas as decisões tomadas em Brasília contam outra história.
Nesta sexta-feira (31), o Progressistas decidiu permanecer neutro na disputa pelo Palácio do Planalto e descartou indicar a senadora Tereza Cristina como vice de Flávio Bolsonaro. A posição foi aprovada após consulta aos diretórios estaduais e praticamente encerrou qualquer expectativa de uma aliança formal entre PP e PL no primeiro turno.
“O Progressistas, após consulta aos seus diretórios estaduais, decidiu, por maioria, permanecer neutro no processo eleitoral. Diante disso, reiteramos a posição de não convocar Convenção Nacional. A decisão já foi comunicada e acatada pela nossa líder no Senado Federal, senadora Tereza Cristina”, disse a nota emitida pelo partido.
O efeito dessa decisão chega imediatamente ao Acre.
Mailza Assis é governadora pelo PP. Sua chapa ao governo reúne, entre outros partidos, justamente o PL, comandado no estado por Márcio Bittar, um dos principais aliados do bolsonarismo acreano. É uma composição que, até aqui, parecia desenhar naturalmente um palanque para Flávio.
Agora, a conta ficou mais complicada. O PP nacional escolheu a neutralidade. E neutralidade, em eleição presidencial, costuma significar uma orientação clara: cada estado administra seu próprio constrangimento.
A situação também não parece confortável no outro lado da direita.
O Republicanos, partido de Alan Rick, caminha para seguir o mesmo caminho do Progressistas. A tendência é que a convenção nacional também opte pela neutralidade, recusando uma aliança formal com o PL.
O partido marcou sua convenção para terça-feira (4) e deve rejeitar uma aliança com o senador Flávio Bolsonaro, de acordo com três parlamentares da cúpula do partido e dois dirigentes nacionais. A informação foi revelada pela Folha de SP nesta semana decisiva para os registros das chapas.
Sobra Tião Bocalom. Mas nem aí o cenário é simples.
Embora seja um dos políticos mais identificados com o bolsonarismo no Acre, Bocalom hoje está no PSDB. E a direção nacional tucana já sinalizou que pretende manter distância tanto do PT quanto de Flávio Bolsonaro no primeiro turno, defendendo uma alternativa fora da polarização.
Em entrevista ao SBT, o presidente nacional da sigla, Paulo Serra, descartou tanto uma aproximação com o PT quanto um apoio a Flávio Bolsonaro no primeiro turno. “O PT é o nosso adversário histórico, não faz sentido”, afirmou. Em seguida, deixou claro que o partido pretende buscar outro caminho, defendendo candidaturas “fora da polarização”, citando nomes como Ronaldo Caiado e Romeu Zema, sem descartar inclusive alternativas menores.
É uma fotografia curiosa. Flávio Bolsonaro pode entrar na campanha presidencial sem um palanque oficialmente respaldado pelas direções nacionais dos partidos que sustentam justamente os principais nomes da direita acreana.
Isso não significa que faltará apoio político. Márcio Bittar continua sendo uma liderança influente no PL acreano. Bocalom dificilmente esconderá sua identificação com o bolsonarismo. E Alan Rick conversa com um eleitorado que, em grande parte, também simpatiza com esse campo político.
Mas uma coisa é a afinidade eleitoral. Outra, bem diferente, é o alinhamento institucional.
As decisões de PP, Republicanos e PSDB mostram que as eleições estaduais e a disputa presidencial seguirão caminhos menos sincronizados do que muitos imaginavam. E obrigam candidatos acreanos a administrar um equilíbrio delicado: agradar um eleitor majoritariamente conservador sem contrariar as estratégias definidas por seus partidos em Brasília.
No fim das contas, o maior desafio de Flávio Bolsonaro no Acre talvez não seja conquistar votos. Pode ser encontrar um palanque que seus aliados nacionais estejam dispostos a chamar de seu.
