coluna
Cuiabá a Campo Grande
Poderia dizer que até aquele momento, a viagem havia sido um grande passeio. Exceto por um trecho ou outro mais perigoso e algumas tempestades, nada se comparava ao que enfrentaria no trecho a seguir.
Procurei sair de Cuiabá já por volta das dez horas da manhã, por acreditar que isto me pouparia do tráfego mais intenso de caminhões. Nada feito. Já na saída da cidade me deparei com filas intermináveis de caminhões que se moviam em grande velocidade por uma estrada muito ruim. 
Ali não havia nada de “curtir” a viagem. Era olhar para frente com o máximo de atenção possível e manter uma distância segura dos caminhões. Se é que tal coisa fosse possível, já que eles pareciam estar acelerando à toda. Simplesmente ignoravam os buracos e irregularidades na pista, o que não era possível para mim. Ultrapassagens eram impraticáveis. Não havia visibilidade para arriscar na contra-pista.
Ao lado da pista única, esburacada e irregular, uma obra de duplicação que deveria ter sido concluída por ocasião da copa, caminhava a passos de tartaruga.
Achei realmente incrível que o país que aposta na soja para manter o superávit de sua balança comercial é o mesmo que mantém um infra-estrutura para lá de precária para escoar esta mesma soja. Afinal, não estamos falando de uma rodovia secundária ou de uma BR ligando localidades de pouco movimento, como é o caso de Cruzeiro do Sul e Rio Branco. Estamos falando de uma rodovia que liga três grandes estados do centro-oeste (Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás) e única via escoamento da soja do Mato Grosso, a “capital do agronegócio”. Não é preciso ser especialista para sentir na pele a inviabilidade do escoamento através daquela rodovia precária e perigosa.
Adiante daquele trecho, a paisagem muda consideravelmente quando se cruza a Serra de São Vicente. Uma das paisagens mais belas de toda a viagem. A vegetação inspira uma transição engre Amazônia, Cerrado e Pantanal e aparentava estar bem preservada.
As condições naquele trecho também são bem distintas. A pista é feita de concreto, bem regular e em ótimas condições.
Infelizmente a alegria durou pouco e para além da Serra de São Vicente as condições voltam a ser as piores possíveis.
Uma situação me chamou a atenção. As balanças e postos da polícia rodoviária federal estavam desativados quando passei. Em um deles foi possível ver dezenas de veículos da PRF sucateados, mofando ao tempo. Ora, se nem balanças e nem PRF estão ativos, é óbvio que há excesso de carga, destruindo o que resta da rodovia e colocando em risco a vida dos condutores.
Uma chuva fina, fria e insistente me acompanhava e determinada hora, a “luz vermelha” ascendeu.
Durante um trecho em declive, tive a percepção de que minha segurança era próxima de zero. Além de ter que manter uma velocidade acima do que gostaria, um caminhão naquela estrada, sob aquela chuva, e provavelmente com excesso de peso não teria como deter seu movimento antes de passar por cima de mim e de minha motocicleta.
O acostamento na maior parte do trajeto era innexistente ou inútil para o caso de uma saída de emergência da pista.
O objetivo inicial era chegar em Campo Grande, mas dadas as condições, diminuí minhas expectativas para alcançar ao menos a cidade de Rondonópolis, no sul do MT.
Contudo, nem mesmo isso foi possível. Há cerca de 60 kms de Rondonópolis, meu corpo já estava completamente travado da tensão na estrada. Foi quando resolvi parar.
No acostamento ao lado da pista corria uma água vermelha proveniente dos canaviais da região. Foi quando vi uma singela placa de “Hotel a 500 mts” na beira da estrada.
Imaginei que se tratava de alguma pousada simples, mas que me seria útil para passar a noite e continuar quando a chuva tivesse cessado no dia seguinte.
Dirigi por 500 metros em uma estrada de terra que corria entre uma plantação de cana-de-açúcar e para minha total supresa cheguei a um grande e luxuoso hotel.
A razão para o hotel naquele local no município de Juscimeira é que suas terras vermelhas guardam águas termais, muito procuradas pelos moradores de Cuiabá.
Depois de encharcar o saguão do luxuoso hotel com a água lamacenta de minhas calças e botas, fui atendido por um rapaz, que talvez por estar fora de temporada, me fez um preço bem amigável pela estadia.
Nem é preciso dizer que passei horas e horas dentro das piscinas de águas termais do hotel, muito agradecido por poder desfazer a tensão muscular de horas de estrada.
Pensava em partir no dia seguinte, mas as chuvas continuaram caindo até a metade do dia, o que me levou a permanecer por mais uma noite no hotel.
Parti no dia seguinte, sob um sol ainda incerto, mas sem chuva.
Poucos quilômetros adiante cruzei com uma carreta de soja tomabada pelo caminho.

A estrada estava bloqueada. Acompanhei veículos tracionados que se arriscavam por um ramal que corria paralelo à estrada pelo meio de um canavial.
Corria pelas estradas a notícia de que havia uma paralização dos caminhoneiros em Rondonópolis. Para o leitor que não conheça, cabe a breve explicação da importância estratégica de Rondonópolis que funciona como um entrocamento rodoviário entre Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás. Portanto, uma paralização nesta cidade, paraliza em tese, a maior parte do escoamento da soja proveniente do centro-oeste do país.
Ao me aproximar de Rondonópolis, percebi que as condições da estrada eram bem melhores. De fato, havia ali uma paralização que cruzava a cidade de uma ponta a outra.
Conversei com dois caminhoneiros. O primeiro deles, um catarinense que além de não ver muita razão na greve, demonstrava estar bastante insatisfeito com a mobilização.
“-É tudo política. É o sindicato que nunca faz nada querendo aparecer”, disse.
Mas apesar de aparentemente insatisfeito, não parecia estar revoltado, ou impaciente. Fez como a maioria dos caminhoneiros faz em situações que não pode seguir adiante: colocam seus banquinhos do lado de fora, tomam chimarrão ou até preparam, quem sabe, um arroz de carreteiro no fogareiro portátil. Este povo das estradas é realmente admirável!
O segundo com quem conversei, igualmente catarinense igualmente tomava o seu “mate” no banquinho, mas este, favorável à mobilização da categoria.
Para mim, a recém anunciada subida no preço dos combustíveis e a péssima condições das estradas pareciam razões de sobra para a revolta.
Contudo, para este caminhoneiro com quem conversei, a maior tragédia era a concorrência dos caminhões bi-trem, com alta capacidade de tonelagem e que, no seu entendimento eram concorrência desleal aos caminhoneiros pequenos, que vivem por conta própria.
“- Com esse preço do frete e o que a gente gasta de manutenção não tem mais como a gente se bancar. Eu só não vendo meu caminhão de teimoso. Mas tá todo mundo vendendo o seu e virando empregado.”
Entre as inúmeras dificuldades da categoria, riscos e perigos nas estradas, o que mais o incomodava era a incerteza de manter o modo de vida que havia escolhido para sí mesmo e que lhe garantia o seu sustento e de sua família há pelo menos três décadas, com invejável senso de autonomia.
Esta é uma das horas em que se dá graças a Deus por se estar em duas rodas, e não quatro. Pois foi quando atravessei tranquilamente a fila quilométrica de caminhões em Rondonópolis deixando para trás a manifestação dos caminhoneiros.
Dali em diante, as condições da estrada melhoraram muito. Além da divisa do Mato Grosso com o Mato Grosso do Sul e até Campo Grande a estrada estava já duplicada. O cenário mudou bastante: a rodovia que parecia abandonada na maior parte do Mato Grosso, no estado de Mato Grosso do Sul estava bem cuidada. As balanças estavam todas funcionando e os postos da Polícia Rodoviária Federal estavam todos ativos. É um desses mistérios de difícil explicação: como uma mesma rodovia federal pode variar tanto de um estado para outro?
Cheguei a Campo Grande por volta das quatro e meia. O sol de fim de tarde dourava as copas das ruas arborizadas da cidade.
