Sandra Martins
Denúncias de racismo nas escolas, em universidades, nas redes sociais, nos serviços públicos, na polícia, na mídia. Sempre o mesmo discurso da manutenção do padrão: negro + pobre + favelado = bandido. Tais fatos, do nosso cotidiano, são o resultado do conhecido racismo. Sabe aquela doença trazida pelo DNA dos colonizadores ocidentais? Pois é… Temas como esse foram densamente refletidos pela filósofa e feminista negra Lélia Gonzalez, que, se estivesse viva, estaria com 80 anos.
Entender esse mecanismo do racismo e a construção de estratégias para seu combate baseou o pensamento de
Lélia Gonzalez. Essa pensadora negra brasileira foi homenageada no Projeto Memória da Fundação Banco do Brasil, com a Rede de Desenvolvimento Humano (Redeh) e Brasilcap.
Parte da mostra emoldurou o debate, no último dia 6, no Sindicato dos Jornalistas do Município do Rio de Janeiro, mediado pela sua Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial. Na mesa, amigas e discípulas: a socióloga e mestre em História Comparada, Elizabeth Viana, e a doutoranda em Políticas Públicas, Rosália Lemos.
De família numerosa, penúltima de 18 filhos, Lélia migrou de Belo Horizonte para o Rio de Janeiro, com apoio do irmão mais velho, Jorge, jogador do Flamengo. Fez geografia e história. Foi docente do ensino secundário e superior.
Embranquecida, aprendeu que o racismo mata. Seu marido, de origem italiana, se suicidara. Não suportou a pressão racial de sua família. A dor a faz mergulhar na sua negritude, em seu povo e sua religião. O estudo e o ativismo no movimento negro e no feminismo negro a reerguem.
Para ela, a mulher negra sempre foi a mais oprimida na nossa sociedade. Ela questionou a situação da trabalhadora doméstica: “afinal, a trabalhadora rural de hoje não difere muito da ‘escrava do eito’ de ontem; a empregada doméstica não é muito diferente da ‘mucama’ de ontem; o mesmo poderia dizer-se da vendedora ambulante, da ‘joaninha’, da servente ou trocadora de ônibus de hoje, e ‘escrava de ganho’ de ontem”.
Será que muita coisa mudou mesmo?
* Sandra Martins, jornalista e integrante da Cojira-Rio/SJPMRJ