19/09/2026

Bolívia acusa facções brasileiras de tomar estradas e recrutar jovens na fronteira com o Acre

Segundo o governo boliviano, organizações também estariam recrutando cidadãos locais em Pando

Por Redação ContilNet
Oviedo afirmou que determinou uma atuação imediata das forças de segurança no departamento de Pando | Foto: Reprodução

O governo da Bolívia denunciou a atuação de organizações criminosas brasileiras em áreas próximas à fronteira com o Brasil e afirmou que integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) estariam recrutando cidadãos bolivianos e ampliando sua presença em regiões estratégicas do país. A acusação foi apresentada pelo ministro de Governo, Marco Antonio Oviedo, durante uma sessão da Assembleia Legislativa Plurinacional, em meio à discussão sobre a prorrogação do estado de exceção na Bolívia.

Entre os locais citados pelo ministro está Santa Rosa del Abuná, no departamento de Pando, no extremo norte boliviano e próximo à fronteira com o Acre. Segundo Oviedo, organizações criminosas brasileiras estariam tentando ampliar o controle sobre a região e utilizando estradas locais para cobrar valores de comerciantes e transportadores.

LEIA TAMBÉM: Liderança de facção é alvo da polícia por mandar executar homem no Acre

Uma das principais denúncias envolve uma estrada que liga Santa Rosa del Abuná a Montevideo, na região de fronteira com o Brasil. De acordo com o ministro, o trecho estaria sob domínio do Comando Vermelho e homens armados com fuzis estariam cobrando pagamentos para permitir a passagem de mercadorias.

“Esta rota está em Santa Rosa até Montevideo, fronteira com o Brasil, encontra-se tomada pelo Comando Vermelho, estão armados com fuzis e exigem pagamentos pelo passo de mercadoria”, afirmou Oviedo durante a sessão.

O ministro também afirmou que uma organização ligada ao PCC estaria tentando assumir o controle de Santa Rosa del Abuná./ Foto: reprodução

O ministro também afirmou que uma organização ligada ao PCC estaria tentando assumir o controle de Santa Rosa del Abuná. Segundo ele, a atuação das facções brasileiras na região não seria recente e teria avançado a ponto de envolver moradores locais. Oviedo declarou que os grupos passaram a recrutar jovens bolivianos para integrar suas estruturas.

As acusações foram feitas em um momento de forte tensão política e social na Bolívia. Na mesma sessão em que o ministro apresentou as denúncias, a Assembleia Legislativa discutiu a extensão do estado de exceção decretado pelo governo de Rodrigo Paz. A medida acabou sendo aprovada na madrugada de quinta-feira (17) por mais 90 dias.

Ampliação do Estado de Exceção

Ao todo, 100 dos 158 parlamentares votaram a favor da prorrogação, segundo informações divulgadas pela imprensa boliviana. A decisão mantém por mais três meses os poderes extraordinários previstos pelo governo para lidar com os conflitos que atingem o país.

O estado de exceção havia sido decretado em junho, depois de uma série de bloqueios de estradas e manifestações que afetaram o transporte, o abastecimento e a circulação de pessoas e mercadorias. O governo argumentou que ainda existe risco de novos bloqueios e episódios de instabilidade.

Congresso da Bolívia amplia estado de exceção por 90 dias

Congresso da Bolívia amplia estado de exceção por 90 dias | Foto: Reprodução

A situação econômica também pesa sobre o cenário enfrentado pelo governo boliviano. O país atravessa uma crise marcada por dificuldades no abastecimento de combustíveis, falta de moeda estrangeira, déficit fiscal e redução das reservas internacionais. Na sexta-feira (18), o governo conseguiu aprovação legislativa para um acordo de US$ 1,9 bilhão com o Fundo Monetário Internacional (FMI), dentro de uma estratégia de busca por financiamento externo.

Após apresentar as denúncias sobre o PCC e o Comando Vermelho, Oviedo afirmou que determinou uma atuação imediata das forças de segurança no departamento de Pando. A ordem foi direcionada à Polícia Boliviana, com a intenção de verificar e responder à situação denunciada em Santa Rosa del Abuná.

O governo também anunciou reforço das operações em outras regiões de fronteira. Municípios como San Matías e San Ignacio de Velasco, no departamento de Santa Cruz, foram citados entre as áreas que receberão atenção das forças de segurança bolivianas. A estratégia anunciada inclui o emprego de unidades especializadas e o aumento da presença policial e militar.

A localização de Santa Rosa del Abuná aumenta a relevância do caso para o Acre. O município fica em Pando, departamento que faz fronteira direta com o estado brasileiro. A capital boliviana de Pando, Cobija, está localizada ao lado de Brasiléia e próxima de Epitaciolândia, formando uma das principais áreas de circulação entre o Acre e a Bolívia.

A região de fronteira possui intensa circulação de pessoas e mercadorias e é considerada estratégica pelas forças de segurança dos dois países. Por isso, qualquer avanço de organizações criminosas em território boliviano pode representar preocupação para as autoridades brasileiras, principalmente pela possibilidade de utilização das rotas fronteiriças para transporte de drogas e outros produtos ilegais.

PCC e Comando Vermelho são organizações criminosas brasileiras com histórico de atuação no tráfico de drogas e de disputas por rotas e mercados. A Bolívia, por sua vez, é um importante país produtor de cocaína e possui uma extensa fronteira terrestre com o Brasil, o que faz com que suas regiões fronteiriças sejam monitoradas pelas forças de segurança dos dois países.

Apesar da gravidade das declarações, as informações divulgadas publicamente até o momento têm como principal base as afirmações do ministro Marco Antonio Oviedo. Não foram apresentados, nas reportagens consultadas, detalhes de provas independentes que permitam confirmar a extensão do suposto controle territorial exercido pelo Comando Vermelho na estrada citada ou dimensionar quantos integrantes das organizações criminosas estariam envolvidos na região.

Também não havia, até a divulgação das informações, detalhes públicos sobre uma operação que tivesse desarticulado o suposto ponto de cobrança mencionado pelo ministro, nem informações confirmadas sobre prisões ou apreensões diretamente relacionadas à denúncia.

O governo boliviano, entretanto, afirma que pretende intensificar o combate às organizações criminosas e aumentar a presença das forças de segurança nas regiões de fronteira. A determinação para reforçar a atuação em Pando ocorreu justamente após as denúncias apresentadas por Oviedo.

A declaração do ministro acontece ainda em meio a uma mudança na política de segurança do governo de Rodrigo Paz, que vem defendendo medidas mais duras contra organizações criminosas e grupos envolvidos nos bloqueios e conflitos internos. A prorrogação do estado de exceção amplia o período em que o Executivo poderá utilizar os mecanismos extraordinários previstos na medida.

Para o Acre, o caso chama atenção principalmente pela proximidade de Pando com os municípios brasileiros de Brasiléia e Epitaciolândia. A eventual confirmação de uma estrutura criminosa organizada em território boliviano, especialmente com controle de rotas e recrutamento de moradores, poderá aumentar a preocupação das autoridades dos dois lados da fronteira e exigir novas ações de cooperação entre Brasil e Bolívia.

Bloqueador de anuncios detectado

Por favor, considere apoiar nosso trabalho desativando a extensão de AdBlock em seu navegador ao acessar nosso site. Isso nos ajuda a continuar oferecendo conteúdo de qualidade gratuitamente.