Realizado no último domingo (5), o primeiro dia de provas do Exame Nacional de Ensino Médio (Enem) 2017 surpreendeu milhões de participantes ao trazer um tema inusitado para a redação deste ano: “Desafios para a formação educacional de Surdos no Brasil”. Mesmo dividindo opiniões, nunca se falou tanto sobre inclusão no Brasil, e o tema foi amplamente celebrado por educadores e Surdos nas redes sociais.

Diferença entre Surdos e deficientes auditivos vai além da biologia, sendo também uma divisão social e cultural/Foto: MPF
No Estado do Acre, segundo informações da diretoria de ensino especial da Secretaria de Estado de Educação e Esporte (SEE), existem cerca de 4.770 pessoas com deficiência, sendo 228 destas Surdas. Em Rio Branco, existem cerca de 111 alunos Surdos na rede regular de ensino e 80 intérpretes da Língua Brasileira de Sinais (Libras) diretamente ligados ao Centro de Apoio ao Surdo (CAS) da secretaria.

(Da esq. pra direita) Intérpretes Diana Aguiar, Lucilene Santiago, Débora Nolasco, e Socorro Rodrigues, coordenadora do CAS/ Foto: ContilNet
“É válido e necessário que o Brasil pare para discutir sobre o assunto. Nossos 38 funcionários – entre Surdos e ouvintes – estão comemorando a escolha do tema. Nós avançamos muito em conquista e espaço na sociedade, mas ao ver certas opiniões relacionadas à redação do Enem, percebemos o quanto as pessoas ainda não se preocupam em tentar entender a realidade das diferenças”, disse Socorro Rodrigues, coordenadora do CAS em Rio Branco.
Débora de Oliveira Nolasco, de 47 anos, é Surda, pedagoga, acadêmica do curso de Letras/Libras na Ufac e intérprete no Centro. Sobre o destaque nacional trazido pelo Ministério da Educação (MEC) às necessidades ligadas à educação inclusiva, Débora afirma: “Se trata de uma sensibilidade ímpar. E um dos pontos que isso traz é exatamente o da necessidade de se estudar a Libras, de tentar ampliar a capacidade de comunicação dentro da sociedade a partir da educação básica”.
Glaycianni Araújo, de 34 anos, é professora intérprete no Colégio Estadual Barão do Rio Branco (CEBRB). O filho de Glaycianni, Carlos Vinícius Pinheiro, de 16 anos, estuda na Escola Alcimar Nunes Leitão e faz parte dos 111 alunos Surdos do ensino regular. Para o estudante, é uma chance de incentivar o debate e mostrar que a comunidade surda não é limitada.

Glaycianni Araújo e o filho Carlos Vinícius Pinheiro, estudante surdo da rede regular de ensino/ Foto: Arquivo pessoal
“O tema fala diretamente comigo, pois pede que os participantes discorram sobre os desafios educacionais ligados a mim e outros como eu. Incentivar mais pesquisa e busca sobre essa realidade é um ponto positivo da escolha do tema”, disse Carlos.
Úrsula Maia, educadora responsável pela diretoria de ensino especial da SEE, questiona: “Como não discutir isso no Brasil? Mesmo com o avanço na oferta de cursos de Libras, ainda existe um déficit na amplitude comunicacional entre ouvintes e Surdos. Mas felizmente, graças a esse incentivo do MEC, esperamos que mais pessoas pensem nessa proposta e no que ela representa. Quais são esses desafios? O que já foi feito, o que está sendo feito e o que pode ser feito para fortalecermos ainda mais essa união entre surdos e ouvintes?”.
LEI Nº 10.436
Sancionada em abril de 2002, a lei reconhece como meio legal de comunicação e expressão a Libras e outros recursos de expressão a ela associados, sendo que, de acordo com o Art. 2º da lei, devem ser garantidas (por parte do poder público em geral e empresas concessionárias de serviços públicos) formas institucionalizadas de apoio ao uso e difusão da Língua Brasileira de Sinais, destacando-a como meio de comunicação objetivo e de utilização corrente das comunidades Surdas do Brasil.

Funcionários do CAS celebraram escolha do tema da redação do Enem 2017/Foto: ContilNet
