Pesquisador do Acre integra estudo que revelou ‘cobra-cega’, nova espécie de anfíbio
A ciência feita no Acre ganhou destaque internacional em um estudo que revelou uma nova espécie de anfíbio e corrigiu falhas históricas de classificação biológica em acervos científicos. A pesquisa, que descreve a Siphonops maria (popularmente apelidada de “cecília-maria”), contou com a contribuição do pesquisador Paulo R. Melo-Sampaio, do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Acre (Ifac), de Xapuri.
Liderado por cientistas do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), o artigo científico chamado “Avaliação filogenética e osteológica de espécimes atribuídos a Siphonops hardyi(Gymnophiona: Siphonopidae), com a descrição de uma nova espécie do Rio de Janeiro, Brasil” foi publicado no periódico científico Zoological Journal of the Linnean Society.
O estudo reuniu especialistas de diversas partes do Brasil e do exterior para investigar a família Siphonopidae, grupo de anfíbios escavadores conhecidos popularmente como “cobras-cegas”. De acordo com o Museu, as análises se concentraram na segunda família mais rica em espécies de cecílias da América do Sul, a Siphonopidae, que registra ocorrências em todos os biomas brasileiros, mas com maior concentração na Amazônia e Mata Atlântica.
O artigo apontou, ainda, que o nome tem sido usado de forma equivocada para catalogar diversos espécimes de linhagens semelhantes, em relação ao aspecto externo.
Para o estudo, os cientistas combinaram análise filogenética molecular com morfologia externa, dentição e estudo comparativo dos ossos do crânio. Foram observados quase 30 parâmetros diferentes, que ajudaram a identificar diferenças da anatomia de cada grupo.
Correção técnica e alta tecnologia
A nova espécie, coletada em remanescentes de Mata Atlântica no estado do Rio de Janeiro, mede até 19,2 cm e possui hábitos subterrâneos. O grande mérito da pesquisa foi identificar que diversos exemplares do animal estavam catalogados de forma errônea em coleções herpetológicas brasileiras e internacionais sob a alcunha de outra espécie (Siphonops hardyi).
Homenagem histórica
Além do avanço científico, o nome dado à espécie traz uma forte carga histórica e social. O epíteto maria homenageia uma mulher escravizada no século XIX que, sem sobrenome registrado pelo sistema escravocrata da época, participou do reflorestamento da Floresta da Tijuca, plantando milhares de árvores sob ordens do império.
Segundo os autores, a escolha também faz referência ao nome feminino mais comum no Brasil, simbolizando uma homenagem a todas as mulheres brasileiras.
A nova espécie
Nome científico: Siphonops maria
Nomes populares sugeridos pelos autores: cecília-maria, cobra-cega-de-maria
Família: Siphonopidae
Gênero: Siphonops
Ocorrências: Mata Atlântica, municípios do Rio de Janeiro e Niterói – RJ
Os pesquisadores autores e suas respectivas instituições e localidades de origem:
- Adriano Oliveira Maciel: Coordenação de Zoologia, Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), Belém, Pará, Brasil.
- Leandro de Oliveira Drummond: Laboratório de Ciências Ambientais, Centro de Biociências e Biotecnologia, Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF), Campos dos Goytacazes, Rio de Janeiro, Brasil.
- Paulo R. Melo-Sampaio: Ciência e Tecnologia do Acre, Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Acre (IFAC), Xapuri, Acre, Brasil.
- Cristian Hernández-Morales: Instituto Argentino de Investigaciones de las Zonas Áridas, Consejo Nacional de Investigaciones Científicas y Técnicas (Conicet), Mendoza, Argentina; Escuela de Biología, Universidad Industrial de Santander, Bucaramanga, Colômbia.
- Manuela Vieira dos Santos: Coordenação de Zoologia, Museu Paraense Emílio Goeldi, Belém, Pará, Brasil.
- Iracilda Sampaio: Laboratório de Genética e Biologia Molecular, Instituto de Estudos Costeiros, Universidade Federal do Pará (UFPA), Bragança, Pará, Brasil.
- Horacio Schneider: Laboratório de Genética e Biologia Molecular, Instituto de Estudos Costeiros, Universidade Federal do Pará (UFPA), Bragança, Pará, Brasil.
- Lucas de Souza Almeida: Laboratório de Herpetologia, Departamento de Biodiversidade e Centro de Aquicultura (Caunesp), Instituto de Biociências, Universidade Estadual Paulista ‘Júlio de Mesquita Filho’ (Unesp), Rio Claro, São Paulo, Brasil.
- Thiago Marcial de Castro: Pesquisador Independente, Guarapari, Espírito Santo, Brasil.
- Edelcio Muscat: Projeto Dacnis, Ubatuba, São Paulo, Brasil.
- Luís Felipe Toledo: Laboratório de História Natural de Anfíbios Brasileiros (LaHNAB), Departamento de Biologia Animal, Instituto de Biologia, Unicamp, Campinas, São Paulo, Brasil.
- Alexander Kupfer: Department of Zoology, State Museum of Natural History, Stuttgart, Alemanha;Institute of Biology, University of Hohenheim, Stuttgart, Alemanha.
- Ana L.C. Prudente: Coordenação de Zoologia, Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), Belém, Pará, Brasil.