Como pesquisadores chegaram ao fóssil de tartaruga gigante no Acre
Um fóssil de tartaruga gigante, medindo mais de 2 metros, foi encontrado em Assis Brasil, no Acre, em 2025. Como divulgado na época, o registro era histórico e impressionante, mas o que ninguém sabe é como se deu a descoberta e como foi o trajeto até o local. A professora Annie Schmaltz Hsiou, que fez parte do registro, publicou um artigo com um relato sobre o dia.
O artigo da professora foi publicado no site The Conversation e repercutido também no portal da Superinteressante. Annie Schmaltz Hsiou é professora associada III e livre-docente do Departamento de Biologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto, na Universidade de São Paulo (USP).
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A professora conta que subiu o Rio Acre de barco durante sete horas até chegar nas proximidades da Aldeia dos Patos, no território do povo indígena Manchineri.
“Era junho de 2025 e ainda tenho uma memória vívida daquele dia. Depois de sete horas subindo o rio Acre de barco, finalmente alcançamos a lendária localidade fossilífera conhecida como Patos, situada nas proximidades da Aldeia dos Patos, no território do povo indígena Manchineri”, disse.
De acordo com a professora, a área possui grande importância paleontológica para a Amazônia Ocidental brasileira, especialmente para o Estado do Acre. A região localiza-se na Terra Indígena Cabeceira do Rio Acre, na fronteira entre o Brasil e o Peru, e é considerada como um dos sítios fossilíferos mais relevantes da região.
Confira um trecho do artigo de Annie Schmaltz Hsiou:
“Chegar até ali, contudo, exige mais do que curiosidade científica. O isolamento geográfico impõe uma verdadeira prova de resistência. Durante a estação seca amazônica, o nível do rio Acre baixa drasticamente, revelando bancos de areia e “pauzadas” (que são acúmulos de galhos e troncos que ficam enroscados nas margens ou no leito dos rios e dificultam a navegação).
Em períodos de estiagem prolongada, a travessia torna-se ainda mais penosa: muitas vezes é preciso abandonar o barco e empurrá-lo, exigindo atenção (para não pisar nas arraias) e resistência física.
Essa dificuldade explica por que as expedições científicas a Patos são raras. Entre uma expedição e outra, podem transcorrer anos (às vezes décadas), como se a própria dinâmica da Amazônia decidisse, em seu ritmo hidrológico, quando permitir novamente a entrada daqueles(as) que buscam decifrar os vestígios profundos de seu passado.
Uma descoberta inesperada
Nossa equipe era formada por 16 pessoas, entre pesquisadores(as), estudantes de graduação e pós-graduação, além de barqueiros da Reserva Extrativista Chico Mendes, em Assis Brasil (AC).
Assim que o barco encostou próximo ao local onde montaríamos o acampamento, eu e Edson Guilherme Silva – docente, pesquisador da UFAC e meu grande parceiro de mais de 20 anos de pesquisas paleontológicas na Amazônia brasileira – saltamos quase ao mesmo tempo, tomados pela ansiedade de chegar logo ao afloramento fossilífero.
Quando finalmente pisamos nas rochas de Patos, seguimos imediatamente para o ponto que, numa expedição anterior, em 2022, havia rendido alguns dos fósseis mais importantes do sítio — aves, serpentes e pequenos roedores.
Foi então que, de repente, ouvimos os gritos de Negri. O professor Francisco Ricardo Negri, da UFAC de Cruzeiro do Sul, meu grande amigo e um paleontólogo extremamente experiente, vinha logo atrás de nós. Ele estava no início do afloramento, enquanto já nos encontrávamos cerca de cem metros adiante.
No começo, achei graça da agitação. Comentei que toda aquela gritaria só podia significar que Negri havia encontrado algo importante e que talvez devêssemos voltar. Guilherme, porém, estava obstinado em encontrar sua primeira ave fóssil daquela expedição — afinal, essa sempre foi sua especialidade.”
Confira o artigo completo no site The Conversation.