Por João Paulo Cunha
O cenário de crise internacional parece deixar todo mundo mais cuidadoso. Como se um leve desequilíbrio fosse suficiente para fazer todo do conjunto balançar.
Assim, mesmo com propósitos de mudança – ou de dar sequência às transformações em curso na sociedade brasileira – estamos vendo um jogo de acenar com uma mão para o mercado, como quem pede tempo, para depois chegar de fato ao que interessa. A mão esquerda ainda está escondida.
O curioso nessa estratégia é sua tripla ineficácia, quando se consideram os propósitos de um governo de centro-esquerda, eleito democraticamente.
Em primeiro lugar, tudo parece atender às críticas que partem da oposição por meio de seu centro orgânico de “pensamento”, situado na chamada grande imprensa. Aqui o governo erra ao escolher o interlocutor errado, raivoso e incapaz de diálogo.
Além disso, acaba por submeter medidas mais explícitas de seu projeto a uma lógica do adiamento, como se fosse necessário primeiro dar um passo atrás para pacificar o terreno e com isso se qualificar para os avanços reais.
O terceiro prejuízo é político, já que dilui o potencial de transformação de seu programa em favor das condições de governabilidade. O que reforça a necessidade urgente da reforma política.
Talvez a mais simbólica distinção entre esquerda e direita esteja exatamente na consideração do tempo: para a primeira, as condições de transformação estão sempre dadas pelo conjunto das forças sociais presentes na sociedade; já os conservadores têm tempo, faz parte de sua ética adiar um pouco mais a justiça social.
O recado dado por todos os lados, até mesmo pelas forças da natureza que torram o planeta e matam as fontes, é claro: a hora já chegou. As pessoas estão com sede de mudança.
Isso significa alterar o jogo e partir para o ataque. O desafio dado pela nova conjuntura exige reconsiderar quase tudo que se tinha como certo há pouco mais de seis anos. O modelo de desenvolvimento precisa ser outro; outra a realidade do exercício da política.
Não se pode mais esgotar as atitudes necessárias em nome de um desenvolvimentismo clássico, nem de uma política que deixe de lado o planejamento participativo e o resgate de bandeiras históricas no campo das políticas públicas, em nome apenas do fetiche da gestão.
Além disso, o aprofundamento da desigualdade e a concentração de renda (nunca o orgulhoso 1% foi tão rico na história do capitalismo) exigem transformações no padrão tributário e do papel regulador do Estado, com taxação de fortunas, heranças e rendas de capital, em favor de uma mudança de patamar, que vá da distribuição à redistribuição de renda.
Do combate à miséria às políticas de equidade. O novo concerto econômico das nações traz ainda uma centralidade difusa e a inauguração de novos canais e forças políticas, com as quais o país precisa aprofundar suas relações de forma altaneira e independente.
Por fim, e talvez o mais importante, seja a urgente transformação cultural que aponta para novo modelo de produção e consumo.
A imitação de um estilo inviável de vida, fundado no gozo da posse de objetos, é apenas a ponta de um processo que deixa suas feridas para todo lado: na inviabilidade ecológica, na competitividade abusiva que esgarça a solidariedade, na descartabilidade do trabalhador, na matriz energética insustentável.
As mesmas pessoas que têm um carro em casa para cada morador, criticam a construção de ciclovias. Há um egoísmo social insidioso na base do padrão de existência apresentado como desejável.
Todas as mudanças precisam ainda ser feitas num ambiente de transparência, defesa intransigente dos direitos humanos, combate aos desvios e valorização do capital participativo.
Não são poucas tarefas, mas traduzem um desejo expresso pela população de forma livre e democrática. E com ela que cabe agora dialogar.